Na guerra, ainda existe final feliz
Segunda-feira, 7 de março de 2016

Na guerra, ainda existe final feliz

Ela veio do Congo. Com duas crianças no colo e outra na barriga. Chegou ao Brasil acompanhada de seu primo.

Era abril de 2013. Saíram da República Democrática do Congo, e, com a ajuda de missionários, embarcaram em uma cidade angolana próxima à fronteira sem saber que estavam vindo para terras brasileiras. Precisavam fugir o quanto antes da violência que ainda aterroriza o país, um dos maiores da África e governado por Joseph Kabila, um dos responsáveis pelas atrocidades – além das milícias formadas por rebeldes. A sangrenta guerra já matou mais de 6 milhões de pessoas e o tornou o sexto país com o maior número de refugiados no mundo [1].

A conheci num abrigo público para mulheres em São Paulo. Foi seu primo quem me pediu para fazer uma visita. Eu o ajudava com a língua portuguesa, e ele com sua história de vida. Jean era seu único parente no novo país. Sua esposa e seus filhos ficaram para trás, assim como o marido de Julie, que tinha sido levado de casa, pois fazia oposição ao Governo.

No abrigo, encontrei uma mulher com um sorriso no rosto. O sotaque era a mistura de francês, língua oficial do Congo, lingala, um dos inúmeros dialetos falados lá, e o português. Empurrava o carrinho do bebê. Era seu filho brasileiro. Três meses após sua chegada, seu bebê nasceu. Seu pai não pode o conhecer. Julie nunca mais teve notícias do marido. Não sabia se tinha morrido ou se tinha conseguido fugir.

Em 2014, após mais de um ano que a tinha conhecido, recebi uma ligação. Era Julie me contando que seu marido estava aqui. Senti a felicidade em sua voz. Falava sorrindo. Recebeu a ligação de um Centro de Referência para Refugiados que seu marido estava em São Paulo, após coincidirem as informações da família que já tinha passado por lá.

Conheci Francis em seu novo lar. A família já estava reunida na casinha que alugaram na periferia de São Paulo. Francis embarcou rumo ao Brasil sem saber que iria reencontrar sua família.

Para muitos, uma coincidência. Nas palavras de Francis, foi milagre.

Jean não perdeu o contato com a família desde sua saída do Congo. Seu sonho sempre foi reencontrá-los novamente. A fé não tirou dele a esperança e, em setembro de 2015, sua família desembarcou no aeroporto de Guarulhos.

*Os nomes foram alterados por motivo de segurança

Maristela Telles Schmidt é Advogada  e ativista. Advogada da Missão Paz.

REFERÊNCIAS
1 http://www.unhcr.org/56701b969.html
Segunda-feira, 7 de março de 2016
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