Precisamos falar sobre Conspirações, Illuminati e Foro de São Paulo
Sexta-feira, 15 de abril de 2016

Precisamos falar sobre Conspirações, Illuminati e Foro de São Paulo

O tema das teorias conspiratórias é, no mínimo, cativante. De ataques forjados às torres gêmeas a alienígenas entre nós, é possível encontrar, sobretudo na internet, uma quantidade infindável de “indícios” ou “provas” para todos os lados. Em comum, são ideias que despertam, de pronto, uma enorme repulsa ou uma arrebatadora atração.

Em texto anterior, escrevi um pouco sobre o assunto de forma introdutória. Agora, minha intenção é abordar especificamente um ponto: grupos que, como titereiros, talvez controlem o mundo a partir de invisíveis bastidores, influenciando, por exemplo, decisões políticas.

Grupos secretos e reuniões privadas

As chamadas “sociedade secretas” aparentemente existem há milênios – em tempos antigos, como diz Manly Palmer Hall, eram predominantemente religiosas e filosóficas; na Idade Média, filosóficas e políticas; e, nos últimos séculos, passaram a ser predominantemente políticas e sociais. [1] Alguns grupos têm especial necessidade de privacidade e isolamento em relação ao cotidiano, sobretudo em tempos de perseguição aberta ou velada a certas formas de pensar – aliás, a necessidade de um “jardim murado”, hermético, é recorrente nas mitologias. E não há nada de intrinsecamente errado com isso. O problema, segundo muitos teóricos da conspiração, começa quando de reuniões e pactos secretos nascem ações que influenciam diretamente a sociedade externa.

Muitas ideias sobre as sociedades secretas se popularizaram enormemente a partir dos romances de Dan Brown. Em O Símbolo Perdido, por exemplo, mergulha no mundo da Maçonaria e em Washington D. C., capital norte-americana. No ainda mais conhecido Código Da Vinci, fala sobre os “Illuminati”. Esses assuntos todos são um prato cheio para uma série de ideias interessantes – para dizer o mínimo.

Sugere-se, por exemplo, que a cidade de Washington foi construída com base em proporções geométricas equivalentes às observadas nas pirâmides egípcias. Fala-se muito, também, sobre a nota de um dólar, em que se pode observar uma estrutura piramidal que traz no topo um grande olho que a tudo vê – o olho, sugere-se, dos iluminados, que parece remeter ao “olho de Hórus” egípcio. E se pode observar, ainda, uma inscrição: “Nova Ordem Mundial” (“Novus Ordo Seclorum”). A sugestão, portanto, é no sentido de que os Estados Unidos da América foram concebidos, muito racionalmente, com um fim específico de construir uma Nova Ordem Mundial – seja lá o que isso signifique.

Todo esse arcabouço misterioso ganha novos elementos quando se constata, por exemplo, que líderes políticos participam de estranhos e aparentemente macabros rituais ocultos que contam com piras, evocações e sacrifícios de animais. Começa, então, um festival de suposições em que facilmente nos perdemos. Até por respeito à privacidade e à liberdade associação, não parece que o melhor caminho investigativo passe por aqui. A lição de Manly P. Hall, grande estudioso do tema e ele próprio um iniciado em escolas de mistério, merece ser destacada: embora haja sociedades secretas de propósitos abjetos, a maioria delas guarda origens bastante respeitáveis. E Manly Hall conclui: “Por mais de três mil anos, sociedades secretas têm trabalhado para criar a base de conhecimento necessária para o estabelecimento de uma democracia iluminada entre as nações do mundo” [2]. Não parece ser o caso, portanto, de simploriamente crucificar de maneira generalizada as sociedades secretas, mas sim de averiguar quais sociedades eventualmente passaram a inclinar-se para outros caminhos menos nobres e em que medida isso aconteceu.

Também interessante é uma outra constatação relacionada ao tema. Anualmente, líderes políticos, banqueiros e grandes empresários participam de uma reunião a portas fechadas. O grupo, aqui, não é uma sociedade secreta no sentido mais popular do termo, mas os participantes têm em foco sobretudo assuntos econômicos e políticos: trata-se do chamado grupo Bilderberg – defendido por quem entende que grupos podem livremente se associar, criticado por quem argumenta que uma reunião de pessoas tão poderosas deveria ser necessariamente aberta, porque é de se presumir que ali se discutem temas de interesse verdadeiramente global.

