Privar para garantir a segurança: uma fábula com ares brasileiros
Segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Privar para garantir a segurança: uma fábula com ares brasileiros

Em uma época nefasta, muitas pombas e corvos costumavam coexistir em um grande vilarejo em desenvolvimento. Este vilarejo também era notório por desenvolver e proliferar assídua desigualdade. Os corvos não tinham alimento suficiente e diversas vezes lhes faltava, inclusive, moradia. Além disso, acredite, o referido lugar possuía apenas aves de uma espécie rara para ensinar todos os pássaros a sobreviver. Desta forma, faltavam aves para ensinar aos corvos noções básicas que lhes permitissem viver dignamente e, quiçá, melhorar de vida. Enquanto, em contrapartida, era fornecido para as pombas, aves de bem, tudo aquilo que os corvos sonhavam em ter.

Destarte, os corvos almejavam ter as mesmas condições das pombas, ou no mínimo ter o que alimentar seus filhotes ainda no ninho. Indubitavelmente, eles esforçavam-se muito para tal feito. Contudo, muitas vezes os corvos não conseguiam alcançar seu objetivo. Para agravar ainda mais a situação, as pombas, mesmo vendo a funesta condição dos corvos, não faziam nada para ajudá-los. Assim, não havendo outra alternativa, os corvos roubavam alimentos e suprimentos das pombas.

Como consequência, essas aves pretas eram capturadas e presas, para deleite das pombas, as quais acreditavam que isso resolveria todos os problemas daquele local. Nos reduzidos processos mentais das pombas, elas supunham que os corvos, quando deixassem a reclusão, sairiam muito melhores e não iriam roubar mais nada. Todavia, isso era muito difícil de acontecer, pois já havia muitos outros corvos nas jaulas, o que acarretava grave falta de espaço e até mesmo falta de comida. Ademais, naquelas jaulas havia muitos corvos experientes que ensinavam práticas nocivas aos corvos mais jovens.

A situação supramencionada acarretava ainda mais revolta nos corvos que saíam daquelas jaulas, apertadas e tenebrosas, ainda piores e mais revoltados. Então, eles roubavam cada vez mais para tentar sobreviver. Por conseguinte, as pombas tornaram-se muito temerosas dos corvos e desejavam com todas suas forças que eles fossem capturados. Auspicioso ainda ressaltar que mesmo diante desse cenário, as tartarugas responsáveis por governar aquele vilarejo não adotavam providências e políticas eficazes para melhorar o quadro calamitoso daquele lugar. Como era de se esperar, o vilarejo tornou-se ainda mais perigoso, com grande segregação entre as aves e tanto os corvos quanto as pombas tornaram-se muito infelizes.

Moral: Privar qualquer ser de liberdade e além de tudo, extirpar com sua dignidade, não solucionará nada, apenas agravará.

Caro leitor, a história dessa fábula, que em um primeiro momento, parece-me tanto quanto infantil, soou familiar? Inusitadamente, quando somos descritos por outro ponto de vista, pode parecer “coisa de outro mundo” e até mesmo podemos refutar e condenar totalmente as práticas descritas. Tal qual acontece em “Ritos Corporais entre os Nacirema”, do antropólogo norte-americano Horace Miner. Todos os rituais narrados, os quais parecem sombrios e aterrorizantes vistos de outro ponto de vista, nada mais são do que práticas humanas corriqueiras. Assim como Nacirema em ordem inversa nada mais é do que “Americano”.

Contudo, infelizmente, nossa sociedade assemelha-se muito com a fábula acima. Uma sociedade imersa no senso comum estereotipado e inverídico. Uma sociedade a qual crê que tratando as consequências de um problema, resolverá tudo. Uma sociedade hipócrita e egoísta, que não é capaz de se colocar no lugar do outro. Uma sociedade a qual acredita que tirando a liberdade dos homens e ainda pior, sua dignidade, irá resolver alguma coisa. Uma sociedade formalmente regida por uma Constituição, mas na prática corrompida.

Ingra E. Vieira é Acadêmica de Direito da Faculdade de Direito de Santa Maria (FADISMA).
Segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
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