Um “Fora Temer” parece pouco, mas é suficiente para transgredir e fascinar a sociedade do espetáculo
Sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Um “Fora Temer” parece pouco, mas é suficiente para transgredir e fascinar a sociedade do espetáculo

As peças estão dispostas no tabuleiro. O show está prestes a começar. Milhões de telespectadores acompanham diariamente o desenrolar de um evento sem igual, que conforma uma chance inequívoca para colocar em cena o figurino desejado pelo governo interino: conclamar a nação para o êxtase nacional(ista) acumulando capital com cada eventual conquista. O ufanismo está na ordem do dia, em pleno século XXI. 

Embora o esforço tenha ares anacrônicos, é preciso reconhecer que tudo parece indicar que o atestado de óbito do Estado-nação foi assinado de forma prematura: não só o Brexit em grande medida comprova a tese, como eventos como os Jogos Olímpicos reiteram identidades nacionais regularmente e conformam uma oportunidade extremamente rica para acionar os gatilhos subjetivos do nacionalismo, que permanece sendo um dos mais importantes vínculos de lealdade da contemporaneidade. Literatura consolidada em vários campos de saber demonstra que narrativas nacionais borram a diferença: fazem com que prevaleça a ideia de unidade, apesar da enorme desigualdade que existe em todas as nações, seja em termos de classe, etnia ou gênero.  

Apesar da fragmentação que caracteriza as identidades culturais contemporâneas, não há dúvida de que o nacionalismo ainda conforma uma das mais eficazes formas de produção de consenso, particularmente quando um dado governo consegue reunir adequadamente a simbologia nacional e explorar os efeitos de sedução dela decorrentes. É claro que entre intenção de adestramento e realidade concreta pode existir um oceano de diferença, especialmente quando o governo em questão carece completamente de legitimidade democrática, que somente é obtida com o voto popular.     

Por outro lado, por mais que o roteiro esteja repleto de furos, não há motivo para não maquiar adequadamente quem está na linha de frente da máquina de propaganda ideológica do golpe: a batalha simbólica pelo significado do impeachment ainda está em curso e permanecerá em curso– mesmo após a consumação do crime – sem qualquer visível sinal de exaurimento até o novo embate, em 2018. 

Para que a campanha de sujeição simbólica tenha sucesso, nenhum esforço será poupado para reprimir a diversidade. Um consenso forçado será produzido, ainda que de forma violenta e não tão silenciosa: pessoas são arbitrariamente expulsas de estádios e detidas pelas autoridades, em práticas típicas de regimes ditatoriais. A manufatura artificial de silêncio não é mero capricho: é necessária para assegurar o monólogo da narrativa dominante nos meios de comunicação nacionais e para "desmentir" – no contexto de espetáculos publicamente televisionados – a existência de insatisfação popular. Logicamente, alguém pode perguntar: qual seria a real importância de conflitos aparentemente tão pontuais para a sorte do país? Por que uma preocupação tão exacerbada diante de manifestações cujo alcance parece limitado, especialmente se comparadas com narrativas de legitimação que ocupam de forma quase onipresente os grupos midiáticos que controlam o mercado?

Os potenciais efeitos de protestos pacíficos em arenas esportivas não parecem ter a capacidade de produzir algo mais do que resistência simbólica contra o autoritarismo.

Ocorre que a fronteira entre o simbólico e o real é cada vez mais borrada na sociedade do espetáculo.

Uma performance devidamente encenada pode ser arrebatadora e repleta de significado para todos os envolvidos, direta e indiretamente. Para uma cultura como a contemporânea – que circula em torno de um regime de imagens –, um impacto simbólico pode ser tão forte quanto algo verdadeiramente real. Em outras palavras, a introdução de ruídos subversivos na normalidade imposta midiaticamente pode vulnerar de forma irreparável a narrativa hegemônica de legitimação do golpe travestido de impeachment. 

