Pra não dizer que não falei das flores…
Terça-feira, 8 de março de 2016

Pra não dizer que não falei das flores…

No dia 08 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecido, nos EUA, fizeram uma greve para reivindicar melhores condições de trabalho. O ato foi duramente reprimido com violência, trancaram as portas e incendiaram a fábrica. Morreram, naquele dia, 130 mulheres.

Como podem perceber, transformar o dia 8 de março em dia de festejos com felicitações, flores ou presentes nada tem a ver com o propósito da data, só retira o seu verdadeiro significado histórico e político, comercializando e propagando, mais uma vez, estereótipos de gênero. Percebam que hoje não é dia de festa, é dia de luto e de luta. Hoje é dia de falar em igualdade, hoje é dia de falar em feminismo.

Infelizmente, há quem diga que já avançamos bastante e que, em razão disto, não precisamos lutar, que não precisamos do feminismo. Há até quem pense que machismo não existe, que é coisa da nossa cabeça…

Primeiro, é importante esclarecer que feminismo é a luta pela equidade entre homens e mulheres. Feminismo não é o contrário do machismo, é contra o machismo.

Já o machismo não trata de igualdade, trata de superioridade. O machismo mata, oprime, produz desigualdades. Mas, onde está o machismo? Está em casa, na escola, no trabalho, na rua. Está nas piadinhas que ridicularizam a mulher, está no olhar lascivo de cada homem desconhecido, está na violência de cada dia, nos estereótipos, na objetificação do corpo feminino, na baixa presença de mulheres em cargos de comando, na negação ao direito ao aborto, na má divisão do trabalho doméstico, no silenciamento das mulheres, no assédio, na culpabilização e em tantas outras coisas, às vezes, até aparentemente inofensivas, mas que humilham, diminuem ou estereotipam as mulheres. O machismo está dentro de cada homem, do pobre ao rico, do não letrado ao doutor; independe de idade, classe social, nível cultural ou posicionamento ideológico. O machismo está introjetado na sociedade patriarcal.

Além disto, há um equívoco em pensar que as mulheres já alcançaram a plenitude de seus direitos, pois, hoje, as mulheres votam, trabalham, são livres. Além de ser uma generalização que mede todas as mulheres da mesma maneira, também se revela uma ignorância no que tange a ausência cotidiana de igualdade entre homens e mulheres, bem como, no que diz respeito aos conceitos de cidadania, trabalho digno ou liberdade.

Não há como negar os avanços legais que historicamente foram alcançados pelas mulheres (com muita luta e muito sofrimento), mas tais conquistas, além de terem sido morosas, ainda não são plenas. Apenas para ilustrar, no Brasil, o direito ao voto feminino só foi conquistado em 1932. Até 1962, as mulheres eram consideradas incapazes, o que significava, entre outras coisas, a necessidade de autorização do marido para trabalhar, alienar bens e ter a guarda dos filhos. Somente em 1977, a mulher brasileira pôde ter a opção de adotar ou não o nome do marido ao contrair casamento. A igualdade de direitos entre homens e mulheres somente foi legalmente reconhecida em 1988 com a promulgação da atual Constituição Federal. E, só tivemos uma lei específica tratando de violência doméstica em 2004.

Como podem ver, o legislador anda a passos lentos no que diz respeito ao reconhecimento dos direitos das mulheres e claramente, a igualdade formal estabelecida na Constituição Federal não se efetivou em igualdade material. Isto é refletido no dia-a-dia das mulheres na nossa sociedade, avançamos pouco e as diferenças são latentes.

A título de ilustração, notem que as diferenças salariais entre homens e mulheres são gritantes, em média a mulher brasileira ganha 30 % menos do que os homens. O Brasil tem uma das menores taxas de presença de mulheres no Parlamento, são 51 deputadas na Câmara Federal (de um total de 513 deputados) e 12 senadoras (de um total de 81 senadores). No Judiciário, a representatividade também é muito baixa, para se ter uma ideia, no Tribunal de Justiça de São Paulo, menos de 10%   dos desembargadores são mulheres.

Com relação à violência contra a mulher, o quadro é assustador. A principal causa de morte violenta de mulheres no Brasil é a violência doméstica. O número de mortes violentas de mulheres negras aumentou, em 10 anos, em 54%. Anualmente, em média, há 527 mil casos de estupros (tentados ou consumados) no Brasil. Uma em cada 5 mulheres já foi espancada pelo marido, companheiro ou ex. O aborto ilegal mata 47 mil mulheres no mundo.

Ser mulher também significa não poder viajar sozinha sem riscos, não andar na rua em qualquer hora e com a roupa que quiser sem medo; significa não poder dispor livremente do próprio corpo sem ser julgada, condenada ou morta.

Por tudo isso, hoje não é dia de cumprimentos, flores ou comemorações, hoje é dia de lembrar que nós, mulheres, ainda não vivemos em um mundo igualitário, que não dividimos corretamente os espaços com os homens; é dia de lembrar que ainda morremos simplesmente pelo fato de termos nascido mulher. Hoje é dia de lembrarmos das mulheres negras, das mulheres encarceradas, das mulheres que sofrem revistas íntimas nos presídios, das mulheres que sofrem violência obstétrica, das mães que não têm creches para deixarem seus filhos, das mulheres que são julgadas por recusarem a maternidade ou o casamento, das mulheres lésbicas, das mulheres em condição de rua, das mulheres que são torturadas pela imposição de um padrão de beleza inatingível, das meninas que são obrigadas a casarem-se ainda crianças, das mulheres trans, das mulheres que sofrem assédio nas ruas e no transporte público, das mulheres vítimas de estupro ou de agressão, das mulheres que morreram em abortos ilegais.

Portanto, hoje, dia 08 de março, não há muito o que se comemorar. Por isso, homens, guardem suas flores.

Hoje é dia de olharem para si mesmos e refletirem em que o machismo os beneficia, os favorece e como isso deixa nossa sociedade doente. Hoje é dia para começar a repensar o papel de cada um na manutenção destas desigualdades.

Troquem as flores pelo respeito, pela solidariedade e pela desconstrução de seu machismo diário. Aprendam, definitivamente, que lugar de mulher é onde ela quiser. Quem sabe, assim, nossas meninas terão um futuro menos violento e mais igualitário.

Lembre-se: essa luta não é só para hoje e não tem volta! VAI TER FEMINISMO SIM!

Margarete Gonçalves Pedroso é Procuradora do Estado, Conselheira do Conselho Estadual da Condição Feminina e membro do Olhares Humanos.
Terça-feira, 8 de março de 2016
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