A defesa dos direitos humanos vai muito além dos processos ou do gabinete
Segunda-feira, 21 de março de 2016

A defesa dos direitos humanos vai muito além dos processos ou do gabinete

Não me acostumo com elogios. Fico um pouco sem jeito, sem saber se agradeço ou não. Talvez seja fruto da criação, onde sempre me ensinaram que mais importante que palavras são ações. Mesmo assim logo aprendi que elogios sinceros também são bem vindos e importantes. Então os recebo assim, de bom grado, mas meio envergonhado.

Naquele dia havia acordado mais cedo, pois tinha que passar no gabinete para depois me encaminhar ao aeroporto, em direção a Salvador/BA. Participaria do Fórum Nacional de Alternativas Penais (FONAPE), em cuja organização estava diretamente ligado. O evento era promovido pelo Conselho Nacional de Justiça e destinado a juízes de todo o país. E o foco seria o combate à cultura do encarceramento em massa, através de políticas de fomento às alternativas penais, diretrizes essas internacionais e de fundamentos na Constituição, de busca por um estado mais humano e não violento. Tinha preparado a viagem por três meses. Não era fácil deixar a Vara de Execuções Penais por 4 dias, tempo do FONAPE. Era preciso acertar quem me subsituiria, como ficariam as questões prisionais, os padrões forenses etc.

Por que me envolver com essas atividades?

Costumava me questionar. Podia muito bem ficar apenas com o trabalho de gabinete, o que já seria mais do que suficiente, pois excessivo. Mas, enfim, o dia da viagem tinha chegado. Tudo resolvido, passado no Fórum e depois levado ao aeroporto pelo sempre presente assessor, em meia hora de saguão tive duas abordagens.

Primeiro, uma mulher de seus 50 anos, bem educada, abre um sorriso e se aproxima.

– Dr. Buch?

– Sim.

– Bom dia. Desculpe lhe abordar assim, mas precisava lhe dizer o quanto admiro seu trabalho – os olhos marejam – meu filho teve quando mais novo problemas com drogas. Conseguimos eu e meu marido resgatá-lo. Ele não é perfeito, ninguém é, mas hoje está bem, trabalhando, longe das drogas faz 3 anos. Ele nunca foi preso, mas nós sabemos como a vida pode ser difícil. Por isso admiramos seu trabalho. O senhor sempre diz acreditar que é possível. E nós acreditamos. Obrigado – e se foi.

Logo depois, antes mesmo de entrar na área de embarque, um homem, com seus 60 anos, mais a mulher e ao que tudo indica a sogra, esta a que viajaria, todos bem distintos, olham para mim e se aproximam. Só o homem fala.

– Dr. João Marcos Buch!

– Sim?

– Bom dia. Deixe-me cumprimentá-lo – estende a mão e eu logo correspondo, fazendo o mesmo – Gostaria de agradecer ao senhor. Meu filho uma vez foi preso e cumpriu pena – não entrou em detalhes por qual crime, nem eu perguntei –  Estivemos todos na frente do senhor e o senhor foi de uma calma e de palavras tão certas para meu filho. Todos ficamos muito emocionados. Eu acho que desde então a vida do meu filho mudou. Ele saiu da prisão faz uns dois anos, nunca mais se envolveu em outros problemas.

– Mas aí a importância da família, dos pais – observei.

– Sim, é verdade – olhou para a mulher – mesmo assim, o senhor foi muito importante para nós. Obrigado – e se foram.

Pensei comigo, por isso faço o que faço, por isso não restrinjo minhas funções ao gabinete. Porque é de minha natureza sempre buscar novos movimentos. Porque vale a pena acreditar no trabalho e nas causas a que pertenço. Afinal, como disse numa ocasião uma técnica judiciária que atua na unidade comigo: "nosso serviço vai muito além dos processos, o sentido é muito maior, não é doutor?"

Sim, é.

João Marcos Buch é Juiz de Direito.
Segunda-feira, 21 de março de 2016
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