Meu pai não é machista, mas eu sou
Sábado, 28 de maio de 2016

Meu pai não é machista, mas eu sou

Quando nasci, um anjo torto desses que andam pelas sombras não disse: “Vai, Renan, ser machista na vida!" Mas, ainda assim, eu fui. Provavelmente, logo que descobriu que se tratava da gestação de um menino, meu pai agradeceu à natureza (“meninos são mais fáceis de serem criados”) e já desenhou todos os passos necessários para minha futura transformação em um verdadeiro “macho”.

A primeira regra básica de um “macho”, a qual aprendi, é que homens são homens e mulheres pertencem a outra categoria (um certo mundo subalterno), que eu poderia até me relacionar (ocasionalmente e para fins específicos devidamente demarcados), mas nunca imaginar que seriam iguais, nem repetir nada delas, sob pena de perder aquilo mais precioso que eu deveria construir por toda a infância e adolescência, a virilidade masculina. O importante era ser criado como um “pegador nato” (para não usar outros termos ainda mais machistas), tudo o mais era acessório.

Para o desespero de um pai machista, as filhas um dia chegaram. Imaginava que só as “outras mulheres” (da porta para fora) seriam diferentes. Acreditava que os meus privilégios eram restritos ao mundo exterior, mas aprendi que não. Era preciso delimitar, dentro do ambiente familiar (e, no futuro, isso deveria refletir sobre todos os espaços), que eu era um ser superior em relação às minhas irmãs. Para isso, existiam regras e mecanismos distintos de tratamento. Enquanto “homem”, poderia sair e voltar em horários desconexos, já que se presumia que estava “pegando” alguma menina. E, quanto mais fossem, melhor eu seria! Isso me transformaria em um “ser socialmente aceito e destacado”. Já para “suas próprias filhas”, o controle e a supervisão, pois multiplicidade de namorados gerava de presente o termo “puta”. E, “elas não gostariam de ser putas”.

Depois das saídas juvenis, chegou o sexo. E uma nova lição me foi ensinada. Há dois tipos de mulheres, aquelas que servem para fazer sexo (sem risco e compromisso, desde que “limpinhas”), e há outras, que são mais sérias e familiares. Deveria escolher essas para namorar. Deveria ter em mente que “não se pode desfilar com putas pela cidade”.

Bem, meu pai não se acha machista. Tem horror à violência. Seria incapaz de machucar qualquer pessoa, inclusive mulheres. Ele até prefere trabalhar com elas, desde que elas não sejam chefes, pois quando chefiam ficam emocionalmente instáveis. A violência que as mulheres sofrem, bem, diria ele, “homens podem até errar, mas mulheres também provocam”. Certamente, ele não é machista. Porém, eu sou!

Meu machismo está tão preso na minha vida que, muitas vezes, nem percebo. E, quando percebo, na maioria das vezes, ignoro-o. Sou machista quando aceito, sem qualquer reação, reproduzir práticas condenáveis, desde o meu “aceite” às condutas que transformam as mulheres em mera “coisa” sexual, até, nas relações mais próximas, quando, ainda que não pronunciado, imagino que aquele comportamento só poderia ter vindo de uma mulher. Sou um machista mais sofisticado, adaptado aos novos tempos. Um machista pós-moderno.

Infelizmente, ainda há muito a fazer, em esforço pessoal, para que eu não seja mais machista (ou que não permita que o machismo guie meus comportamentos e escolhas). Espero que, após essa confissão, minhas práticas sejam outras e que, quando eu olhar e me relacionar com uma mulher, eu veja finalmente uma mulher, e não mais um elemento de apropriação. Há ainda um longo caminho a percorrer até que isso ocorra.

Renan Teles é Procurador do Estado. Membro do grupo Olhares Humanos.
Sábado, 28 de maio de 2016
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend