O que a expressão ‘tchau, querida’ pode nos dizer sobre a desigualdade de gênero?
Terça-feira, 19 de abril de 2016

O que a expressão ‘tchau, querida’ pode nos dizer sobre a desigualdade de gênero?

Acompanhamos a votação do processo de impeachment realizado pela Câmara dos Deputados como quem acompanha a final da Copa do Mundo de futebol, minuto a minuto ansiosos pelo resultado. Houve também quem acompanhasse o processo como se fosse a apuração das escolas de samba: a cada voto, uma renovada bradada, com a inconsequente e secreta esperança de ver a escola adversária entrar e rasgar a urna toda.

Mas uma coisa era aparente: como o clima era de quebra-quebra, quebrou-se a esperança de uma governabilidade (já em ruinas) e de uma convivência pautada na tolerância e no respeito. Teve deputado reverenciando torturador, teve Estado Laico deixado de lado, teve campanha eleitoral, cornetas e confetes e até parlamentar com camiseta da CBF representando o combate à corrupção; só não teve debate e votação pautados em “crime de responsabilidade fiscal”, a suposta razão de existir de todo o processo de impedimento da Presidente da República.

E esse espetáculo circense se encerrou com a hashtag “tchauquerida” – que é muito simples, curta e impactante. Parecia o marketing perfeito da “oposição”. No entanto, trata-se do modo como o ex-Presidente Lula despediu-se da Presidente Dilma em alguns de seus áudios grampeados pela polícia federal, e isso virou a expressão da noite. Mas o que a #tchauquerida nos realmente diz, a partir de uma perspectiva feminina?

Primeiro, ao questionarmos o uso dessa hashtag, não se quer subentender que ela, por si só, seria uma expressão sexista, que simplesmente reproduz o machismo enraizado na sociedade. Pelo contrário, é questionar o uso impensado dessa expressão, que foi repetida por muita gente – e por vezes carregada de ironia. Embora algumas pessoas não a usarem intencionalmente de forma negativa, algumas a usaram (e ainda a usam) em tom de deboche, de modo pejorativo, que inferioriza a mulher. Mas a maioria sequer vislumbra o impacto de um simples “tchau, queridinha” num contexto político de tamanha gravidade como o atual.

Esta expressão saiu de uma conversa íntima entre duas pessoas, onde o “tchau, querida” ou “tchau, querido” faz sentido e encontra guarida, e foi parar no imaginário popular. No entanto, ganhou momentum quando a ela foi dada uma conotação de extrema ironia ao se referir à primeira Presidente mulher. Se fosse um processo de impeachment contra um homem – o qual tivesse um histórico recente de áudios com pessoas de seu círculo – as reações teriam sido as mesmas? Ou melhor, quando Lula foi impedido de assumir o Ministério, ninguém utilizou o “#tchauquerido” para ele, ou usaram e eu perdi esse capítulo?

Sendo uma mulher, senti-me profundamente incomodada com a utilização do “tchau, querida”, primeiro pelos deputados ao longo do pronunciamento dos votos e posteriormente pelo “#tchauquerida” nas redes sociais em referência à aprovação do impedimento da presidente Dilma. Pois como sabemos as palavras “querida”, “gracinha”, “linda” e tantas outras semelhantes são proferidas – muitas vezes – maliciosamente por homens em ambientes profissionais e acadêmicos, subtraindo das mulheres sua seriedade ou competência.

[Aqui lembramos a matéria jornalística de 18/04/16, da CEO da PepsiCo, Sra. Indra Nooyi que é chamada de “gracinha” em seu trabalho e não gosta, reivindica tratamento igualitário, com devido tratamento como executiva [1]. Pontuamos, ainda, a campanha da ONU chamada “HeForShe” (“ElePorEla” – tradução livre) que incentiva a igualdade de gênero e o empoderamento da mulher. Ao longo dessa campanha, a embaixadora da Boa Vontada da ONU Mulheres, Emma Watson, vem apontando a necessidade de se questionar e combater a ideia do “He is assertive, she is a bossy” (“Ele é assertivo, ela é autoritária” – tradução livre). Que vem buscando dar voz à denúncia de muitas mulheres em altos cargos; que questionam o porquê de homens em altos cargos serem vistos como assertivos e ambiciosos, como se fosse característica inata da liderança, enquanto mulheres, em mesmo cargos, são – muitas vezes – vistas como autoritárias. Tais relatos nos mostram que ainda há muito o que se evoluir no tratamento para com a mulher.]

Estamos tratando de usos de linguagem, e a linguagem não somente comunica ideias e conceitos, mas também demonstra afetos, desejos, medos ou ódios – ainda que estejam operando subconscientemente. A utilização irônica – por algumas pessoas – da expressão “tchau, querida”, em um contexto profissional político (acirrado e predominantemente masculino, de baixíssima representatividade feminina), visa à inferiorização da pessoa tida como “querida”. Deixamos de tratar da pessoa jurídica Presidente da República e tratamos da pessoa física Dilma Rousseff, ou seja, deixamos o âmbito da crítica à gestora para irmos ao deboche à mulher. (A expressão, na maioria das vezes, é utilizada por quem não nutre carinho pela Presidente para se referir a ela como “querida”).

É preciso lembrar que a pessoa Dilma Rousseff já foi retratada de vários modos negativos pela mídia, a fim de desqualificar sua atividade profissional. A revista a IstoÉ, por exemplo, chamou-a de “desiquilibrada”, “histérica”, “furiosa” (em meio a ataques genéricos) [2]. E agora esta, a mais recente: como se todos fossem íntimos da Presidente, despedem-se carinhosamente com um “tchau, querida”. É de tamanha ironia e falta de respeito! E, pior, encontra facilmente espaço no machismo brasileiro, que no final busca se justificar: ''mas era como ela e seu amiguinho se despediam''. De fato, eles são amigos; mas eu não me refiro ao Obama ou a Angela Merkel com o tratamento “my dear”.

Além disso, é necessário pontuar que estamos tratando de uma sociedade em que 51,48% (CENSO/IBGE 2011) da população brasileira é composta de mulheres, mas temos no cenário político – dados das eleições de 2014 – apenas 9,9% de deputadas federais; 13,6% de senadoras e 3,7% de governadoras eleitas, por exemplo. O Brasil é hoje uma vergonha internacional ao ocupar a posição 156a no que se refere a representação da mulher no Poder Legislativo (em um ranking de 188 países).

Por isso, nesse cenário, o “tchau, querida” é prejudicial, pois não trata a figura política brasileira do mais alto cargo da nação como, de fato, uma figura política, mas sim como uma mera coleguinha, uma queridinha, que “passa lá mais tarde”, “entra na fila”, “já foi tarde”, e assim somente é vista pela ótica da ironia machista. (Frisemos aqui que críticas são feitas a alguns políticos homens, mas nenhuma nesse baixo nível de “brincadeira”). É como se a mulher não pudesse fazer parte do jogo político, ali não fosse seu lugar. O homem, então, desqualifica o que é especialmente feminino na política por meio de expressões que não visam a qualidade da figura política, mas seu gênero, com expressões informais e irônicas.

Com base nos dados citados acima e no que pudemos observar nitidamente na transmissão televisiva de ontem, a desproporcionalidade entre os gêneros nas esferas políticas de poder é um problema concreto e profundo. Conforme ensinam Flávia Biroli e Luis Felipe Miguel, em sua obra “Feminismo e política” [3], a igualdade de direitos não garantiu igualdade real entre homens e mulheres, ou seja, o exercício da soberania popular por meio do sufrágio universal não garantiu o acesso paritário aos cargos de poder, seja no Executivo, seja no Legislativo. As razões para essa desproporcionalidade são diversas, e estão integradas nos mecanismos de desvalorização e exclusão das mulheres, os quais estão incontestavelmente presentes no funcionamento das instituições. Portanto, é fundamental que se implementem métodos efetivos de inclusão das mulheres na política, para que expressões do tipo “tchau, querida” não consigam reverberar na mídia e no imaginário popular com tanta força.

