Ele está de volta para mostrar que o discurso nazi-fascista não é digno de riso
Quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ele está de volta para mostrar que o discurso nazi-fascista não é digno de riso

Hitler está de volta para discutir nazi-fascismo e manipulação de massas. Seu retorno pode ser visto no filme “Ele está de volta”, a adaptação do livro que rendeu polêmica mundial ao, de forma cômica, narrar a história do surgimento do ditador nazista em carne e osso na Alemanha no ano de 2014.

Resumo do resumo: em evento inexplicável, Hitler surge em um terreno baldio em Berlin no Século XXI e, por um acaso, se alia a um produtor desempregado, que vê nele um comediante brilhante, por sua imitação do Fuhrer. O produtor, representando uma pessoa absolutamente ordinária, típico "homem médio", decide fazer algumas filmagens com o que ele imagina ser um ator. Por isso, percorre toda Alemanha com Adolf, conversando com alemães sobre a situação política no país. 

Esse documentário evoluirá até um programa de TV com Hitler como comediante. É o show dentro de um show, um filme que tem a mídia como uma das principais personagens. Aborda a ânsia pelo viral, pelo pico de audiência, não importa o quanto você valorize uma pessoa com pensamentos como de Hitler, o qual, na obra, é engraçado e carismático.

Algumas cenas são hilárias, como quando Fuhrer descobre a Wikipédia, ou ainda quando ele finge não sentir dor por encostar em uma cerca elétrica. Essas cenas, aliás, tanto no livro, como no filme, levantaram a polêmica sobre a possibilidade de se fazer humor com o ditador, que representa um regime genocida que até hoje inspira uma série de políticos mundo afora. Quem afirma não ver problema no humor lembra, por exemplo, “O Grande Ditador”, de Chaplin, que justamente ridiculariza para depreciar ainda mais. “Ele está de volta” também percorre o caminho do ridículo, mas mescla com a humanização do ditador.

Essa humanização do ditador mais odiado de todos os tempos tenta atrair a simpatia não apenas de quem é envolvido na trama, mas também da pessoa que está assistindo ao filme – guarde essa informação, ela é chave. A obra anda na linha tênue entre realidade e ficção.

Essa identificação também somente se faz possível por conta da interpretação estupenda de Oliver Masucci, que claramente estudou a vida de Hitler a fundo, como se percebe nas improvisações das conversas com alemães. Sim, fundamental elemento da obra: a maioria das interações não são ensaiadas, mas sim interações com civis, que naturalizam discursos propostos pelo ditador. Um dado é realmente chocante: somente duas pessoas reagiram negativamente em 300 horas de gravação. A grande maioria, além de confessar seus anseios hitlerianos, tirava selfies.

Calma, ainda não contei da missa a metade, mas fique atento que, a partir de agora, vão rolar uns spoilers dentro desse texto. Para quem não viu e quiser continuar, esse trailer vai te ajudar (mas não vai salvar a pele, pois no Youtube não há trailer legendado). 

Hitler voltou para Alemanha, mas, se quisesse, poderia ter ido ao Brasil

O filme narrado em primeira pessoa destaca frases megalomaníacas do ditador, exaltando pensamentos nacionalistas de preservação da identidade e família alemã. Para o personagem, que retrata muito bem a figura histórica, a pátria e o povo alemão são valores fundamentais a serem defendidos, além, é claro, do discurso pela moralidade e a lavagem desse cenário somente poder ser feita por alguém honesto e incorruptível. A visita do ditador à Alemanha poderia muito bem ser ao Brasil, país cuja bandeira da pátria e da moral ganha mais força a cada dia, capitalizando políticos que surfam muito bem essa onda.

O exemplo máximo do pensamento populista de direita, como lembra Francisco Toledo[1], é Jair Bolsonaro, que movimenta multidões que o amam ou, ainda, o ridicularizam. No específico caso da realidade brasileira, as redes sociais foram uma grande plataforma para fortalecimento dele como líder de uma massa carente do discurso da ordem, da pátria e da família. De outro lado, muito se cresceu pelos olhos fechados da mídia para os absurdos de Bolsonaro, enquanto este cumpriu um papel de desestabilizar um governo que não era do agrado de ambos.

No filme, a simpatia por Hitler é desmascarada em uma cena de embate entre o ditador e uma senhora judia. O episódio dramático desperta o personagem do documentarista-pessoa-média-deslumbrado do encanto pelo nazista. A senhora judia surge no final do filme para lembrar onde a idolatria e o discurso do totalitarismo da direita leva. A partir dessa cena, o filme adota outra perspectiva – Hitler já não é mais carismático, mas já é tarde demais para se levantar contra sua figura.

No momento da publicação do texto, o pensamento conservador católico da elite financeira parece pousar exatamente nesse ponto. Há poucos dias, Bolsonaro deixou de ser conveniente no discurso anti-petista e perdeu completamente o carisma ao homenagear diante do mundo um notório torturador. Como representantes do pensamento da grande mídia, não faltam levantes contra quem há poucos meses sequer era incomodado. Ocorre que, a cada manifestação, uma horda de seguidores que foram lentamente cultivados se levantam em resposta, abafando o efeito pretendido.

Essa é a miséria muito bem representada pelo fim do documentarista-deslumbrado no filme. Quando quis se levantar, era tarde demais; o ditador estava forte.

Bolsonaro é o ícone fascista de hoje, mas amanhã será outra pessoa. Hitler está de volta para dizer que a sociedade nunca se livrará de políticos com plataformas nazi-fascistas. Eles crescem midiaticamente como personificação da ética e moralidade, em defesa da família e de valores, pela pátria e resgate do orgulho da nação.

A sátira de Hitler vem para deixá-los nus. Vem para dizer que o discurso de Bolsonaro não é digno de riso, de ridicularização.

Brenno Tardelli é diretor de redação do Justificando.

[1] http://www.brasilpost.com.br/francisco-toledo/populismo-direita-ele-esta-de-volta_b_9781926.html
Quinta-feira, 28 de abril de 2016
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