O que a luta entre o bem e o mal em Star Wars pode nos dizer?
Sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O que a luta entre o bem e o mal em Star Wars pode nos dizer?

O lançamento de Star Wars: o despertar da força causou enorme alvoroço nessa virada de 2015 para 2016. O que pouca gente sabe é que George Lucas, roteirista e idealizador da história original, teve como fonte inspiradora o pensamento de um mitólogo norte-americano absolutamente brilhante: Joseph Campbell.

Já no fim de sua vida, Joseph Campbell concedeu uma longa e bela entrevista a Bill Moyers no rancho Skywalker, de George Lucas. A primeira parte da entrevista pode ser vista, por exemplo, aqui:

Se o leitor assistir a esse vídeo, o que eu recomendo altamente, nem precisa continuar a leitura: já me darei por completamente satisfeito.

Mas, caso você infelizmente não tenha visto o vídeo e ainda esteja comigo, informo que tentarei, nas medidas das minhas possibilidades, descrever algumas das ideias de Campbell. Ainda tento insistir: assista ao vídeo. Leia algum de seus livros. O herói de mil faces, para dar apenas um exemplo, é um dos livros mais belos do último século – e é justamente o livro que influenciou diretamente George Lucas e que, até hoje, serve como base essencial para uma infinidade de roteiros cinematográficos.

1. O Poder do Mito

Toda a obra de Campbell se propõe a fazer uma análise dos mais diversos mitos já produzidos pela humanidade – o que também foi feito por outros pensadores, como Jung, de quem já falei aqui. E, como Jung, Campbell analisa indistintamente as mitologias e as religiões. “Enquanto os prodígios dos heróis clássicos (Heracles, Teseu, Perseu etc.) eram estudados como literatura, os dos hebreus (Noé, Moisés, Josué, Jesus, Pedro etc.) tinham que ser apresentados como história factual. Contudo”, escreveu, “os elementos fabulosos comuns às duas tradições mediterrâneas orientais, exatamente contemporâneas, provêm da precedente civilização mesopotâmica da Idade do Bronze – algo que ninguém, antes do desenvolvimento da moderna ciência da arqueologia, poderia ter suposto”. 

Para Campbell, os mitos e as religiões trazem uma série de símbolos comuns. Encontramos em ambos os terrenos histórias, por exemplo, sobre dilúvios, nascimentos virginais e redentores do mundo. O ponto central que procura defender é: não importa muito se as personagens religiosas e mitológicas de fato existiram – talvez tenham existido, talvez não. O que importa, de fato, é que simbolizam uma realidade interior muito profunda presente em cada um de nós. E essa visão nos convida a uma mudança radical na forma como encaramos não apenas as histórias, mas, acima de tudo, na forma como encaramos o mundo e a nós mesmos. Escreveu Campbell:

Não nos importa muito se Rip van Winkle, Kamar al-Zaman [personsagens míticas] ou Jesus Cristo realmente existiram. Suas histórias constituem nosso objeto; e essas histórias se acham tão amplamente difundidas pelo mundo – vinculadas a vários heróis de várias terras – que a questão de saber se esse ou aquele portador local do tema universal pode ou não ter sido um homem real, histórico, é de importância apenas secundária. 

2. A Jornada do Herói

Para Campbell, existe uma figura central de todas as mitologias e religiões: é a figura do herói. O herói, diz, é aquele que, após um princípio menos ou mais pacífico, é acometido de algum tipo de tragédia e, assim, é chamado à aventura. Após a longa aventura, o verdadeiro herói retorna, trazendo suas bênçãos ao mundo.

A paz da galáxia é abalada pelo lado negro da força. A paz do Éden é rompida pela desobediência de Adão e Eva. A aventura começa. Mas, ao final, a paz primordial haverá de ser reconquistada – agora, em uma oitava superior: uma paz mais firme do que aquela anterior à aventura.

George Lucas apropriou-se de vários temas apresentados por Campbell. Fala, por exemplo, do nascimento virginal. Fala de Darth Vader: um nome que joga com as palavras “dark” e “father”; portanto, fala sobre as forças do dado que dificultam nosso progresso rumo ao novo. Mas, em um ponto, George Lucas simplifica e desvirtua um ensinamento que, na obra de Campbell, é infinitamente mais complexo.

Em Star Wars, há uma incessante guerra entre o lado luminoso e o lado negro da força. Ainda que haja sutilezas – Darth Vader, por exemplo, revela ao final seu lado luminoso, realçando seu parentesco com o Jedi (e, portanto, representante da luz) Luke Skywalker –, toda a série trata, em linhas gerais, de um confronto entre bem e mal. E nós estamos muito familiarizados com esta forma de ver o mundo: contrapomos, por exemplo, um Cristo que julgamos representar só a luz a um diabo que representaria só a sombra, e “esta oposição”, diz Jung, “é o verdadeiro problema do mundo, que até agora não foi resolvido”.  Sobre as implicações dessa visão dicotômica do mundo em nosso sistema punitivo – que tanto pretende, por expiações, grades e muros, separas as luzes das sombras – já tratei em artigo que pode ser lido clicando aqui. 

A visão de Campbell é, contudo, muito mais sutil e complexa do que a apresentada por George Lucas. Ao estudar as mais diversas manifestações mitológicas, Campbell percebeu: a jornada do herói não se resume a uma jornada em que o bem deve superar o mal, mas uma jornada em que bem e mal são transpostos, transcendidos. Os pares de opostos, diz, “são rochas em colisão, que esmagam os viajantes, mas pelas quais os heróis sempre passam”. E essa mudança de abordagem pode ter implicações gigantescas na forma como vemos o mundo e, por consequência, na forma como estruturamos nosso sistema jurídico. O combate entre bem e mal leva à crueldade, mesmo que perpetrada com as melhores intenções. O herói, que transcende as dualidades, abre espaço, sempre, ao perdão, simplesmente por reconhecer, primordialmente, o mal em si mesmo.

3. De Star Wars a Joseph Campbell

George Lucas, ao criar Star Wars, parece ter adaptado as ideias de Joseph Campbell ao gosto popular. E não há nada de errado com isso. Os filmes são extremamente divertidos e trazem, também, valiosas lições, sobretudo a partir das falas enigmáticas de Mestre Yoda.

Mas ir direto às fontes parece ser sempre uma boa dica para qualquer pesquisador. A saga Star Wars é cativante, mas as palestras e os livros de Joseph Campbell trazem um verdadeiro poder de transformação. Tudo o que escrevi aqui não chega a representar uma gota do vasto oceano das pesquisas de décadas com que Campbell nos brinda.

Seria maravilhoso se só um pouco do interesse que o último Star Wars despertou fosse redirecionado ao verdadeiro inspirador de toda a saga.

Bruno Amábile Bracco é Mestre e Doutorando em Criminologia pela USP, Defensor Público do Estado de SP, autor do livro "Carl Jung e o Direito Penal".
Sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
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