Quem poderá me socorrer, se não Deus?
Terça-feira, 5 de abril de 2016

Quem poderá me socorrer, se não Deus?

Olá. Me desculpem por mais uma vez importunar vocês com meus problemas. É que esta unidade prisional é muito complicada, pois são cobrados nossos deveres e não são concedidos os nossos direitos.

Não é possível denunciar, pois as repressões são grandes. Neste mês, o pessoal do raio fez uma denúncia aos direitos humanos. Veio um pessoal na unidade, mas rapidamente fizeram uma “maquiagem” para recebê-los e não resolveram absolutamente nada.

Em seguida, vieram as perseguições. Até a alimentação é muito pouca. Os presos aqui (todos os raios, com exceção de 1) chegam a brigar, literalmente, por uma casca de banana para comer, pois a fome gera neura. Neste momento, por volta das 21 horas, a minha barriga começa a roncar de fome.

Judiciário é um caos: observe meu caso

Estou cumprindo pena há quase 23 anos, sem ganhar nenhum benefício. Em outubro de 2010, me forçaram a participar de uma tentativa de fuga, quando eu ainda estava preso em outra unidade. Porém, o juiz me condenou a cumprir ⅙ do restante da pena para obter benefícios. Essa decisão foi proferida em 2014, quando eu perdi o semi-aberto e fui transferido para São Paulo.

O Desembargador pediu meu exame criminológico. Feito o exame, após nove meses o juiz pediu reavaliação. Na reavaliação, critiquei a morosidade do juiz para o assistente social. Em cinco minutos falando comigo, fui dispensado. 15 dias depois (o exame) foi negado, pois diziam que eu sou muito crítico, contorço os lábios para falar (devido a paralisia facial) e etc.

Os argumentos que negaram meu exame foram fracos, mas já faz nove meses e a Cemic (Centro Integrado de Movimentações e Informações Carcerárias) disse que só vou poder impetrar novo pedido em junho de 2016 devido a falta grave que mencionei.

Expliquei por diversas vezes, mandei lei velha/lei nova/jurisprudência avisando. Não me impediram de enviar, mas fui ignorado. Escrevi para o juiz diversas cartas pedindo audiência, explicando o caso, mas nunca tive a mínima atenção.

Os presos aqui chegam a brigar, literalmente, por uma casca de banana para comer, pois a fome gera neura.

Escrevi também para o Conselho da Comunidade, para a Ordem dos Advogados do Brasil e de São José do Rio Preto, para o Coordenador dessa região (Presidente Venceslau) Roberto Medina, para o secretário da SAP Drº Lourival Gomes, para o governador do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin, para o Conselho Nacional de Justiça, para o presidente e ao juiz auxiliar, para o STJ, STF e até para a presidente da República, e ninguém me respondeu.

Enfim, isso só me faz entender que moro no Brasil, sou brasileiro de sangue e procuro meios legais para me reabilitar. Tenho projetos para reabilitar presos, mas sou ignorado. Quem poderá me socorrer, se não Deus?

Saúde

Estou com um sério problema de saúde no estômago. Às vezes, penso que vou morrer. Rogo pelo amor de Deus que marquem um médico para mim. O zelador as vezes diz que não pode fazer nada, pois ele já faz o seu papel. Ele só avisou o enfermeiro e levou as “pipas” (bilhetes), mas de nada adiantou.

Cansei de reclamar. Isso tudo já está me causando depressão. Meus familiares, de tanto recorrerem aos órgãos de direitos humanos e de ligarem para as dependências das unidades intercedendo por mim, estão sendo vetados. Há quase cinco meses que não recebo nenhuma carta, nem consigo enviar. Minhas sobrinhas me escreviam no mínimo duas cartas por mês, pois se preocupam muito comigo, mas até agora nada.

Quanto ao abuso de poder, com relação a espancamentos: não posso negar. Já presenciei diversos, mas nunca me espancaram. Entretanto, ultimamente um funcionário tem me perseguido e ofendido minha integridade moral com palavras de baixo calão, como por exemplo: “Seu puto!”, “Seu lixo!”, entre outras.

O pior é que agora ele acabou de subir de cargo. Tomou meus livros de estudo de Direito, alguns lençóis brancos e jogou tudo fora. Eu só pergunto para ele: “O que eu fiz para o senhor me tratar assim?” E ele diz que só pelo fato de eu ser um preso já sou um lixo.

Se esta carta chegar até vocês, só peço que me ajudem a ser transferido imediatamente para outra unidade prisional onde eu possa cumprir o restante de minha pena em paz, pois sei que a injustiça continua e meus direitos já estão todos violados. Rogo por essa ajuda e peço para não reclamarem com eles a meu respeito, porque só Deus sabe das repressões que sofremos.

Em respeito ao Dr. Diretor, pela sua educação, estou ainda suportando esse tipo de afronta, continuo com minha educação. É assim que tem que ser, pois sou preso e preso tem que se colocar no lugar de preso.

Bom, vou finalizando por aqui. Peço pela ajuda de vocês, pois estou sufocado e temo repressão. Já vi tanta coisa acontecer no sistema prisional paulista para calar a boca do preso e manter o status dos “grandes”…

Tanto os do lado do crime quanto do lado do poder deveriam zelar pela lei e justiça.

Deste que sofre por quase 23 anos preso, com saudades dos filhos, mãe, irmãs, sobrinhos e hoje netos!

Beijos, Maurício*.

São Paulo, 15/03/2016

Maurício é colunista por um dia na coluna Cartas do Cárcere. A coluna mostra relatos semanais de pessoas que vivem (e morrem) no sistema prisional brasileiro. 
*Todos os nomes desta coluna são fictícios para preservar a identidade dos apenados

Quem se interessar em enviar cartas para a coluna encaminhar para a Redação do Justificando

Av Paulista, 1776, 13º andar, Bloco I, Bela Vista, São Paulo.  CEP: 01310-200


 

Confira a carta na integra


 
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