Evangélicos brasileiros: do abandono do Estado à conversão.
Quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Evangélicos brasileiros: do abandono do Estado à conversão.

 

 

“A verdadeira anarquia é o elemento de onde nasce a religião”

Novalis

 

Não é fácil, para o indivíduo moderno, suportar uma sociedade em perpétua mudança, cujas instituições são sempre recriadas, renovadas, remodeladas ou, simplesmente, destruídas. Embora pareça haver um atrativo natural em tudo o que é "novo", especialmente para o jovem, esse afã pelo atual e imediato está sob o fundo constante de uma sensação de insegurança. Quando surgiram os pentecostais, a necessidade que estavam preenchendo era precisamente de manter determinados dogmas que a ciência e a suspeita filósofica puseram definitivamente em questão. Eles refundaram a crença nos milagres cristãos, insurgiram-se contra o evolucionismo e reinstituíram rituais carismáticos. Seu ímpeto fanático renovado possibilitava a inserção de adeptos sedentos de certezas e espetáculos vistosos, mas vinha juntamente com o desprezo pelo mundo, tomado pelo diabo, o que exigia um  rigoroso ascetismo.

Numa primeira onda evangelizadora, foi esse movimento que entrou no Brasil entre 1910 e 1950. Já a partir de 1950, novas denominações apareceram, encenando curas divinas e introduzindo pregação no rádio. Embora algumas tendências evangélicas se misturassem com movimentos progressistas (a favor da reforma agrária, por exemplo), a partir do golpe de 1964, os evangélicos engajados foram combatidos e reprimidos, e só sobraram os conservadores. Até os anos 70, eles eram uma minoria inexpressiva. Mas foram esses que se multiplicaram.

Somente nos anos 80 apareceu a terceira onda, com os neopentecostais. Eles romperam com o ascetismo e promoveram o contrário: a adaptação ao mundo. Multiplicaram sua participação em mídias eletrônicas, adotaram a teologia da prosperidade e do domínio e invadiram a cena política. Junto com os outros setores evangélicos, a cada eleição que passa, aumentam o número de cadeiras no congresso (no momento contam com 92) e estão progressivamente aumentando a porcentagem de crentes (em 2010 contavam com 22%), diminuindo a maioria católica, que em geral não é praticante, é moderada.

Nunca o Estado brasileiro deu à população direitos elementares. Especialmente a partir dos anos 80, depois da ditadura, houve uma crescente deterioração dos serviços públicos, o que resultou no aumento do desemprego, criminalidade, uso de drogas e insegurança. A democracia incipiente abraçou o neoliberalismo. É nessas condições que as igrejas neopentecostais sabem crescer: elas possuem atendimento 24 horas e acolhem qualquer desesperado. Lá, o necessitado encontra uma rede de ajuda psicológica ligada diretamente ao trabalho de conversão. Como a maioria dos pobres e fracassados precisa de apoio para a recuperação, ela dá certos serviços terapêuticos e educacionais que vão estimular neles a participação, iniciativa, voluntarismo, tudo pela força da "fé", que é animada por fortes rituais mágicos de massa, de modo a fortalecer sua coesão no grupo e autoestima. Ali ele aprende a ter autodisciplina, trabalhar duro, sair das drogas e da promiscuidade. A Igreja dá tudo isso para torná-lo confiável e produtivo.

Ao sair do paradigma ascético de rogar a Deus, o neopentecostal O vê, antes, como sócio. Se o fiel dá algo a Ele, deve receber de volta. Uma vez que o membro for capaz de ganhar dinheiro, toda sua "fé" deve ser posta à prova dando o dízimo, tanto melhor quanto maior for o sacrifício. O culto é predominantemente direcionado para incutir nos crentes a doação sacrificada do dízimo. O gesto de doar passa a ter valor de coragem e desafio. Desse modo, Deus será obrigado a devolver a oferta, multiplicada. Quanto mais der à Igreja, mais direito diante de Deus tem o membro, inclusive, para reivindicá-lo. Assim, os pastores estimulam a iniciativa empresarial. Evidentemente, a maioria dos crentes é pobre e assim permanece, mas há os que conseguem ascender socialmente, e sua vitória é ostentada como prova de sucesso.

