Observatório da imprensa brasileira pode ser solução para jornalismo irresponsável
Segunda-feira, 18 de julho de 2016

Observatório da imprensa brasileira pode ser solução para jornalismo irresponsável

Os editoriais dos "jornalões" são feitos de uma linguagem e um estilo com uma arrogante pretensão de verdade. É ler e conferir. O discurso de "verdade" é evidente. Pior do que isso, só o fato de que poucos editoriais são realmente acompanhados e efetivamente discutidos. Os editorais afirmam e dizem o que querem, como querem e pouco explicam. Mesmo assim, claro, formam opinião, bem como contribuem para a consolidação de um senso comum em meio a uma mídia oligopolizada, a qual, vendo erro em tudo, esquece de avaliar seus próprios defeitos e de verificar a base epistemológica e o fundamento dos próprios valores.

O direito e os juristas, aliás, acham que tem pouco a ver com isso. Prova disso é o que está lá, na Constituição, no artigo 220, parágrafo quinto: "Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio".

Tomo, como exemplo, a Folha de São Paulo. Aliás, um dos jornais que tem um interessante e independente serviço de "ombudsman" – nesse aspecto, ponto para o referido periódico.

O editorial de hoje, 18 de julho de 2016, pretensamente preocupado com os destinos e o futuro do país, sob o título de "A próxima reforma", fala em "ruína econômica" e em "agenda de modernização institucional" que "reduza o custo de fazer negócios". Decerto a crise não é internacional. Vai ver, não somos transmodernos atravessados por uma colonialidade de saber e poder – como se aqui o capital estrangeiro não deitasse e rolasse fazendo o que bem entende e com mínima e insuficiente regulação.

No mesmo editorial, fala-se em "crise de confiança" no Estado. Tudo bem. Vai ver, não é pelo fato deste estar associado ao capital como dispositivo, longe de cumprir com suas funções. Para o editorial da Folha de São Paulo, aliás, qual é o papel do Estado? Que tal tratarem disso de vez em quando, ao invés de repetirem editoriais críticos a um "bolivarianismo" que não recebe uma matéria de fundo?

De outro lado, o que quer dizer a Folha de São Paulo com "obsoleta legislação trabalhista"? Férias, décimo-terceiro, limite de jornada?

Ainda, o que significa para a Folha de São Paulo uma "cultura paternalista na gestão de conflitos"? Quando é que o "acordado" deve prevalecer frente ao "legislado"? É o amplo acesso à justiça de trabalho que favorece o excesso de reclamações trabalhistas ou esse excesso, na verdade, advém das muitas violações dos empregadores aos direitos de seus empregados?

Cuidado. Segundo o editorial do referido jornal, é "populismo" considerar "qualquer alteração uma afronta ao direito dos trabalhadores". Logo, direito trabalhista é igual a populismo? E qual é a base teórica para esta afirmação? Será que os editorialistas da Folha de São Paulo leram e discordam de Ernesto Laclau?  

Segundo o infeliz editorial, a retomada do projeto da terceirização seria "progresso digno de comemoração". Só esqueceram de dizer o motivo. Deve ser essa uma das formas de "modernizar a CLT", de tornar o sistema (econômico?) mais eficaz. Resta saber para quem.

Mesmo sem explicitar conceitos e justificativas dos ajustes econômicos (superávit primário é apenas um exemplo) e as consequentes reformas previdenciárias e trabalhistas, o jornal afirma concordar com a disposição de que elas ocorram. Isso é que é confiança.

Isso é apenas um dia de um editorial que, me desculpem os jornalistas da Folha de São Paulo, mais uma vez, beira à irresponsabilidade. Dessa vez, eles trataram da "próxima reforma", mas basta ler o "próximo editorial" para saber que o mesmo será dito e repetido, como mantra, como fé e crença, sem maiores detalhes e explicações dos fundamentos.

Que tal um observatório da grande imprensa brasileira para melhor diagnosticar esses problemas? 

Márcio Berclaz é Promotor de Justiça no Estado do Paraná. Doutorando em Direito das Relações Sociais pela UFPR (2013/2017), Mestre em Direito do Estado também pela UFPR (2011/2013). Integrante do Grupo Nacional de Membros do Ministério Público e do Movimento do Ministério Público Democrático. Membro do Núcleo de Estudos Filosóficos (NEFIL) da UFPR. Autor dos livros “Ministério Público em Ação (4a edição – Editora Jusvpodium, 2014) e “A dimensão político-jurídica dos conselhos sociais no Brasil: uma leitura a partir da Política da Libertação e do Pluralismo Jurídico (Editora Lumen Juris, 2013).
Segunda-feira, 18 de julho de 2016
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