O que me parece interessante, contudo, é que esta mesma ideia – grupos que se reúnem secretamente e determinam rumos políticos e econômicos – embasa, declaradamente ou não, reações emotivas de pessoas pertencentes aos mais diversos pontos do espectro ideológico. A convicção de que se está diante de um inimigo enorme, mas ao mesmo tempo oculto, faz esquentar o sangue de quem pretende empreender o combate. Quer-se de fato libertar o povo de forças maiores. A luta, talvez mais que todas as outras, se justifica plenamente: materializa-se a relação arquetípica entre Davi e Golias, e a missão do bom combatente é derrubar o gigante aparentemente invencível que quer esmagar-nos.

Os "Illuminati" ou o "Cabal"

Tratar do tema em termos da dicotomia esquerda versus direita certamente não faz jus às nuances das diversas abordagens, mas, para efeitos argumentativos e feita esta ressalva, parece uma forma legítima de ser encarar o problema.

Assim é que podemos dizer que, sob o ponto de vista de quem se põe “à esquerda”, a história do mundo é a história da manutenção do status quo. Pode haver alternância de governos, mas, essencialmente, a mesma melodia é sempre escutada: os poderosos seguem cada vez mais poderosos e a desigualdade se acentua a cada ano. Nunca houve verdadeiro interesse em trocar a melodia da desigualdade por outra, mais justa. E há uma razão para isso: existe, na realidade, uma agenda secreta cujo objetivo é diametralmente oposto à promoção de qualquer igualdade.

O objetivo oculto desta agenda é, em síntese, uma distinção cada vez maior entre dominadores e dominados: seria este o tom das reuniões do grupo Bilderberg, por exemplo. Para os teóricos da conspiração, os ataques às torres gêmeas e o advento do Estado Islâmico, para novamente trazermos ilustrações do tema, foram cuidadosamente orquestrados para o fim de promover um ambiente de medo e terror que, pouco a pouco, torna as pessoas cada vez mais dispostas a abdicar de sua própria liberdade em prol de (ilusórias) promessas de segurança. Os cidadãos são, assim, crescentemente monitorados, e cada vez menos se importam verdadeiramente com isso – as revelações de Edward Snowden sobre o monitoramento a que virtualmente todos estamos sujeitos talvez não tenham causado revoltas e comoções generalizadas exatamente porque, em última análise, já não nos importamos tanto assim em sermos permanentemente vigiados. Ao menos assim estamos seguros, imaginamos.

Alguns teóricos, a partir deste cenário, dão passos além, imaginando um futuro verdadeiramente distópico para a humanidade. Alguns dizem que a tendência é um monitoramento cada vez mais explícito, por meio de chips subcutâneos que serão aceitos como se fossem normais e úteis. Outros, com base nas chamadas Georgia Guidestones, imaginam que o objetivo último é uma redução incrivelmente drástica da população mundial, que deverá chegar, por fim, a cerca de 500 milhões de pessoas – menos de 10% da população atual. Tudo isso para que as classes dominantes possam viver com absoluto conforto, ainda que às custas não apenas do sofrimento, mas mesmo da morte da maioria absoluta da população mundial.

Este cenário subterrâneo influencia muitos críticos do sistema. Há quem diga que as teorias da conspiração fascinam porque ordenam e simplificam um mundo necessariamente caótico. A partir do cenário construído pelas conspirações, os verdadeiros inimigos e seus objetivos se tornam explícitos: combatem-se, agora, os grupos abissalmente poderosos, que são chamados, por exemplo, de “Illuminati” (na melhor linha Dan Brown) ou “Cabal”. Torna-se necessário, então, guerrear a qualquer custo contra os velhos e arraigados jogos de poder. Torna-se necessário rejeitar qualquer forma de controle. Os grandes partidos políticos ligados a corporações e bancos não podem ter o poder que hoje detêm. Apenas a revolução do povo contra o sistema posto – sistema capitalista que em última análise levará a um cenário de destruição da maioria para o império de uma minoria desde sempre poderosa, cujos macabros desígnios secretos começam a vir à tona.

O "Foro de São Paulo"

É curioso como raciocínio muito similar também se encontra nas raízes do pensamento lá no outro lado do espectro político-ideológico. Quando caminhamos para a direita latino-americana, escutamos também brados que se voltam contra um inimigo poderoso e relativamente oculto: o “Foro de São Paulo”.

Pensadores do lado direito do espectro enxergam no Foro de São Paulo uma organização cujo fim parece apontar à ressurreição de ideais comunistas, por meio de uma aliança entre diversos países latinos. A exemplo dos temores relativos aos “Illuminati”, também em relação ao Foro de São Paulo há o medo de que, subterraneamente, venham sendo construídas as bases para um verdadeiro golpe comunista, que, se nada for feito, haverá de originar uma ditadura de esquerda em países como o Brasil.

O remédio, aqui, é combater qualquer mínimo passo que pareça nos inclinar à esquerda. Programas sociais são rechaçados. A regra deve ser um Estado que decididamente se retire do cenário econômico – embora deva ser forte o suficiente para repreender qualquer subversão da ordem social. A paz e a segurança tão almejadas nos “tempos dourados” de meados do século passado devem ser revividas. Segurança máxima, barreiras, bons costumes, moralidade, tolerância mínima em relação a desvios, criminalidade combatida, tudo em prol do livre mercado, da lei e da ordem: as armas da população “de bem” contra a ameaça comunista que segue mais viva do que nunca.

A ligação entre combate à criminalidade comum e combate à ameaça comunista é evidente aos olhos de teóricos como Olavo de Carvalho, certamente uma das principais referências brasileiras (para o bem ou para o mal) do lado direito do espectro. Há alguns anos, escreveu: “o Foro de São Paulo é a mais vasta organização política que já existiu na América Latina e, sem dúvida, uma das maiores do mundo. Dele participam todos os governantes esquerdistas do continente. Mas não é uma organização de esquerda como outra qualquer. Ele reúne mais de uma centena de partidos legais e várias organizações criminosas ligadas ao narcotráfico e à indústria dos sequestros, como as Farc e o MIR chileno, todas empenhadas numa articulação estratégica comum e na busca de vantagens mútuas. Nunca se viu, no mundo, em escala tão gigantesca, uma convivência tão íntima, tão persistente, tão organizada e tão duradoura entre a política e o crime”.

Uma guerra secreta

Não pretendo afirmar até que ponto as ideias acima são verdadeiras ou não. Como dito em texto anterior sobre o tema, que cada um de nós possa, sem preconceitos, fazer as próprias pesquisas e ajustar os próprios filtros a fim de chegar às conclusões que parecerem fazer mais sentido.

O que é interessante notar, contudo, é que uma simpatia por pensamentos subterrâneos, tantas vezes presente ainda que não declarada, frequentemente impulsiona ações de todos os lados. Por trás de manifestações apaixonadamente combatentes, muitos olhares enxergam, escondido nos grupos combatidos, poderosos inimigos ocultos – e o heroico combatente se guia pela certeza de que o mal absoluto que ali enxerga deve ser, a qualquer custo, aniquilado. As elites que secretamente nos controlam devem ser dizimadas! O Foro de São Paulo deve ser imediatamente debelado!

Não sei, sinceramente, qual a dimensão exata em que essas ideias todas influenciam grupos de todos os lados, mas, sem dúvida, a influência existe. O tema é sério e deve ser encarado com respeito e atenção. Talvez haja, sim, riscos em deixar que Golias impere eternamente. Mas talvez haja riscos ainda maiores em travar um mau combate.

Seja qual for o lado em que estivermos, até que ponto deveríamos levar a sério as conspirações? E como, seja com base nelas ou não, podemos ser capazes de efetivamente travar um bom combate – ou seja: um combate enérgico, mas ao mesmo tempo com ética, diálogo e respeito? O tema é complexo, e pretendo voltar a ele no próximo artigo.

Bruno Amábile Bracco é Mestre e Doutorando em Criminologia pela USP, Defensor Público do Estado de SP, autor do livro "Carl Jung e o Direito Penal".

REFERÊNCIAS
1 Manly Palmer Hall. The secret destiny of America. New York: Penguin, 2008, p. 53-54.
2 Manly Palmer Hall. The secret destiny of America. New York: Penguin, 2008, p. 58.
Sexta-feira, 15 de abril de 2016
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