Isso significa que os neopentecostais usam os convertidos como soldados produtivos em que qualquer ascensão e assimilação de habilidades serve ao capital da Igreja. Aliás, eles realizam uma verdadeira instrumentalização empresarial de várias esferas de atuação: extraem técnicas de rituais mágicos africanos, espíritas e paranormais para seus cultos. Qualquer forma de crítica e denúncia de abuso contra seus métodos é taxada de perseguição e preconceito diabólico contra a obra divina deles. A dicotomização rígida do bem e do mal é uma forma de instrumentalização de fórmulas ideológicas violentas de propagação pelo medo.

 

Onde o Estado se omite, as Igrejas fundam impérios de restauração de almas, que viram dóceis soldados de um poder centralizado.

Quando apareceu a discussão em torno das leis de discriminalização do aborto, isso serviu para unir diferentes evangélicos e pressionar a campanha do primeiro mandato da então candidata a presidência, Dilma, a se comprometer com valores conservadores. Assim, eles conseguem demonizar a luta de direitos de feministas e homossexuais com sua mistura de política e religião. Nessa guerra cultural, os movimentos sociais que se engajam contra a deterioração do Estado perdem espaço. A tendência conservadora ganha o terreno de inclinações progressistas que são hoje cada vez mais incertas, nada poderosas, desorganizadas e desunidas. O crescimento de seus membros, que são mais ativos e fiéis do que todos os outros setores da sociedade, pressiona políticos de diferentes partidos de direita e centro (mas também de esquerda) a passarem para o seu lado. Ou seja: a instrumentalização dos votos dos fiéis proporciona o aumento da influência no congresso. Eles não precisam de um Estado teocrático: a democracia do mercado é perfeita para o seu admirável mundo novo.

O feito mais impressionante disso é a capitalização de todas as instâncias da religião e a sacralização de todas as instâncias rentáveis de uma empresa. A lógica empresarial é parte central da doutrina, e a cegueira religiosa é parte central da eficácia mercadológica e política. Tudo isso não seria possível sem a própria precariedade neoliberal da falta de acesso à educação, emprego, assistência médica e psicológica. Onde o Estado se omite, as Igrejas fundam impérios de restauração de almas, que viram dóceis soldados de um poder centralizado.

Não se pode deixar de mencionar o fato de que há evangélicos progressistas, críticos do sistema econômico e político. Tem crescido um movimento de evagélicos contra todo o retrocesso representado pela bancada evangélica, contrários à escola sem partido e propostas semelhantes. Contudo, talvez falte a eles mais contundência na luta por educação e cultura, bibliotecas e centros culturais nas comunidades, de preferência desvinculados de Igrejas ou, pelo menos, que as Igrejas os fomentem em prol da vida cultural e não da conversão e exploração; contra a inserção doutrinária do ensino religioso nas escolas e a favor do ensino laico, que contenha estudo histórico e social de diferentes religiões e culturas. Enquanto não ficar claro um posicionamento firme na contramão do retrocesso, fica difícil sair de uma generalização ditada pela exposição política, midiática e legislativa da bancada evangélica.

Há muitos interesses dominantes contrários ao compromisso do Estado em garantir direitos mínimos da população, e não faltam promessas nunca cumpridas, como as que se esfumaçaram em torno das Olimpíadas. Logo, os evangélicos só conseguiriam sair da situação de produto sintomático do abandono do Estado e, inclusive, de colaborador do mesmo, se passarem a se colocar no lugar de resistência, enfim, tornando-se uma força explicitamente contrária a ele. 

Eduardo Guerreiro B. Losso é professor adjunto do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ

Quinta-feira, 18 de agosto de 2016
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