A janela de oportunidade que um evento com essa escala representa para o cidadão comum é inegável: surge a possibilidade de romper o monopólio estatal-midiático da imagem, para além da estética dominante. E isso pode ser decisivo. Como referem Ferrell, Hayward e Young, no palco global da modernidade tardia, a manipulação e o controle de imagens é tão importante quanto o emprego de helicópteros Apache. Guy Debord certamente esboçaria um sorriso. Para ele, a continuidade da acumulação capitalista exigia que novas formas de controle estatal assumissem a tarefa de domínio e maestria sobre imagens. Seu argumento era simples: o controle de imagens – especialmente através de máquinas de emoção, como a televisão – é essencial para o aprofundamento do controle estatal sobre as vidas dos cidadãos – para a colonização da vida cotidiana –, que por sua vez, é vital para a manutenção do capitalismo. No entanto, isso gera um paradoxo: quanto mais o Estado depende de imagens, mais vulnerável fica diante da manipulação deliberada de imagens.   

É claro que o que efetivamente motiva alguém a protestar somente pode ser motivo de especulação. É possível que na maioria dos casos exista uma sensibilidade política aguçada, mas não pode ser descartada a hipótese discutida nas colunas anteriores da série de textos que dialoga com a Criminologia Cultural: a excitação que representa desafiar o domínio estatal sobre a imagem – e, mais ainda, o domínio global, se compreendem a provocação – assumindo para si mesmo a condição de protagonista de uma narrativa de resistência, em um auditório repleto de espectadores passivos e subservientes. 

Resistir pode ser uma forma de dizer não ao tédio imposto pelo ufanismo vazio de significado que procura colonizar corpos e mentes. Trata-se de um expediente de colonização da vida cotidiana que é rotineiramente empregado em ocasiões nas quais panos coloridos e hinos inventados são utilizados de forma ritualizada para servir aos interesses de governantes de ocasião. Como refere Ferrell, "[…] enquanto alguns morrem um pouco a cada dia, outros procuram destruir o tédio instituído, ora com uma lata de spray, ora com repentinas interrupções do tráfego de automóveis".  Ou com cartazes, não é mesmo? Nada a temer a não ser o próprio medo… ou melhor, nada a perder além do tédio, salvo a dignidade diante do constrangimento – ilegal por sinal – da repressão, é claro. Mas é compreensível que isso soe como um preço pequeno a pagar, diante do significado que a rebeldia incontrolada pode disseminar. 

Nesse sentido, ostentar um signo incompatível com a normalização forçada da imagem permite que alguém experimente a excitação decorrente da violação dessa violência instauradora de silêncio, como subversão, algo com o qual um criminólogo engajado pode se identificar. Afinal, uma Criminologia Cultural preocupada – e conectada – com políticas de insurgência deve provocar e estimular resistência cultural, com práticas de provocação intelectual.

Não é por acaso que Ferrell, Hayward e Young sustentam que a Criminologia Cultural deve vulnerar o Estado e confrontar sua hegemonia sobre o "reino da imagem". O avanço de uma agenda neoliberal – devidamente sancionada pelo Estado – clama por uma Criminologia movida pela turbulência social provocada pela implementação de políticas de exclusão.  Eis aí uma das muitas dimensões do que representa a resistência engajada que caracteriza a Criminologia Cultural, que também volta seus olhos para os diferentes níveis de violência – concreta e simbólica – que caracterizam a atuação estatal.  

Salah H. Khaled Jr. é Doutor e mestre em Ciências Criminais (PUCRS), mestre em História (UFRGS). Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Escritor de obras jurídicas. Autor de A Busca da Verdade no Processo Penal: Para Além da Ambição Inquisitorial, editora Atlas, 2013 e Ordem e Progresso: a Invenção do Brasil e a Gênese do Autoritarismo Nosso de Cada Dia, editora Lumen Juris, 2014 e coordenador de Sistema Penal e Poder Punitivo: Estudos em Homenagem ao Prof. Aury Lopes Jr., Empório do Direito, 2015.
Foto: Mídia Ninja
Sexta-feira, 12 de agosto de 2016
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend