Precisamos falar sobre as Teorias da Conspiração
Sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Precisamos falar sobre as Teorias da Conspiração

I. O Assustador Desconhecido

Três constatações parecem inevitáveis quando olhamos para a história humana. Em primeiro lugar: o ser humano busca, sempre, reafirmar as próprias convicções e os próprios modos de vida, e o desconhecido invariavelmente lhe parece assustador. Em segundo lugar: o assustador desconhecido sempre existiu e, de diversas formas, muitas vezes irrompeu e obrigou o ser humano a uma radical mudança de postura. Em terceiro lugar: o ser humano, quando confrontado com o desconhecido, tende a ridicularizá-lo, negando-lhe a importância, e a combatê-lo.

Todos já ouvimos falar do conhecido modelo de Küber-Ross sobre as fases do luto – que, ao tratar da morte, da doença e da tragédia, exemplifica alguns dos tantos casos em que o assustador desconhecido pode irromper em nossas vidas. A negação é o que vem primeiro. Uma piada no velório, um semblante sereno, algumas palavras amenas ditas pelo próprio doente podem ser lugares seguros por algum tempo. A avalanche virá, porém. E é apenas depois da negação que sentimos raiva e combatemos o indesejável, e é apenas depois da raiva que os demais estágios podem vir, culminando, enfim, na aceitação.

Não parece difícil imaginar que, diante do desenvolvimento da teoria de Copérnico por cientistas como Giordano Bruno ou Galileu Galilei, a primeira reação da Igreja tenha sido no sentido da ridicularização. “Se a Terra se movesse, todas as nuvens e pássaros ficariam para trás” – eis uma resposta usual à teoria heliocêntrica. Talvez se ouvissem risos. Beirava o ridículo pensar numa Terra que se movia. Apenas após muitos risos Giordano Bruno foi queimado nas fogueiras da Inquisição. Apenas após a negação vem a raiva.

Freud diz que Copérnico, Galileu e Bruno – que, aliás, retomavam ideias heliocêntricas já antes defendidas por pitagóricos e por Aristarco de Samos, por exemplo – atingiram o ego humano em cheio: era a primeira ferida narcísica da humanidade, que perdia seu posto central no Universo. Posteriormente, Darwin daria o segundo golpe, ao teorizar que o homem nada seria além de uma natural evolução de um animal irracional. E a terceira ferida narcísica, diz Freud nada modestamente, é a ideia por ele próprio trazida sobre o inconsciente – embora, diga-se, em escritos antigos, ocidentais e sobretudo orientais, a noção de inconsciente apareça de forma muito clara, ainda que sob outras terminologias.

O inconsciente ilustra de maneira especialmente incisiva este assustador desconhecido. O homem, tão certo de sua própria grandeza quanto a Igreja era certa da posição central de uma Terra estática num Universo que existia para servi-la, começa a notar que, na realidade, não é verdadeiramente o rei de seus palácios interiores. O homem começa a notar que é governado por forças ocultas, pouco iluminadas. Há pulsões que gritam desde algum recanto escondido em seu íntimo, e ao ego cabe pouco além de procurar manter-se vivo e lúcido nos mares revoltos de sua própria psique.

Aceitar a ideia de inconsciente nunca foi fácil. Freud lutou. Jung muito lutou para falar sobre os arquétipos e sobre o inconsciente coletivo. Aliás, na constatação da existência de um inconsciente coletivo o assustador desconhecido toma dimensões ainda maiores. O inconsciente coletivo sugere que, subterraneamente e ao nosso redor, há forças dos mais diversos graus que, se não guiam inteiramente nossos passos, certamente os influenciam em enorme medida. O inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo deixam bastante claro que nosso mundo cotidiano e consciente é apenas uma fina fatia da integridade da existência. Talvez a essência da existência escape aos olhos presos às ilusões da superfície.

Saindo do mundo psíquico e retornando a assuntos corriqueiros, a internet parece refletir o mesmo cenário. Há, na superfície, a internet conhecida, pela qual navegamos quase diariamente. Há nas profundezas invisíveis, contudo, a deep web: uma rede oculta ainda maior que a já gigantesca rede visível. 

Há coisas magníficas e abjetas na deep web. Há conteúdos extraordinários e odiosos no inconsciente, seja individual ou coletivo. As teorias de Copérnico, Galileu e Bruno certamente se destacaram em meio a um universo de incontáveis teorias ridicularizadas – muitas das quais certamente ridicularizadas de forma compreensível e talvez até justa. 

O que a deep web, o inconsciente e as teorias ridicularizadas e combatidas têm em comum, contudo, é o convite incessante para que notemos que, por debaixo do mundo claro, consciente e superficial, existe um mundo subterrâneo e oculto. Um mundo desconhecido e, portanto, assustador. Um mundo que tememos. Porque tememos, inicialmente negamos. Ridicularizamos. Muitas vezes, com razão. Muitas vezes, ao não abrirmos as portas para o subterrâneo, evitamos tragédias. Mas, ao mesmo tempo, podemos perder a chance de descobrir maravilhas. O inconsciente tem suas pérolas escondidas – talvez a vida apenas valha a pena porque podemos descobrir essas pérolas. Teorias magníficas podem ser pescadas num universo de teorias ridicularizadas e desprezadas. Mesmo o mais incisivo inquisidor não poderia ter esquecido que Jesus nasceu numa negligenciada e talvez ridicularizada manjedoura. 

II. Das heresias às conspirações

No mundo contemporâneo, que segue respirando os ares do Positivismo e da Modernidade, a religião parece ter passado, ao menos em alguma medida, ao menos formalmente e ao menos na maioria dos países do mundo, para um segundo plano. As discussões sobre o processo de secularização ou laicização do mundo são complexas e não quero entrar nelas aqui. Apenas quero destacar que, na maior parte do mundo, ninguém será queimado porque acusado de heresia e ninguém teme declarar-se ateu.

Antigamente, a verdade era revelada e declarada pela Igreja. Em tempos atuais, a noção de verdade, assim como tantas outras noções, parece liquefazer-se, como diria Baumann. Mas, ainda que de maneira difusa, elegemos, há décadas, dois pilares que sustentem o frágil edifício das verdades mais generalizadamente aceitas: de um lado, é claro, a ciência; de outro lado, a mídia de massa. Claro: não estou falando dos estudos científicos desprezados pelas vozes dominantes, nem das mídias alternativas, mas dos estudos científicos amplamente divulgados e da mídia dominada pelas grandes corporações mundiais. Ciência e mídia: eis os oráculos contemporâneos, reveladores da verdade em tempos em que a própria ideia de verdade é questionada.

A ciência e a mídia dominantes têm ampla voz e, portanto, têm amplo poder. As informações que veiculam traçam, dia após dia, uma firme linha entre o verdadeiro e o falso – como faziam, antes, as vozes eclesiásticas. E nenhuma dessas vozes, conforme a história tem reiteradamente nos mostrado, pode se pretender definitiva ou absoluta.

Séculos atrás, os discursos que contrariavam a verdade da Igreja formavam o vasto universo das heresias.

Hoje, parece correto dizer que os discursos que contrariam a ciência e a mídia dominantes formam o também vasto universo das chamadas teorias da conspiração.

E, num e noutro caso, a conotação pejorativa trazida por cada um desses rótulos é conferida justamente pelas vozes dominantes. Se é heresia ou se é teoria conspiratória, não merece ser tomada com seriedade. Merece a ridicularização. Muitas vezes, por certo, com razão. Mas, entre tantas vozes malucas, de repente pode surgir alguma que afirme girar a Terra ao redor do Sol.

Não quero defender, e isso deve ficar claro, que todas as chamadas teorias da conspiração sejam verdadeiras, nem que a maioria delas seja verdadeira. Quero apenas atentar a um dado absolutamente inegável: o mundo obscuro, negligenciado ou enfaticamente negado pode esconder verdades para as quais nossos olhos ávidos pela conhecida luz do cotidiano não querem olhar. E, portanto, quero, sim, defender a necessidade de abandonarmos a cômoda postura de negar ou ridicularizar o obscuro. Olhemos. Investiguemos. Podemos, ao fim, rechaçar o que não nos parece fazer sentido – mas apenas rechacemos depois, e jamais antes de conhecer de forma minimamente aprofundada qualquer assunto.

III. Sobre teorias da conspiração

Falar sobre teorias conspiratórias não é algo novo. Mas parece bastante claro que o tema vem ganhando especial força sobretudo a partir da virada do milênio e do Onze de Setembro.

Fahrenheit Onze de Setembro, de Michael Moore, gerou grande interesse do público ao destacar, entre outros temas, ligações entre as famílias Bush e Bin Laden. Mas, a meu ver, a produção cinematográfica que melhor ilustra as teorias conspiratórias contemporâneas é a trilogia Zeitgeist. Não necessariamente porque brilhante ou irrefutável, mas porque trata de temas conspiratórios centrais e obteve repercussão considerável (no IMDb, por exemplo, traz a expressiva nota média 8.3, a partir da avaliação de mais de 40 mil usuários).

A trilogia Zeitgeist traz todas as marcas das chamadas teorias da conspiração contemporâneas. Diferentemente dos filmes de Michael Moore, Zeitgeist jamais chegou ao grande público pelos circuitos tradicionais. Disseminou-se na internet, de forma subterrânea. E o que é mais importante: apresenta uma hipótese aparentemente tão inconcebível que a primeira reação natural é ridicularizá-la.

A ideia central trazida por Zeitgeist, e que parece estar na alma de todas as teorias da conspiração, é: a história que nos contam sobre o mundo não é a verdadeira história do mundo. Na verdadeira história do mundo – aquela que jamais aparece ao grande público –, os vilões são outros. A trilogia procura demonstrar, ainda que superficialmente, como funciona o escuso jogo dos grandes bancos e das grandes corporações. Demonstra que as guerras são extremamente lucrativas para alguns, e que em muitas das maiores guerras recentes se pôde observar o curioso fenômeno de um mesmo grupo financiar ambos os lados combatentes. 

Até aqui, tudo bem. Nada que um olhar crítico e outras fontes não pudessem revelar.

Zeitgeist traz, porém, mais uma ideia. Sugere fortemente que os supostos ataques do Onze de Setembro não foram o que nos disseram ser. Engenheiros atestam que prédios jamais poderiam desabar como desabaram tendo sido atingidos onde foram atingidos. Imagens pausadas sugerem explosões nos andares mais baixos das torres, como se estas houvessem sido, em realidade, implodidas. Há uma série de depoimentos que procuram reforçar a tese. E por aí vai o documentário, concluindo, por fim, algo que sabemos muito bem: não há dúvida de que o Onze de Setembro deu ensejo a guerras desarrazoadas e a um fortíssimo esquema de vigilância dentro dos Estados Unidos que a alguns pode muito interessar. Guerras, afinal, movimentam dinheiro. Também não parece poder haver dúvida de que a alguns olhos agrada a ideia de um povo disposto a voluntariamente abrir mão da própria liberdade em prol de uma suposta segurança. Finalmente, é claro que, para os propósitos de guerras e supressões de liberdade, a existência de um inimigo pode ser muito interessante – ainda mais um inimigo difuso, sem local certo, em larga medida infiltrado no próprio território e cujas razões soam absolutamente insanas e despropositadas, como é o caso do inimigo “terrorista”.

Essa ideia defendida em Zeitgeist e em muitas outras produções rotuladas “conspiratórias” nos desafia porque convida a conceber um ataque do Estado contra seus próprios cidadãos – e, claro, não queremos imaginar essa possibilidade. Queremos saber de forma muito clara quem são os inimigos, sem confusões. Mas, ao que parece, as evidências da chamada “false flag” existem. Um possível exemplo foi a chamada “Operação Gladio”, na Itália, em que documentos apontam fortemente à possibilidade de o próprio Estado ter perpetrado ataques pontuais à população civil com o fim de atribuí-los aos “comunistas” e, assim, obter maior apoio popular para combater os “inimigos”.

Em tempos de ISIS – um grupo complexo e misterioso, cujo crescimento súbito é ainda largamente incompreendido e que aparece ao grande público de uma forma tão cruel, bruta, unilateral e desarrazoada que beira a mais infantil caricatura do “inimigo” –, essas discussões talvez mereçam ser novamente trazidas. Se é evidente que não há defesa para ataques desumanos contra civis perpetrados por pessoas aparentemente tão apegadas à doutrinação religiosa extremista (e que vai diametralmente contra a essência de qualquer religião), não tão evidente é a resposta à pergunta seguinte: são piores os ataques ou as consequências das respostas aos ataques?

Como todos os temas de relevo, as teorias conspiratórias devem ser analisadas com cuidado. Ali se encontra, certamente, muito lixo – como há muito lixo na deep web, nas heresias ou no inconsciente. Mas os terrenos subterrâneos escondem também suas maravilhas. Entre a ingenuidade que despreza absolutamente o subterrâneo e o deslumbramento acéfalo que aceita irrefletidamente as mais absurdas teorias conspiratórias, há, por certo, um ponto ideal. De alguma forma, as teorias conspiratórias muito chamam a inteligência humana para que saia da estagnação e, sem desprezar as intrincadas teias e explicações fornecidas pelo mundo visível, aprenda a, também, pescar o que de valioso há nos vastos oceanos subterrâneos.

Há muito mais a ser dito sobre o assunto. Por enquanto, fiquemos com essa breve introdução. Nas próximas semanas, procurarei detalhar alguns temas conspiratórios sobre os quais pode valer a pena algum pensamento.

Bruno Amábile Bracco é Mestre e Doutorando em Criminologia pela USP, Defensor Público do Estado de SP, autor do livro "Carl Jung e o Direito Penal".
Sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
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