A velha senhora ainda resiste
Quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A velha senhora ainda resiste

 

Foto: SP Invisível

 

Lá vem ela, toda esfarrapada, cambaleante, a senhora entristecida, tentando-se manter altiva e esperançosa. Já foi celebrada, festejada, viveu inúmeras histórias de amor, teve suas proezas contadas em versos, sobre ela foram escritos milhares de livros, apareceu em revistas, artigos e periódicos. Vestiram-na de modo formal ou mais despojado. É certo que flertou com todos, foi assediada por jovens e adultos, trabalhadores humildes e altos empresários. Já houve discussões ferrenhas e disputas inimagináveis por sua causa. Conheceu aplausos e elogios de seus admiradores, mas também enfrentou duros ataques de seus inimigos.

Em alguns momentos, a velha senhora resistiu bravamente mesmo quando não havia mais condições de resistir. Nunca perdeu a esperança. Passou por golpes e contragolpes, ditaduras e democracias. Foi esquartejada, achincalhada, pisada, considerada “morta” e “enterrada”. Mas ela é uma espécie de símbolo, e os símbolos nunca morrem. Mostrou o caminho, renovou as esperanças de uma maioria silenciosa, incansável, continuou com a sua jornada inglória. Com frequência, é chamada de “anacrônica”, “velha” e “ultrapassada”. Ainda assim, mantêm-se altiva. Mesmo quando aqueles que deveriam lhe defender acabaram lhe traindo covardemente e exigindo pedaços seus, esta velha senhora continuou resistindo. Não que seja fácil para ela.

Nas últimas duas décadas, os ataques foram se tornando cada vez mais frequentes, mais duros, mais covardes. Atribuíram-lhe palavras que nunca foram ditas. Querem tentar lhe compreender de acordo com interesses de poucos quando na verdade ela existe para todos. A cada crise, tentam lhe sabotar. A cada revés, querem lhe enterrar. “Os tempos mudaram”, acusam os detratores; “não precisamos mais de você”, esbravejam os poderosos de ocasião. Mas esta velha senhora ainda resiste.

Ela resiste por que viveu e continua vivendo um tórrido caso de amor com a sociedade brasileira. Esta é a verdade. No dia 1º de maio de um ano qualquer no passado recente, milhares de trabalhadores reunidos numa praça em Aparecida do Norte levantaram-na para a benção da santa. Ela é inseparável daqueles que trabalharam. Em mais de setenta anos, suas aventuras são povoadas de contratempos, ataques e sabotagens. Mas ainda hoje leva em seu seio esperanças e sonhos. Não é apenas o que está dentro dela, mas também o que foi construído fora dela. Graças a esta velha senhora, o trabalho não precisou mais ser visto como sinal de desgraça ou atraso, mas sim como meio de emancipação econômica dos mais humildes.

Vida eterna à CLT!

Átila da Rold Roesler é juiz do trabalho na 4ª Região e membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD). Pós graduado em Direito e Processo do Trabalho e em Direito Processual Civil. Foi juiz do trabalho na 23ª Região, procurador federal e delegado de polícia civil. Publicou os livros: Execução Civil – Aspectos Destacados (Curitiba: Juruá, 2007) e Crise Econômica, Flexibilização e O Valor Social Do Trabalho (São Paulo: LTr, 2015). Autor de artigos jurídicos em publicações especializadas. Professor na pós-graduação na UNIVATES em Lajeado/RS e na FEMARGS – Fundação Escola da Magistratura do Trabalho do Rio Grande do Sul.

 

Quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
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