A pele que não habito: um convite à alteridade
Terça-feira, 31 de maio de 2016

A pele que não habito: um convite à alteridade

Tomando de empréstimo o título do gênio espanhol, é preciso pensar, para além das mazelas que sentimos “na própria pele”, e que decorrem, sobretudo, de condições socioculturais e econômicas, do que (não) nos leva a compartilhar da luta contra a opressão e a injustiça vivenciadas por aqueles que estão na pele que não habitamos.

Refletir sobre as dores suportadas por aquele que está em condição, circunstância ou contexto distinto daquele em que nos achamos é, a um só tempo, expressão e ponto de partida para a compreensão da alteridade e da empatia, essa capacidade de se colocar no lugar do outro, nas relações interpessoais, e de se identificar com o diferente – que, em última análise, consiste em qualidade e potencialidade humana de transcender sua própria condição e se projetar para o outro, compartilhando de sua conjuntura, suas limitações e conflitos, e de suas dores.

O que leva um branco a militar pela efetiva igualdade racial; como hetero, a empunhar a bandeira pelo respeito às várias manifestações da sexualidade humana; como homem, a empreender a luta contra a cultura patriarcal, a ideologia machista, e a misoginia?

Evidentemente, o pertencimento à raça humana, essa condição comum a todos, que, por si só, faz (ou deveria fazer) com que nos solidarizemos com o sofrimento de outro ser humano, qualquer que seja o contexto de opressão, violência ou injustiça vivenciada.

Apesar da obviedade do raciocínio, a grande questão é: O que me impede, como pessoa humana, de batalhar pela efetiva igualdade racial e de gênero e, de modo geral, pela igualdade de direitos, na prática, entre todos?

Permitam-me uma retificação. Em verdade, o grande óbice à alteridade, nos dias atuais ‒ de individualismo extremado, de competição em todas as searas, de polarização e acirramento dos ânimos ‒ não parece ser a resistência explícita à causa do outro, mas, sobretudo, a apatia, que vem substituindo a empatia, em tempos de modernidade líquida.

Já se disse que mais grave do que o grito dos maus é o silêncio dos bons. Com a expressa ressalva ao maniqueísmo explícito na assertiva, a experiência cotidiana nos mostra que, de fato, a indiferença com a causa daquele com o qual não compartilho da experiência ‒ por ser de outro sexo, de outra raça, de outro credo, ou de classe social distinta, etc ‒ é o maior dos obstáculos à transformação social verdadeira, à consolidação da democracia e dos direitos humanos e, notadamente, à construção de uma cultura de paz.

Sobre as razões para essa apatia, essa ausência de alteridade, a resultar na insensibilidade à causa do diferente, lamentavelmente, tenho mais questionamentos do que respostas. Mais dúvidas (e indignação) ainda quando a omissão vem daqueles que assumiram expressamente o compromisso e/ou que ocupam posição ‒ assumida voluntariamente ‒ de lutar incansavelmente contra a cultura machista, racista, fundamentalista, homofóbica e opressora das minorias e das classes sociais menos favorecidas: é dizer, contra a (so)negação de direitos.

Nesse contexto de inquietações diversas, como certeza exsurge apenas a de que a cultura de paz à qual aspiramos não virá antes do reconhecimento da irmandade que nos une a todos, pessoas humanas, num destino comum. E isso implica, necessariamente, colocar-me na pele que não habito.

Isabella Faustino Alves é Defensora Pública. Coordenadora do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado do Tocantins. Conselheira Estadual de Defesa dos Direitos Humanos (Estado do Tocantins). Especialista em Direito Constitucional e Direito do Estado. Integra o Coletivo Defensores Públicos pela Democracia.
Terça-feira, 31 de maio de 2016
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend