Crimes da Rua do Arvoredo: as linguiças de carne humana
Quarta-feira, 1 de junho de 2016

Crimes da Rua do Arvoredo: as linguiças de carne humana

Muitos devem lembrar ainda de um fato que foi desvendado por volta do ano de 2012, o caso dos salgadinhos humanos de Guaranhuns – PE, no qual Jorge Negromonte, Jéssica Camila e Isabel Pereira foram acusados de matar pessoas e com os pedaços dos corpos faziam salgadinhos para vender.

Hoje relatamos um caso muito semelhante, mas que se passou no século XIX. No entanto, antes de adentrarmos no crime, vamos conhecer um pouco as “personagens” desta história de terror.


José Ramos e Catarina Palse

José Ramos é certamente a personagem principal desta história hedionda. José era o filho mais velho de Manoel Ramos e Maria da Conceição. Manoel foi servidor de um esquadrão de cavalaria de Bento Gonçalves durante a Revolução Farroupilha. Todavia, desertou e fugiu para Santa Catarina, local onde fixou residência e onde José Ramos, seu filho, nasceu.

Era hábito do pai contar façanhas da revolução, ouvidas com admiração por Ramos. Aqui, segundo a história, Ramos insistia ao pai que contasse amiúde as investidas do esquadrão ao toque de "degolar", demonstrando especial interesse acerca dos detalhes empregados sobre modo de aplicar a degola.

Na juventude, vendo sua mãe ser agredida pelo pai embriagado, José Ramos toma uma faca e projeta contra seu progenitor ferindo-o gravemente, levando-o à morte em poucos dias.

Esse episódio induz Ramos a retirar-se para a Província de São Pedro, onde se estabelece como soldado da Polícia, exercendo a função de maneira digna, até o dia que é flagrado tentando degolar um preso célebre de alcunha Campara, uma espécie de Robin Hood dos Pampas, sob o pretexto de que esse tentava fugir. Dada a repercussão, é exigida a baixa de Ramos, passando a servir como informante da Polícia, subordinado diretamente ao Chefe de Polícia, o delegado Dário Callado, por quem, mais tarde, seria preso.

Diz-se de Ramos que era um sujeito mestiço claro, olhos enormes, voz sinistra, barba rala, alto e de extraordinária força física e sempre exageradamente perfumado. Vestia-se de maneira impecável e possuía razoável nível de instrução. Homem religioso e sensível, Ramos ia à missa, e demonstrava grande interesse pelas artes. Frequentava a mais alta classe de Porto Alegre, sendo conhecido em eventos de alto luxo e sofisticação, como apresentações teatrais, óperas, além de ser um frequentador assíduo do recém-inaugurado Theatro São Pedro. Também foi na capital gaúcha que o mesmo encontrou e se apaixonou por Catarina Palse.

Catarina Palse, embora não seja a “personagem principal”, é elemento não menos importante, pois foi cúmplice de José Ramos, seja por atrair as vítimas para sua residência ou, simplesmente, pela omissão, acobertando os crimes do marido.

Catarina tinha origem Húngara, mas era etnicamente alemã, em razão de fazer parte de uma minoria alemã que povoou o território da Transilvânia que posteriormente constituiu aquele País. Filha de artesão, de família pobre, morava em uma aldeia com os pais e dois irmãos. Catarina teve a família assassinada e foi estuprada e abandonada inconsciente por soldados durante a revolução húngara contra a Áustria. Aos 15 anos, casa-se com Peter Palsen, um cardador de lã. Posteriormente, aconselhados pelos pastores protestantes, emigram para o Brasil, a fim fugir da miséria em que viviam. No decorrer da viagem, o marido de Catarina se suicida por estrangulamento.

Em 1857, com 20 anos e solitária, Catarina chegou à capital gaúcha. Cinco anos depois, começou a se envolver com José Ramos e, em 1863, começaram a viver juntos na denominada Rua do Arvoredo (atual Rua Fernando Machado), lugar próximo a um cemitério que se encontrava nos fundos da chamada Catedral Metropolitana de Porto Alegre.


Rua do Arvoredo

Embora muito se fale que Catarina era mulher de beleza exuberante, não há qualquer indício que confirme esta afirmação. Segundo Jean Pierre Caillois (conforme descreve Décio Freitas em sua Obra O maior crime da Terra), “… é inteiramente desprovida de dotes físicos e mal se pode acreditar que exerce atração. Baixa e obesa, só tem de belos os longos cabelos loiros e os olhos muito azuis”.

O terceiro personagem, Carlos Claussner, é elemento importante na história, mas, ao mesmo tempo, ao final, se torna vítima das tramas de José Ramos e Catarina Palse.

Claussner era proprietário de um açougue situado na Rua da Ponte, atrás a igreja das Dores. Claussner emigra para o Brasil em 1859 sob o conceito de “proprietário”, o que lhe conferia a distinção dos camponeses e artesãos, já que alguém nessa condição significava viver de rendimentos.

Assim que chegou a Porto Alegre, estabeleceu o mencionado açougue. Isto, segundo a história, remete a verificar que trouxe consigo alguma riqueza. Em face da localização, Claussner prospera subitamente, já que as senhoras, ao saírem da missa, ordenavam os escravos que fossem ao açougue do alemão para comprar carne.

O Alemão tornou-se amigo de Ramos porque vivia solitário e também porque o Chacal dominava o seu idioma, o que levava os dois a conversar, diariamente, durante longo período, em alemão, no interior do açougue. Logo Ramos tornou-se ajudante de Claussner, com quem aprende o ofício. Claussner frequentava com relativa assiduidade a residência de Ramos.

Os açougueiros, à época, provocavam asco à população, em razão de empunharem instrumentos de corte, esquartejando carne e sempre estarem sujos de sangue. Claussner, além da aparência sinistra, exibia uma cicatriz em seu rosto que lhe emprestava um aspecto perverso.

Estamos em 1864, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Um comerciante português chamado Januário e seu caixeiro, José Ignacio de Souza Ávila, haviam desaparecido. Os vizinhos do casal haviam presenciado o português Januário e seu caixeiro com José Ramos um dia antes do desaparecimento. A partir do momento em que esse fato ocorreu, no outro dia Ramos recebeu uma intimação para que explicasse esse mistério. Porém, ao chegar à delegacia, o acusado não revelou o que realmente tinha ocorrido, mas alegou que os desaparecidos teriam embarcado para o Caí.

Ao final do depoimento dado por José Ramos, o chefe de polícia, Dário Rafael Callado, não se convenceu da “história” contada por Ramos, e então decidiu investigá-lo. No dia 18 de abril, a polícia de Porto Alegre buscou provas na residência de José Ramos e deparou-se com uma cena de crime horripilante: no porão da casa de José Ramos e Catarina Palse, na Rua dos Arvoredos, estavam enterrados os pedaços de um corpo humano, já em avançado estado de decomposição. A vítima foi identificada: era o alemão Carlos Claussner, dono de um açougue na Rua da Ponte.

Ao examinar um poço desativado, no terreno dos fundos da casa, a polícia encontrou os corpos do taverneiro Januário Martins Ramos da Silva e de seu caixeiro, José Ignacio de Souza Ávila, de apenas 14 anos, igualmente esquartejados. As buscas no poço prosseguiram, tendo a polícia encontrado ainda o cadáver de um cachorrinho preto, rasgado da garganta ao ventre.


Recorte de Jornal da época

A motivação dos crimes era evidente: José Ramos e Catarina Palse mataram para se apossar dos bens de suas vítimas, com exceção do caixeiro e do cãozinho, que foram mortos como queima de arquivo.

O diário de Catarina foi o ponto de partida para a investigação das demais mortes. Catarina Palse, pressionada e tomada de remorso após a prisão de José Ramos, confessou à polícia que ali, naquele local, haviam sido mortas seis pessoas, que foram transformadas em linguiça pelo açougueiro Carlos Claussner.

Segundo os autos, cabia a Catarina atrair as vítimas, geralmente abordadas no Beco da Ópera, onde, nos dias de hoje, localiza-se a Rua Uruguai. Catarina levava as vítimas por becos escuros e ladeiras para um sobrado que ficava atrás da antiga Matriz.

Na casa do casal, as vítimas eram degoladas, esquartejadas e descarnadas. Toda essa carne era transformada na linguiça vendida no açougue de Carlos Claussner, que ficava na Rua da Ponte (atual rua Riachuelo). Segundo os registros daquela época, a carne, além de muito bem aceita no comércio, era consumida, na grande maioria, pela alta burguesia de Porto Alegre.

Consta que Claussner foi o “mentor” da fabricação de linguiça das vitimas de Ramos, tendo dito a José Ramos que esta seria a melhor maneira de impedir que os assassinatos fossem descobertos. Ou seja, esquartejando os cadáveres e os transformando em linguiça, e os ossos colocados em ácido para dissolverem ou incinerados no açougue, eliminando, dessa forma, as possíveis evidências dos crimes.

O delegado se viu em uma situação complicada, pois, por um lado, resolvia o caso dos desaparecimentos, por outro, o acusado era um de seus informantes assalariados. Além disso, as evidências eram conclusivas e indicavam que os corpos despegados foram transformados em linguiça.

Na época, o delegado exercia concomitantemente as funções de Chefe de Polícia e Juiz de Direito, o que era autorizado em algumas províncias. Isso permitiu que não surgissem revelações embaraçosas sobre seus vínculos com José Ramos. Acuado, imprimiu celeridade jamais vista ao inquérito policial e cumprimento das funções judiciais.

O Doutor Juiz de Direito Dario Callado pronunciou a sentença e José Ramos foi incurso nas penas do crime de latrocínio, sendo condenado à pena de morte por enforcamento pelos seus crimes – depois comutada à prisão perpétua. Catarina acabou sendo presa como cúmplice, condenada a 13 anos de prisão, morrendo anos depois em um hospício.

Boatos dizem que o caso de José Ramos chamou atenção do mundo inteiro e que até mesmo Charles Darwin, autor da teoria da evolução das espécies, tomou conhecimento dos crimes e escreveu em Londres sobre o caso: “Informa-se que no extremo meridional do Brasil, em uma cidade chamada Porto Alegre, um grupo de perversos matou várias pessoas, usando sua carne para fazer linguiça, que não só comeram como induziram os habitantes a comê-la. O temor de que a humanidade perca sua posição nobre e volte à bestialidade é infundado. Regressões ocasionais sempre ocorrerão. Há chacais adormecidos em cada homem”.


Jornal da época

O processo dos crimes da Rua do Arvoredo encontra-se hoje guardado no Arquivo Nacional (RJ), apesar da crença generalizada no sumiço dos papéis. Segundo o historiador Décio Freitas, autor do livro O maior crime da Terra (Editora Sulina, 1996), os processos estão incompletos, são todos manuscritos e de difícil compreensão, o que torna a investigação do texto uma tarefa árdua. Portanto, jamais se saberá se a história é completamente verdadeira.

Diego Augusto Bayer é Advogado criminalista, Doutorando em Direito Penal, Professor de Direito Penal, Processo Penal e Criminologia da Católica de Santa Catarina e autor de obras jurídicas. 
Cidânia Aparecida Locatelli é Advogada, Pós Graduada em Direito Empresarial pela UNOESC, Pós Graduada em Direito Trabalhista pela UNINTER, Professora de Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, autora de artigos jurídicos em revistas especializadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COIMBRA, David. Canibais, paixão e morte na Rua do Arvoredo. C.L&PM Pocket, 2005;
FREITAS, Décio. O maior crime da Terra – O açougue humano da Rua do Arvoredo (1863-1864). Editora Sulina, RS, 1996.
Disponível em: http://crimesdaruadoarvoredo.blogspot.com.br/. Acesso em 17 mai. 2016.
Disponível em: http://oscrimesdaruadoarvoredo.blogspot.com.br/. Acesso em 18 mai. 2016.
Quarta-feira, 1 de junho de 2016
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