Não tenho estômago para quem sente prazer ao ver uma criança de 10 anos ser morta
Segunda-feira, 20 de junho de 2016

Não tenho estômago para quem sente prazer ao ver uma criança de 10 anos ser morta

Por mais que se admita a diversidade absoluta das redes sociais, há algum limite nisso tudo, que não mais diria ético, não mais diria jurídico-legal. No pasto dos ódios abertos, disseminados, expostos livremente, sem nenhuma vergonha de quem os expõe, descobri o limite que a mim, pelo menos, a mim, significaria o limite que separa o escatológico do insuportável: o limite estomacal. Pois, acima de todo racismo, toda misoginia, toda estupidez humana, acima de tudo isso, resta um indício de humanidade. O louco racista ama seu cão, seja ele de pelagem branca ou preta; o boçal que defende pena morte e “direito dos mano” posta fotos de paisagens lúdicas, onde até mesmo ele consegue se sensibilizar com alguma coisa; isso poderia significar uma esperança, até uma vã esperança. Quem se volta com fúria contra a homoafetividade, parece se enternecer com fotos de crianças, sempre fofinhas, em cenas de travessuras domésticas. Essa pessoa não imagina que aquela criança linda e travessa pode ter em si a homoafetividade ou pode ser – cruzes! – filha de um casal homoafetivo. Essa pessoa se comove com alguma coisa que não seja a brutalidade e a insensibilidade. Parece pouco, é muito pouco, mas é alguma coisa.

Tudo se torna lúgubre, medonho e tétrico, quando alguém se coloca a defender quem atirou e matou uma criança de dez anos de idade, que teria, juntamente com seu amiguinho de onze, furtado um veículo. É de virar o estômago ver que há pessoas que julgaram o menino, com bordões horrorosos, frases feitas sem nenhuma capacidade de solidariedade humana. E se torna um pesadelo quando agentes públicos fazem uma manifestação de apoio, não a quem morreu, mas a quem matou. Um grupo expressivo de pessoas fez uma manifestação de apoio ao gesto que custou a vida de uma criança, morta a tiros pela polícia militar, em circunstâncias que – para quem trabalhou um minuto na via pública – são denunciantes de um gravíssimo crime de homicídio.

Como podem? Em nome de que princípio o fazem? De onde retiraram o direito de acusar uma criança morta a tiros? Como foi que se reuniram? De lá, foram para onde? Foram comemorar a morte? Foram parabenizar, com cerveja e carne, os assassinatos? Teve música e discurso? Com que direito o fizeram?

Esse é o momento estomacal. Causa enjoo ver gente adulta e aparentemente sã defender os policiais, sem se dar conta do que fazem. Não digo os policiais, pessoas físicas, mas algo que os transcende. Defender uma polícia que chegou ao ponto de disparar contra uma criança, que, sim, era criança, brincava como criança, tinha corpo de criança, mãos de criança, braços de criança. Tinha mais: tinha mãe, primos, irmãos, vizinhos. Era jogado num canto de mundo. Sua mãe, pequena traficante, estava presa, assim como o pai.

Ninguém se dá conta da cultura punitivista: por um punhado de drogas, uma família já instável foi implodida pelas autoridades, em nome da lei. Ninguém, é impressionante, ninguém, parece ter se dado conta de que as prisões, inúteis e repetitivas, jogaram uma criança nas ruas. E das ruas, a única agência de atendimento ao alcance dessa população, a polícia militar, deu à criança o encaminhamento definitivo: matou-a.

Ninguém escreveu uma única linha, ninguém, nenhum promotor de justiça, nenhum juiz de direito, se deu a indagar-se se foi esse higienismo, decerto, seletivo, como lhe é dado ser, que gerou isso, crianças abandonadas, mortas, refugiadas, desterradas de suas casas, miseráveis. Ninguém parece ter se dado conta de que não se combateu o tráfico de drogas ao prender dois traficantes pés de chinelo, que tiveram o azar de botar um filho na superfície do planeta, mas se destruiu, com a fúria da burocracia, quem a Constituição Federal diz ser a base da sociedade, a família, qualquer família, de burocratas empoderados, de policiais assassinos ou de traficantes. É a base da sociedade. O fundamento da socialização. Não há na lei uma pena acessória ou um efeito mórbido da condenação que é o desfazimento da família, atingida pelo míssil da lei penal. Não, por favor, não. Não me digam que as famílias são esquecidas pelos malfeitores. Poupem-me disso, porque é primário demais.

É preciso uma esquizofrênica geral e uma alienação da realidade mais chula defender quem atirou contra uma criança de dez anos. É preciso uma ausência tão hiperbólica de empatia que não se não se conhece um único autor ficcionista que tenha imaginado um lugar sombrio e funesto, em que, entre as pessoas que andavam pelas ruas daquela estranha cidade e se banhavam no seu lindo mar azul, vibravam no gol de seu time e abraçavam seus cães, havia quem se empolgasse quando uma criança acabou assassinada por uma polícia ensandecida e furiosa.

As lamentações pela morte de Ítalo (nome do garotinho morto) foram miúdas e quase inaudíveis, cobertas pelo alarido ensurdecedor dos gritos de apoio aos policiais matadores.

É o limite do meu estômago e uma lição: o fundo do poço é um lugar que não existe. Quando não poderia parecer possível que nos deteriorássemos mais e mais, eis que nos deparamos com isso, uma euforia defensivista de quem matou a tiros, com mirada e pontaria, com empenhadura e sem nenhuma ameaça terrível à vista, um menino de dez anos, de apenas dez anos, tão somente com dez anos, nada mais do que dez anos.

Não tenho estômago para tudo isso.

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Imagem: Jornal O Globo
Segunda-feira, 20 de junho de 2016
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