O que a problemática dos refugiados pode nos ensinar sobre a Solidariedade
Segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O que a problemática dos refugiados pode nos ensinar sobre a Solidariedade

Muito já se falou sobre os atentados em Paris e sobre o terrorismo; é evidente que muita coisa ainda pode ser dita e haverá de ser, mas este artigo não é sobre isto. Vamos falar sobre os refugiados, pois são vítimas do terrorismo e se colocam como um “grande problema” que devemos (aprender a) lidar – coloquei “grande problema”, entre aspas, porque não quero repetir a estupidez de certo deputado que disse que os refugiados eram escórias. Não! O problema não são os refugiados, mas a forma de sociedade que construímos que não é preparada para receber pessoas diferentes.

Recentemente o filósofo Slavoj Žižek publicou um artigo chamado “In the wake of Paris attacks the left must embrace its radical western roots” no jornal inthesetimes.com.

Žižek trata dos ataques em Paris, do problema dos refugiados e da função da esquerda mundial nesta onda toda. Segundo ele, a questão de regras e normas precisa ser levada a sério, pois a cultura da maioria dos refugiados é incompatível com as noções de cultura que o Ocidente tem. Assim, a solução para a crise dos refugiados passa pelo problema da tolerância.

Žižek vê um problema sério aqui, porque a tolerância significa respeitar a sensibilidade de cada um; acontece que os muçulmanos acham que é impossível suportar nossas imagens blasfemas e nosso humor imprudente – coisas que consideramos parte de nossa liberdade; da mesma forma que nós ocidentais não conseguimos suportar muitas práticas da cultura muçulmana que eles consideram parte da liberdade deles.

Resumo? O bicho sempre pega quando membros de uma comunidade religiosa consideram como blasfemo ou prejudicial – ao ponto de atrair a ira de Deus – o estilo de vida de outra comunidade.

Então o Žižek dá conselhos interessantes para sabermos lidar com a vinda de refugiados: primeiro, o que tem que ser feito é construir um conjunto mínimo de normas, obrigatório, onde esteja inclusa a liberdade religiosa, a proteção da liberdade individual, os direitos das mulheres, etc, e tudo isto sem que ser feito sem o medo de parecer "ocidental demais". Segundo, devemos insistir na tolerância. Na aceitação de diferentes formas de vida.

Aceitá-los não é só trazê-los, mas dar a todos a oportunidade de um lugar digno para viver. Fácil? Não! A questão toda é que não devemos, sob o risco de estarmos perdendo a nossa humanidade se fizermos diferente, rejeitar os refugiados. Também não podemos abrir mão de nossa cultura e costumes para os receber. E, por fim, não podemos exigir que eles mudem o estilo de vida deles. Aliás, este erro a França cometeu quando em 2011 proibiu os mulçumanos de rezarem em público.

Estamos diante de um exercício gigantesco de tolerância – e de aceitação de que nós, com a nossa cultura, não passamos de um pequeno ponto no infinito universo. Estamos vivenciando um momento excelente para exercitarmos a solidariedade que nos dá coragem para aceitar pessoas que estão sendo vítimas e, por isto, fugindo de guerras em seus países. Mas aceitar sem mudar nosso jeito de ser e sem mudar quem eles são.

Fácil? Não! Mas podemos começar pensando como Žižek:

Eu acho que nós deveríamos nos opor totalmente a esta chantagem liberal de que temos que nos entender uns aos outros. Não, o mundo é demasiado complexo, não podemos. Detesto pessoas. Não quero entender as pessoas. Quero ter um certo código em que eu não entendo o teu estilo de vida e tu não entendes o meu, mas podemos coexistir.

Por fim, mas não menos importante, não podemos esquecer da Religião. Grande parte de conflitos passam pela religião: quando não é pela luta para ver qual a religião verdadeira, é pelo sentimento religioso presente em toda paixão ideológica.

Nietzsche dizia com acerto que no livro “Humano, Demasiado Humano” que

A pressuposição de todo crente de qualquer tendência é não poder ser refutado; se os contra-argumentos se mostrarem muito fortes, sempre lhes restava ainda a possibilidade de difamar a razão e até mesmo levantar o credo quia absurdum est [creio porque é absurdo] como bandeira do extremado fanatismo. Não foi o conflito de opiniões que tornou a história tão violenta, mas o conflito da fé nas opiniões, ou seja, das convicções.

Precisamos abandonar a convicção de que estamos no continente mais evoluído, com a cultura mais evoluída e de posse de outras evoluções melhores… Também não sou muito simpático às hashtags #oremospor. Ora, quase todo ataque que qualquer Estado faz, para a aprovação da opinião pública, se reza para que “Deus esteja conosco”. Além do mais, orar por alguém traz consigo sempre a ideia de que o nosso Deus é melhor e mais protetor. Não gosto, mas estejam à vontade para orar – e de coração aberto para aceitar quem não deseja as orações.

É isto: eu compreendo que a coisa está no ponto em que o teólogo Huns Kung falou há algum tempo: "ou temos paz entre as religiões/ideologias ou não haverá paz no mundo". E precisamos aceitar, urgentemente, a ideia de que nenhuma barreira ideológica ou política pode apequenar a capacidade que nós temos de aceitar qualquer tipo de pessoa, crença ou ideologia no seio de nossa comunidade.

Wagner Francesco é Teólogo com pesquisa em áreas de Direito Penal e Processual Penal.
Segunda-feira, 23 de novembro de 2015
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