Precisamos falar sobre o Mi
Quarta-feira, 20 de abril de 2016

Precisamos falar sobre o Mi

Ah, o corpo… Essa figura, tão marcada, cheia de fissuras e escombros. Esse objeto débil, abatido, imposto na ditadura das codificações sociais, impossibilitado de ser pura anomia, de estar desatado de regras e diretrizes. Essa mulher, construída em sua corporeidade, em sua historicidade, coligida e moldada em pleno século vinte e um, quase que das costelas de Adão, em suas ínfimas curvas e modelagens, nasce com um frescor de pura obra ao sabor da manhã. Obra divinal ou lipoescultural, esculpida em uma indústria da estética que vende o corpo, dilacera os corações, faz consumi-los como brasa em desejos, apenas em sua simples contemplação: claro, por cima da barra da saia, preferencialmente, na altura do joelho. O orgulhoso marido que o diga.

Freud explica: o fetichismo da lingerie, do corpo feminino coberto, representa o próprio símbolo fálico. A mulher, vestida e transvertida em ínfimas roupas sensuais, representa a estreita curva de passagem para aquilo que, paradoxalmente, se quer e não se quer que ela seja. Em uma equação quase simbólica, que remete à castração, a mulher vista a partir do homem, ou a mulher enquanto ausência, a questão do fetichismo e das roupas é o mero substituto do pênis que lhe falta. Essa falta que subjuga, que submete, que está sub manus. Aquela arcaica figura do poder dos tempos romanos, o pater potestas, que poderia decidir sobre a vida e a morte de seus súditos, de seus submetidos e, em especial, de suas mulheres.

Foucault dizia que a mudança do comando do tanatopoder para o biopoder é a própria transformação do velho regime para o novo regime, a modernidade. O poder, que deve ceder seu espaço ao outro, não o cede de modo completo, mas o faz de um modo subentendido: se já não era possível decidir sobre a vida e a morte das mulheres, por que então não decidir sobre o controle da vida desses corpos, os corpos de zoé que invadem a pólis? O poder, que se torna microscópico, age agora sobre os corpos políticos da história, através das múltiplas redes de poder das instituições sociais, nas quais se forja o indivíduo normal e disciplinado. São os discursos pelos quais o poder institucionaliza a verdade, transformando os corpos em meras figuras manipuladas pela biopolítica.

O biopoder é mais sutil e, talvez, por isso, mais perigoso, porque passa a subsumir pela prevalência de visões dominantes e totalizantes. Marcela, a quase-primeira dama, mas de plena beleza e docilidade. Marcela, a princesa, desprovida de vontades, que é levada ao primeiro encontro pela própria matriarca, loira, feminina, de olhos claros e, obviamente, sacudida, porque, ora, o que seria da matriarca se não fosse também uma serva?! Marcela, a mulher medida e comedida pelo "Mi", pelas blindagens, pelo mito do primeiro namorado, pela imposição da maternidade, pelo casalzinho de filhos, pela família perfeita, pelo marido protetor, pelo próprio lar, pela fineza e educação, pelos seguranças, pela não invasão dos espaços públicos e, claro, envolta em sua própria beleza, medida por uma fita métrica como o comprimento de sua saia. Quais são as redes de contato da bela princesa Marcela? O cabeleireiro, a irmã, a estilista e, especialmente, a mãe. Tudo restrito ao conforto do Oikos. O que mais se poderia esperar de Marcela? A pólis está reservada ao marido perfeito, muitos anos mais velho, experiente e romântico, apesar do recrudescimento dos anos. Porque Marcela também merece migalhas.

Marcela reside na cidade onde os corpos não transgridem a heteronormatividade. Seja apenas Marcela, ou seja o discurso, a Marcela que poderia existir é silenciada pela rede discursiva da binaridade dos corpos, dos desejos e dos espaços. A Marcela periférica seria muito mais rica. As dobras de Marcela revelariam um corpo muito mais opulento, mas apenas revelam a construção histórico-política da verdade dos corpos. Marcela é apenas um mito. Um mito que deve ser extirpado de nossas construções sociais.

Como fugir do mito Marcela, que nos afoga como um Mar? Precisamos falar mais de Mi. Não de Michel Temer, mas de Michel Foucault, pois é tempo de transgressão dos regulamentos ocultos dos corpos. Vamos ressuscitar Michel Foucault, convidá-lo a debate, nesses estranhos momentos de sujeição, fazendo instalar os acasos e libertando a história do seu modelo metafísico e antropológico. Fazendo dela uma contramemória de puras descontinuidades, historicamente e fisiologicamente, diria Nietzsche.

Ana Paula Lemes de Souza é Mestranda em Direito pela Faculdade de Direito do Sul de Minas (FDSM), Pós-Graduada em Direito Público pela Universidade Cândido Mendes (UCAM), advogada, ativista, romancista, contista, poetisa, roteirista, feminista e pesquisadora integrante do grupo Margens do Direito (FDSM).
Quarta-feira, 20 de abril de 2016
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