Conselho de ética
Terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Conselho de ética

No desfecho d’O Pagador de Promessas, o personagem Zé-do-Burro morre com um tiro em meio a uma onda humana. Morreu porque não quis conceder. Morreu porque não se prostituiu.

Contra muitos, pelo burro curado, por Iansã ou Santa Bárbara, por si mesmo, Zé-do-Burro caminhou a pé por mais de trezentos quilômetros, da roça até a cidade, a carregar uma pesada cruz de madeira nas costas com o objetivo final de depositá-la no interior da Igreja de Santa Bárbara, mas Padre Olavo fechou a porta do templo para impedir.

Em nota sobre sua peça, o autor Dias Gomes escreveu que “cada um de nós tem pela frente o seu ‘Padre Olavo’”, o qual “não é um símbolo de intolerância religiosa, mas de intolerância universal. Veste batina, podia vestir farda ou toga. É padre, podia ser dono de um truste”. Sobre o protagonista da obra, o dramaturgo anotou: “Zé-do-Burro é trucidado não pela Igreja, mas por toda uma organização social”.

Como grandes obras artísticas, O Pagador de Promessas provoca reflexões atemporais em torno da engrenagem social que envolve o ser humano, estimula a formulação de um “conselho de ética” crítico e pessoal: o que é certo e o que é errado? Quem são os Padres Olavos que figuram no dia a dia e como se deve reagir diante da postura nociva deles? Há liberdade para não se resignar? Qual é a capacidade de o quixotismo resistir às bravatas constantes da realidade?

No terreno da política, reflito sobre acontecimentos verificados nos últimos dias. A Câmara dos Deputados demonstra religiosamente que o governo paga o preço resultante do odioso fisiologismo, das concessões feitas em prol da dita governabilidade. O personagem Zé-do-Burro morreu porque não concedeu, ao passo que o governo, no que concerne aos reflexos de suas próprias ações ou omissões, hoje se deteriora sensivelmente por ter feito o contrário. E por adotar uma agenda política oposta às promessas feitas, perde a popularidade e então pode ouvir de grande parcela do povo uma canja da música de Beth Carvalho: “você pagou com traição/ a quem sempre lhe deu a mão”.  

Política é a arte do possível? Política é a arte do necessário? Já ouvi afirmações nesses sentidos. Porém, a sopa das definições teóricas azeda a partir do contato com definições práticas: a política então se mostra como a arte da malícia, da manobra, da manipulação, da malandragem. 

As relações espúrias levadas a efeito por setores de diversos partidos – situação ou oposição – são maquiadas ou eufemisticamente chamadas de “mal necessário”. Mas com base na fragilidade adquirida pelo partido da situação, delicada situação, quero crer na necessária coerência entre discurso e prática, e assim pensar que essa virtude fortalece e que o oposto viciado arruína. Aí observo que sobre os escombros desse governo resignado aparecem oportunistas oficiais traiçoeiros, com comportamentos típicos de urubus à espreita de cadáveres em decomposição. E percebo que da incoerência eles alimentam a sua força macabra. 

Reginaldo Penezi Júnior é Advogado inscrito na OAB, Assessor Jurídico da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, bacharel em Direito pela PUC-SP (2009-2013), instituição na qual foi Professor Assistente na disciplina de Direito Administrativo (2014).
Terça-feira, 8 de dezembro de 2015
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