Assim, pedimos com isso o seguinte: pense antes de usar irrefletidamente essa expressão ou outras semelhantes, pense se ela é realmente sua, ou se você ouviu inúmeras pessoas ou parlamentares a repetirem. Essa expressão vem sendo repetida por alguns deputados que atuam legislativamente para retroceder conquistas femininas legislativas, dentre eles Jair e Eduardo Bolsonaro. Expressão repetida por inúmeros outros deputados enquanto votavam ao longo do espetáculo do impeachment: “Senhor Presidente Eduardo Cunha, meu voto é pelo sim", tenta justificar o voto, e conclui "Tchau, querida.”

O Presidente da Câmara foi inúmeras vezes interpelado como o “Senhor Presidente”, mas à Presidente, Chefe do Poder Executivo Federal, coube um “Tchau, querida”. Foi doloroso – sendo mulher – ter de ouvir alguns desses votos, porque faço parte de uma maioria da população e, no entanto, sou tratada politicamente como “minoria”. A tomar como base o deboche para com a Chefe de Poder Executivo, imagino de que forma são tratadas as candidatas a cargos “menores” de seus partidos, se devem ouvir que “lugar de política não é para mulher, querida”.

Estamos fartas de sermos vistas como “queridas” no ambiente profissional, guarde os “queridas” para quem você tem intimidade, pois garanto que, com a Presidente da República, você não tem!

Por fim, gostaria de destacar que o sexismo – infelizmente – encontra espaço em inúmeros meios, e atinge todas as classes socioeconômicas, políticas, idades, grupos (sendo ainda mais cruel em realidades interseccionadas: há inúmeros relatos de mulheres negras na política sofrendo muito mais preconceito e menos espaço político do que mulheres brancas, por exemplo).

Por isso, o que se defende aqui não é nenhuma posição política, pois o machismo é suprapartidário: há perpetuações e reforço de estereótipos em todos os partidos políticos. O que se defende aqui é a tolerância e o respeito pautados no pensamento crítico e no diálogo, com vistas a um futuro conscientemente direcionado à melhoria da condição das mulheres.

O #tchauquerida é, dessa maneira, o reflexo da ironia e da hipocrisia utilizadas na condução do processo de impeachment no último domingo, contra a primeira Presidente da República. E retrata o deboche de uma sociedade que possui 52% de mulheres e ainda tem a coragem de chamar a mulher de “minoria política”. Vamos dar os nomes corretos: não somos minoria, somos subrepresentadas, porque não há interesse em nossa inclusão; e, com relação a expressão “tchau, querida”, use-a com uma pessoa que você realmente acha cara/querida e de quem você é intimo(a) – o que não é o caso.

Victoriana Leonora Corte Gonzaga é Advogada. Graduada pela Pontifícia Universidade Católica.

REFERÊNCIAS
1 Disponível em http://exame.abril.com.br/negocios/noticias/ceo-da-pepsico-e-chamada-de-gracinha-e-odeia; acesso em: 18/04/2016.
2 Importante pontuar que a ofensividade contra mulheres em posição de poder não se restringe apenas a nossa Chefe do Poder Executivo, há inúmeros retratos negativos de Angela Merkel, Cristina Kirchner, Hillary Clinton, dentre outras mulheres em posição de destaque; retratos que não dizem respeito às suas atuações profissionais e sim tentam desqualificar na via da desumanização (como associação à robôs/ciborgue), ou mesmo na via do descontrole emocional, da loucura, histeria e da agressividade.
No tocante à revista IstoÉ, a mesma, ao tratar sobre o comportamento “explosivo” do ex-técnico da seleção brasileira Dunga, utilizou-se de uma abordagem bem mais positiva: “O Dom da Fúria. O que nos faz perder o controle. E como usar a nosso favor.” Enquanto que com a Chefe do Poder Executivo Federal a capa trouxe: “As explosões nervosas da Presidente. Em surtos de descontrole com a iminência de seu afastamento e completamente fora de si, Dilma quebra móveis dentro do Palávia, grita com subordinados, xinga autoridade (…)”.
3 BIROLI, F.; MIGUEL, L. F. Feminismo e Política, 1a edição, São Paulo: Editora Boitempo, 2014.
Terça-feira, 19 de abril de 2016
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