A dor da generalização
Segunda-feira, 30 de maio de 2016

A dor da generalização

Generalizações doem. Tenho de confessar. Eu, até então irredutível contra qualquer tipo de generalização, me vi incomodado ante algumas acusações. Acusações fortes, outras até desmedidas, mas que nos fazem refletir. Cogitei a hipótese de generalizações, às vezes, serem necessárias. Talvez, um primeiro passo para o reconhecimento, para a alteridade, para a troca de peles.

Ao andar pelas ruas pouco iluminadas da cidade, ontem, tentei sentir-me como penso que uma mulher do meu círculo de convivência sentir-se-ia; como, ao caminhar junto delas, sinto-me no dever de protegê-las de alguma coisa (ou de alguém): mais vulnerável do que eu, de porte físico menor, menos capaz de resistir à força, incapaz à eventualidade de um bote surpresa, comida pelos olhos do entorno, ao coração que treme por ser uma presa e não pelo prazer do caçador. Sente-se o que acredito ser um relance do que uma mulher verdadeiramente sente. No mais, a violência é algo por si mesmo generalizador: todos sentem, embora pareça não ser o suficiente. A diferença de gênero, a coisa de possuir características físicas, fisiológicas e psicológicas tão peculiares pode fazer com que homens e mulheres encontrem um empecilho para a alteridade total. É possível que alguns horrores possam ser possíveis de se sentir apenas por meio da generalização.

A generalização da corrupção, da ignorância, do machismo, da homofobia, do estupro, agora. No mínimo – no mínimo –, a generalização faz sentir, nem que seja por um segundo, como o generalizado, como o corrupto, como o ignorante, machista e estuprador. E, aqui, algo violento e revelador se emerge do inconsciente – do caráter, pode ser que do psicológico, ou do intelectual, ou do infantil, ou do puramente sexual –; algo, um monstro, ou uma entidade, que abre-nos os olhos, que olha à sua volta, que respira, que se vê refletido no outro. A vista de si mesmo que gera o susto, o terror do que é, a fuga do que poderia fazer, a tranquilidade de ser ou de não ser, bem como a angústia por quem faz. Tranquilo, volta às profundezas; incomodado, esnoba cinicamente ou se opõe. Lembrando sobre o meu “passeio do reconhecimento”, ontem à noite, cheguei a pensar: para que sair, então, sozinho? Poderia ficar em casa. Talvez eu que esteja a facilitar…

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Não me surpreende ver tantos a se incomodarem com as manifestações contra o estupro, ou, em um âmbito maior, aos argumentos por vezes até generalistas de algum grupo, mencionando a nossa história notoriamente machista e que sempre buscou coisificar o sexo oposto, fisicamente mais fraco, no tento de submetê-lo ao seu poder seja em qual patamar for: familiar, social, sexual, político, religioso, econômico, laboral. A história não nos mente e esta mesma história nos permite a generalização. A generalização, durante um tempo, até que nos venha uma absoluta superação cultural, é inversamente proporcional ao dano alegado por qualquer macho que se sinta de alguma forma tocado ou injustiçado. Tocamo-las e injustiçamo-las é desde sempre. A individualização da culpa nos leva a prisões isoladas e, no caso do Brasil, ineficazes; a culpa generalizada nos faz encarar a história. Não é a culpa do sujeito, mas a culpa de todo um gênero. Não surpreendentemente há os que se incomodam mais com a generalização do que com a violência do estupro em si, e isto porque é a demonstração cabal de que ainda vivenciamos resquícios de uma traição que ultrapassou vários séculos: os que são estupradores; os que não são, mas que estuprariam; os que nunca serão mas que são reféns do sexismo inerente à prática do estupro; aqueles que simplesmente não refletiram suficientemente, baseados na introspecção pessoal ou no conhecimento científico, a fim de compreender como chegamos até aqui. Não me surpreende o impulso animal, violento, aniquilador; surpreende-me é o fracasso da evolução intelectual. Longe de qualquer tese, de qualquer crítica, de qualquer argumentação, não vejo o direito de ninguém em se opor à busca de um grupo que tão somente anseia por liberdade, respeito, alteridade sem condição. Serem, acima de qualquer coisa, uma vida bem distante de qualquer coisificação. Como homem eu não sei o que é ser mulher, mas conheço bem o desejo por respeito simplesmente por “ser” alguém.

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As lutas por direitos e em busca de proteção para os grupos culturalmente hipossuficientes vieram sempre fragmentadas. Grupos ignoram a luta de outros grupos por não se identificarem ideologicamente com suas reivindicações. É uma posição baixa, é um pensar limitador: não sou negro, não sou gay, não sou judeu, não sou mulher, não sou pobre. Também, não sou racista, não sou homofóbico, não sou anti-semita, não sou machista, não sou preconceituoso. Essa omissão, que em muito pode ser…

“Antes não ser nada disso, e, não sendo, que bom que estou bem”. Reflexões que me fazem ambicionar pelo dia em que toda espécie de vida tenha a sua integridade respeitada incondicionalmente, longe de toda submissão sexista, de toda coisificação imposta pela tradição e pelo poder, independentemente dos argumentos meramente retóricos utilizados tão somente para nos escondermos daquilo que de fato somos: seres em busca de mais e mais potência. Nosso passado nos condena, mas nosso presente também. Envergonhar-me-ia, daqui a dois séculos, do que digo agora? É uma indagação reveladora, da qual, imagino, todos saibamos a resposta e da qual muitos de nós prefere fazer vista grossa, mentir e então poder se esconder. Se há uma palavra que percorre a história e se mantém imune a todas as revoluções sociais, a todas as intempéries de todas as mudanças, arriscar-me-ia em dizer que ela é: reconhecimento.

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A questão do estupro, especificamente, não se encerra em si mesma; põe-se fim nesta fatídica sociedade patriarcal que se arrasta desde antes de nascermos. Tudo o que vem antes de nascermos é absorvido por nós de maneira umbilical sem nem percebermos. Acredito não haver um só homem que, na escola, durante a sua criação, não saiba dos comentários e das piadas voltadas à constatação de certa inferioridade de gênero: sempre há o “mocinha”, o “mulherzinha”, o que pode ser aproveitado por possuir uma demonstração de força inferior ao dos demais. O que, por ser negro, é “sujinho”; o que, por ser simples, é “pobrinho”; o que, por ser estudioso, é “bobinho”; o que, por andar com as meninas, é “viadinho”. Sempre foi uma questão de poder; nos colégios, nas penitenciárias, no trabalho, em todo lugar.

A ideia de que boas garotas, recatadas, não são estupradas, tão somente reforça a certeza da submissão presente no discurso inconsciente do homem. A inconsistência dos argumentos presentes no mesmo texto, como: se estivesse bem vestida e na igreja isso não aconteceria, e; o homem não é um estuprador em potencial, anulam-se, porque, assim, é o mesmo que afirmar: “Você sabe que homem é um bicho difícil, não sabe? Então para que facilitar?”.

Machismo não é estupro, da mesma forma que o “jeitinho” nem sempre é corrupção; mas, nesses casos, cara de um, focinho de outro; não há como negar o seu nascedouro. O banco não tinha segurança e pediu para ser assaltado; ela usava saia curta e pediu para ser estuprada; esse negro usava boné à noite e pediu para sofrer uma “batida”; é como roubar doce de criança (se fosse homem feito, e não criança, talvez eu não tentasse roubar); se a vítima pudesse revidar e resistir, se eu pudesse apanhar, estupro é algo que eu pensaria duas vezes antes de tentar; estavam desatentos e furei a fila; quem mandou não haver fiscalização? Soneguei.

Não estou falando apenas do fato de que uma mulher é estuprada a cada um minuto no Brasil, ou da publicidade que se aproveita descaradamente do corpo feminino, ou da diferença salarial que ainda existe em alguns lugares, ou da violência doméstica, ou… de algo sem fim. Sei que estou generalizando; sei que posso estar errado em vários pontos; sei que alguns termos, inadequados, podem incomodar inclusive às mulheres a quem estou tentando defender, porque nelas reside o berço de uma sensibilidade peculiar. Mas pode ser isso, também: a ideia de que preciso defendê-las pressupõe um agressor; a ideia da sensibilidade pode se confundir com submissão; a ideia de compreensão absoluta mina em muito o meu próprio cuidado ao tratar do seu universo diferencial. Enquanto pensarmos que precisamos defendê-las é porque…

É algo tão profundo que eu mesmo, enquanto escrevo, sinto-me um violentador de um assunto e de sensações de um mundo bem sui generis. Hoje, estou certo, qualquer discurso acerca do assunto que não seja o feminista é a manutenção do status quo (quiçá um novo estupro), da mesma forma que qualquer discurso não sendo o da revolução profunda na educação é a continuidade da corrupção. Isenção, omissão, ou aceitação. Pensando bem, tudo isso não é a mesma coisa, mas ao generalizá-las, tentei pelo menos um mínimo de compreensão.

Schleiden Nunes Pimenta é pós-graduando em Filosofia e Teoria do Direito, escritor e revisor de textos acadêmicos e literários.
Segunda-feira, 30 de maio de 2016
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