É justo um tratamento de Guantánamo a quem odeia o Ocidente?
Segunda-feira, 25 de julho de 2016

É justo um tratamento de Guantánamo a quem odeia o Ocidente?

Imagine você, leitor, a possibilidade – e ela nem é tão remota assim – de que pelo menos um dos detidos pela polícia federal na semana passada por determinação do ministro Alexandre de Moraes, apoiado na lei antiterrorismo, seja inocente. Digamos completamente inocente. Ele terá perdido um tempo valioso de sua vida, recebendo um tratamento digno de Abu Ghraib ou Guantánamo. Sem direitos fundamentais, sem poder consultar advogados e encarcerado sem ter culpa nenhuma, sem jamais ter cogitado um ataque durante os jogos olímpicos. A probabilidade de termos então um revoltado disposto a se explodir e explodir o ‘sistema’ ao sair de lá aumenta exponencialmente ou não? Nunca é demais repetir: não é uma temporada em uma delegacia ou num centro de detenção provisória. É estar isolado e enquadrado num áspero estado de excessão.

Por mais que haja indícios que levantem suspeitas, prender alguém sem que o ato tenha sido realizado é de uma violência atroz, quase equiparada ao ato em si. Se uma ação ainda não foi concretizada, com que argumentos se coloca uma pessoa na cadeia? Pela aparência, pela cor, pela religião, pela barba, pela etnia? É inegável que essa medida será fundamentada em preconceitos. Por mais negligente que possa parecer, mesmo que alguém tenha manifestado a intenção de agir não se pode prendê-lo enquanto ainda não agiu. Do contrário, estaremos resvalando no ‘crime de opinião’ o tempo todo. Isso sim é perigoso.

É delicado, é difícil, mas é assim que deve ser. E é o preço da liberdade. Por ela, corre-se riscos. “Ele disse que iria fazer!” Mas fez? “Ele comemorou o atentado em Nice!” Por mais que recriminemos a opinião do outro, é legítimo colocá-lo na cadeia por isso? Até porque, comemorar atentados ocorridos em países ocidentais pode não ser simpático, mas o que tem de ‘criminoso’? No último sábado (dia 23), 119 pessoas morreram num atentado em Bagdá (Iraque). Na edição impressa do jornal Folha de S.Paulo, isso estava lá na página 17,  em uma nota de 10 X 15 centímetros. Cento e dezenove mortos pouco menos de um mês depois de outro ataque que matara 300 pessoas na mesma cidade e vira uma nota. Na mesma edição, duas páginas antes, o atentado de Nice (França), mesmo dez dias depois, continuava recebendo tratamento especial. Tomava a página inteira. Revoltar-se contra isso é ser terrorista?

Muito se tem comentado que as detenções dos possíveis integrantes da tal célula brasileira associada ao grupo terrorista Estado Islâmico foram uma medida de prevenção válida e correta. Que depois de casos de ataques sempre ficamos sabendo que autoridades e serviços de inteligência já tinham pistas, já tinham posse de informações e denúncias e que ainda assim haviam deixado o camarada solto. Claro, em democracias realmente sólidas, a presunção da inocência deve prevalecer. Em dúvida, pró réu. E sem que o ato ainda tenha sido cometido, onde está a certeza de que ocorrerá? É sempre muito fácil julgar o comportamento alheio e identificar atitudes suspeitas nos outros. Mas quem nunca soltou um “se eu pego, eu mato esse cara”? Ir em cana por manifestar essa intenção como ‘ato preparatório’ está bom para você?

Não se trata de minimizar atos terroristas. É arriscado? Muito. Mas em que mundo estaremos vivendo se conferirmos poderes de vidência às autoridades policiais? Tão nefasta quanto o EI, a perda de liberdade significaria ainda a vitória do grupo fundamentalista.

Manter a vigilância intensificada nos casos de suspeitos e aprofundar investigações sobre eles é o que deve ser feito em primeiro lugar. Em segundo, colocar a consciência para funcionar, meditar sobre como chegamos a isso e qual a participação de cada um nessa história, o que fazer para frear essa escalada odiosa na qual todos estão perdendo. A reação do mundo ocidental baseada em desinformação, preconceito e xenofobia só tem piorado as coisas.

Mauro Donato é Jornalista, escritor e fotógrafo nascido em São Paulo.
Segunda-feira, 25 de julho de 2016
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