Contra o ódio e pela democracia
Sexta-feira, 1 de abril de 2016

Contra o ódio e pela democracia

 

“…Tu e teu esposo fazem parte do Partido dos Trabalhadores (ele do Psol) e depois de todos os acontecimentos da semana e culminando com o de ontem, onde houve escárnio e deboche do Lula ao vivo e a cores, para todos verem (representante maior do teu partido), eu estou sem a mínima condição de ser Pediatra do teu filho (…)”. 

“Paulo – Não. Não tem porque se arrepender. Ela tem que se orgulhar disso. Tem que se orgulhar de ter cumprido o código de ética, ter sido clara, honesta[1]”. 

O maior motivo do levante das forças de esquerda não é, de longe, o apoio irrestrito à condução e as escolhas políticas do governo da presidente Dilma. O fato torna ainda mais nobre os motivos pelos quais atos públicos e passeatas brotem do tecido social e faça ressurgir certo amálgama entre esses setores.

A apatia catatônica do governo contribuiu para a desintegração dessas forças e os motivos, poderia passar o dia elencando. Importante citar, todavia, a ampliação do Estado policial por meio de projetos enviados ou entusiasticamente apoiados pelo próprio executivo que criminalizam as lutas sociais, como a lei de organizações criminosas e a do terrorismo, até propostas que atacam direitos dos trabalhadores.

Se não há um governo propriamente defensável em muitos aspectos, outros elementos se constituíram como importantes indutores das mobilizações. Um é a possibilidade clara do avanço do fascismo e do ódio como razão para o golpe. A irracionalidade dos gritos de ordem das forças favoráveis à deposição da presidente reside em valores sociais negativos como a obsessiva pulsão punitiva pela criminalização da política, em especial dos partidos de esquerda e o desejo de aniquilar do tecido social a divergência ou o pensamento contrário.

Importante, neste ponto, a iniciativa do novo ministro da justiça e da CNBB de uma campanha para enfrentar o ódio na sociedade e nas redes sociais. Embora meio tarde, é um tema que precisa ser enfrentado.

As agressões a autoridade públicas, pessoas com camisetas vermelhas e o ódio das palavras de ordem não ecoam além desses 7% da sociedade que pode ser caracterizada como classe média dos grandes conglomerados urbanos. A vida concreta e a dignidade de milhões de trabalhadores não vê afinidade alguma com essas pautas e assiste, de dentro do transporte público, depois de um intenso dia de trabalho, senhoras e jovens babando de ódio contra o PT e Lula. São mundos e posturas diante da vida completamente antagônicos.

Essa dicotomia talvez ajude a explicar porque uma cidade como Salvador, de majoritária e forte presença negra, nos atos do dia 13, não só tenha amarelado como estranhamente embranquecido.

O elemento da ausência de pauta concreta de transformação do Brasil, somado ao ódio vociferante de classe pode ser traduzido na negativa de atendimento da médica pediatra no Rio Grande do Sul e o posterior apoio do órgão de classe da profissão, invocando, pasme, a ética e a “honestidade”. A ideia de ética, neste caso, surge descolada do respeito à dignidade da pessoa humana e da solidariedade, valores presentes no clássico juramento de Hipócrates.

A defesa e publicização desses valores ajudam explicar porque Bolsonaro e Caiado são os únicos políticos ovacionados e com direito à fala nos atos públicos. Por expressar, publicamente, similares ideais, conseguem catalisar a voz desses setores.

O outro elemento que unificou as forças de esquerda é a defesa da democracia e a possibilidade real de políticos que sempre atuaram como vampiros do poder, sem amplitude e representatividade alguma, assumir postos de relevância política. Temer e Eduardo Cunha são figuras repudiadas, inexpressivas, sem qualquer enraizamento social que tramaram, à luz do dia, um golpe de Estado.

A rejeição à dupla parte até mesmo do próprio Aécio Neves, mas é evidente que as figuras e a biografia de ambos não os coloca na condição histórica de líderes aptos ou com ressonância política nas amplas camadas da população brasileira, o que torna um possível governo deles algo completamente imprevisível, verdadeiro prenúncio de caos social.

A reação popular a esse verdadeiro teatro do absurdo fez com que a semana começasse com o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil sendo enxotado pateticamente da Câmara dos Deputados por advogados e advogadas que não se sentem representados pela decisão da entidade, passou pela aula de direito que Teori Zavaski deu em Sérgio Moro e pela dura manifestação do ministro Marco Aurélio contra o golpe.

A defesa jurídica dos argumentos do golpe realizada ontem, 30.03, na Câmara, por Miguel Reale e Janaina Paschoal envergonhou quem tivesse o mínimo de conhecimento da ciência jurídica.

Aos poucos, a opinião pública internacional vai se dando conta que o processo de impeachment da presidente foi deflagrado por um parlamentar acusado de corrupção e lavagem de dinheiro e que a Comissão que vai julgar a admissibilidade do pedido é composta por 40 parlamentares com problemas na justiça. A hipocrisia e ausência de legitimidade do processo e dos protagonistas que o conduzem, também está sendo assimilada por artistas, intelectuais e juristas que estavam distantes da política, muito por discordar dos rumos do governo Dilma.

A pecha do golpe colou na testa de Cunha e Temer e a narrativa dos fatos não os favorece, nem convence. Por isso o desespero das forças golpistas em retirar do ostracismo “juristas” como Eros Grau e Ayres Britto para dar verniz de legalidade ao que ocorre no Brasil.

Ainda é imprevisível o desfecho disso tudo, mas é certo que a defesa da democracia, contra o ódio social e de repúdio as figuras de Temer e Cunha são elementos histórica e simbolicamente mais fortes do que as irracionais palavras de ordem das forças que querem o golpe.

A democracia se tornou palavra que unificou e unifica a esquerda e possui um forte potencial de agregação. A atriz Letícia Sabatela, em discurso essa semana, disse que não aprova o governo da presidente Dilma, mas que não dá para vacilar quando em jogo estão esses valores.

E veja que a democracia, ainda que uma democracia sequestrada, condicionada e amputada pelo capital como nos disse o mestre Saramago, embora não tenha conseguido tirar do papel uma série de direitos previstos na Constituição da República de 1988, ainda é sim um valor a ser preservado. É o respeito às regras do jogo e o valor do voto como instrumento da cidadania que está em jogo.

Por fim, seria importante que o governo Dilma ajudasse um pouco a resgatar os ideais pelos quais foi eleito. Ou, ao menos, que não atrapalhasse mais com equivocadas e conservadoras decisões políticas. É preciso que aquele trabalhador que assiste a manifestação de dentro do ônibus, saiba o que está em jogo e o risco que corre com o golpe e, se pudesse pedir mais, acrescentaria que ele tivesse a certeza ou uma intuição de que este governo o representa. Basta isso para derrotar o projeto golpista.

Patrick Mariano é escritor.
Junto a Marcelo Semer, Rubens Casara, Márcio Sotelo Felippe e Giane Ambrósio Álvares, assina a coluna ContraCorrentes, publicada todo sábado no Justificando.

[1] http://www.tijolaco.com.br/blog/sindicato-aprova-ato-de-medica-que-se-recusou-atender-bebe-por-mae-ser-petista/

 

Sexta-feira, 1 de abril de 2016
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend