O crime é onipresente na cultura contemporânea… e nos fascina
Sexta-feira, 17 de junho de 2016

O crime é onipresente na cultura contemporânea… e nos fascina

Não existe o crime em si mesmo. No entanto, a onipresença do crime na vida contemporânea é um fenômeno inegável. Todos experimentam o crime como construção cultural que se dá em uma dinâmica incerta e imprevisível, através da qual é negociado seu significado: como estilo de vida, entretenimento comodificado, inimigo a ser combatido ou temido, a realidade do crime e da criminalidade parece algo palpável, quase ao alcance da mão. 

Programas sensacionalistas, filmes que glamourizam o desvio e roupas de grife que estilizam a transgressão são alguns dos elementos que demarcam o território de possibilidades analíticas do que pode ser visto como efervescência criminal nos mais distintos círculos da cultura globalizada. O fenômeno não é inteiramente novo: em 1961, Sykes e Matza já apontavam que subculturas criminais não estão apartadas dos valores dominantes: são de muitos modos similares a eles, uma vez que a sociedade mainstream exibe um disseminada predileção por violência, que é consumida em fantasias que povoam livros, revistas, filmes e televisão.[i]

Por outro lado, definitivamente há algo de novo no front, ou seja, um aprofundamento incisivo do processo de comodificação, através do qual coisas que por sua natureza não poderiam ser transformadas em mercadorias efetivamente tornam-se parte substancial da cultura de consumo, o que vale inclusive para o marketing de produtos que em outras circunstâncias não carregariam nenhuma conotação transgressora.  Nesse sentido, subculturas criminais são apropriadas e reembaladas como entretenimento para as massas, enquanto o escorregadio processo de definição de identidades desviadas ganha ainda maior complexidade nos chamados mundos multi-mediados da contemporaneidade.[ii]

Na modernidade tardia, pânicos morais viralizam com assustadora rapidez nas redes sociais: o processo de negociação e reconstrução de significado é amplificado de forma difusa, produzindo espirais anteriormente inimagináveis de indignação moral, que convidam de forma sedutora avatares virtuais a participarem de cruzadas morais. As redes permitem que cada um projete uma realidade de virtude perante a coletividade: entre vida efetivamente vivida e vida representada virtualmente pode existir um oceano incomensurável, o que não impede que cada um alcance a condição de protagonista de sua própria narrativa. Construindo relatos que integram fotos, textos e vídeos, as redes sociais permitem um fenômeno outrora impossível: a democratização da figura do empreendedor moral.[iii]

Não é segredo que a condição de empreendedor moral tradicionalmente exigia que um reacionário cultural desfrutasse de certo nível de prestígio social. Era necessário possuir elevados níveis de capital social para deflagrar cruzadas criminalizantes, sejam elas contra pessoas, produtos culturais ou conflitos sociais, que por suas características, eram eminentemente criminalizáveis. Mas a internet produziu um fenômeno inicialmente insuspeitado: deu voz aos imbecis, como disse Umberto Eco. Permitiu que os piores sensos comuns possíveis e imagináveis sobre a criminalidade subitamente ganhassem projeção e notoriedade, fazendo com que o lado mais escuro da subjetividade humana adquirisse um meio para atrair holofotes na sociedade do espetáculo.[iv]

Com isso, o que já foi chamado de turismo genocida – como por exemplo, o compartilhamento de fotos de presos de guerra torturados por soldados americanos –  encontrou sua figura correspondente no compartilhamento de linchamentos, execuções e estupros coletivos nas redes sociais, demonstrando novamente o  quanto é sedutora a transgressão: não somente como objeto de reprovação ou consumo, mas também como algo que se deseja experimentar não como terceiro, mas como protagonista da própria história.

Excitação, sedução, controle, libertação e tédio guardam profunda relação com essas questões, motivo pelo qual as sensibilidades necessariamente devem fazer parte do corpo analítico da questão criminal, tema ao qual retornarei nas próximas colunas.  Tanto esquemas analíticos essencialistas (que ainda subscrevem ao legado de Lombroso) quanto metafísicos (reféns de espíritos geométricos que reduzem o homem à máquina que calcula, como na prevenção geral negativa ou nas rational choice theories contemporâneas) são de escassa valia para a compreensão de tais questões. É preciso dar um passo além dessas duas grandes – e esgotadas – tradições.

Encerro com uma provocação, extraída da instigante obra de Katz, que traduzo livremente como "A sedução do crime": "talvez o que nos achamos tão repulsivo no estudo sobre a realidade do crime – a razão pela qual nós insistentemente nos recusamos a observar de forma próxima como criminosos de rua destroem outros e abrem seu caminho para o confinamento para preservar um sentido de controle sobre suas vidas – seja apenas o penetrante reflexo que percebemos quando fixamos nosso olhar nestes homens perversos".[v]

Boa semana!

PS: esta é a primeira de muitas colunas que procurará explorar de forma acessível alguns temas que são caros aos autores que transitam no âmbito da criminologia cultural, cujos antecedentes remetem aos trabalhos de autores como Becker, Cohen, Sykes e Matza e muitos outros, numerosos demais para relacionar aqui. Os ensaios serão posteriormente ampliados, reimaginados e reunidos em uma obra mais densa, cujo título provisório é Ensaios de Criminologia Cultural. Bem-vindo ao open-beta. O primeiro texto foi propositalmente aberto para elencar boa parte dos temas, que serão explorados de forma aprofundada posteriormente. Espero que tenha gostado!

Salah H. Khaled Jr. é Doutor e mestre em Ciências Criminais (PUCRS), mestre em História (UFRGS). Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Escritor de obras jurídicas. Autor de A Busca da Verdade no Processo Penal: Para Além da Ambição Inquisitorial, editora Atlas, 2013 e Ordem e Progresso: a Invenção do Brasil e a Gênese do Autoritarismo Nosso de Cada Dia, editora Lumen Juris, 2014 e coordenador de Sistema Penal e Poder Punitivo: Estudos em Homenagem ao Prof. Aury Lopes Jr., Empório do Direito, 2015.

[i] Ver FERRELL, Jeff. HAYWARD, Keith e YOUNG, Jock. Cultural criminology: an invitation. London: Sage, 2008. 
[ii] Ver FERRELL, Jeff. HAYWARD, Keith e YOUNG, Jock. Cultural criminology: an invitation. London: Sage, 2008.  Ver MCROBBIE,  Angela; THORNTON, Sarah L . Rethinking 'moral panic' for multi-mediated social worlds. In: The British Journal of Sociology, Vol. 46, No. 4 (Dec., 1995).
[iii] Ver BECKER, Howard. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
[iv] DEBORD, GUY . A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
[v] KATZ, Jack. Seductions of crime: moral and sensual attractions of doing evil. New York: Basic Books, 1988. p.324.
Sexta-feira, 17 de junho de 2016
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]