O que você faria?
Sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O que você faria?

 

“Que [o homem] apenas observe suas próprias palavras e veja como sua boca secretamente difama outras pessoas, suscitando a discórdia entre seus amigos; frequentemente fala mal dos outros sem motivo algum, alegra-se com o infortúnio de seu próximo e deseja que a desgraça recaia sobre ele. Todas essas coisas são as patas e os chifres do demônio e a imagem da serpente que o homem carrega em seu interior.

Que observe todas essas abomináveis bestas e considere-se como uma. Que se considere como sendo nada mais que um imundo guardador de porcos que dilapidou os bens de seu Pai e seus direitos de nascença com os porcos do mundo e com os animais malignos. Tenha em mente que agora está diante da face de Deus como um miserável, nu e esfarrapado guardador de porcos que se prostituiu e adulterou a herança paterna com as bestiais imagens do mundo… Que esqueça todas as boas obras que fez, pois só foi movido a fazê-las para ter uma aparência hipócrita de bondade e é isso que o homem-demônio faz para ser visto como um anjo”.

Jakob Boehme

A situação é a seguinte: você está sozinho, deitado em sua cama. É um dia aparentemente normal e calmo. Inesperadamente, o Diabo em pessoa aparece bem à sua frente. Conta que se arrepende amargamente do que fez a Adão e Eva. A humanidade, diz, já sofreu demais, por milênios a fio. É hora de permitir à humanidade que retorne ao Reino dos Céus.

Deus, o Diabo prossegue, concordou imediatamente e ficou imensamente feliz com o meu arrependimento. Mas, você sabe como é, algo de minha essência diabólica permanece. Pedi a Deus que apenas pudesse colocar a humanidade mais uma vez à prova. Deus relutou, mas, ao fim, como fez quando conversamos sobre Jó, Ele permitiu que eu procedesse como desejasse.

Até que ponto, enfim, vai a bondade humana? E qual a verdadeira extensão do nosso egoísmo mais essencial?

Findo o discurso, o Diabo pede a você que se lembre de todas as pessoas que foram importantes na sua vida, desde a primeira infância. Que pense nas pessoas que fizeram parte de seus dias e depois seguiram por outros caminhos.

Na sequência, o Diabo lhe pede que pense profundamente nos seus amigos mais próximos. Aqueles que não apenas fizeram parte da sua vida no passado, mas seguem sendo, hoje, seus grandes parceiros – pessoas por quem você sente sincero amor.

O Diabo pede, então, que você pense nos seus familiares mais próximos. As pessoas com quem você mora e com quem divide sua rotina diária. Aquelas pessoas que você não pode sequer imaginar viver distante e por cuja felicidade você, com toda a força do seu coração, reza.

Tomado de temor, o poder de seu pensamento é tal que você parece de fato ver todas aquelas pessoas bem à sua frente. Todas as pessoas que você já amou, e todas aquelas que até hoje ama com toda a força do seu coração, olham para você.

O Diabo lhe diz, então, que a felicidade eterna de todas aquelas pessoas depende apenas de você. Basta uma decisão. Eis a prova final da humanidade, bem ali, nas suas mãos.

O Diabo lhe conta que, se você quiser, Deus, em seu infinito poder, transformará subitamente a Terra no Reino dos Céus. Não haverá mais dor ou sofrimento, culpa ou punições. O olhar das pessoas que você mais ama brilhará, pela eternidade, com a felicidade suprema que apenas Deus pode conceder. A harmonia reinará e nada, absolutamente nada poderá abalá-la. Até mesmo o Diabo estará redimido de sua longa queda e de todos os sofrimentos que impôs à humanidade.

Existe, porém, uma condição: você não participará do Reino.

No preciso instante em que você optar pela bem-aventurança eterna daqueles que você mais ama, você será varrido da memória do mundo. Ninguém mais se lembrará da sua vida. Ninguém mais, nem mesmo Deus ou o Diabo, saberá dos seus passos na Terra. Todos os seus rastros serão apagados. Seu sublime ato, sua sublime escolha que trará a felicidade suprema aos seus mais amados, jamais será reconhecido ou recompensado. E você não poderá sequer orgulhar-se de sua decisão: assim que tomada, sua própria existência, junto com todas as memórias sobre sua vida, imediatamente desaparecerá.

Sua consciência mergulhará nas profundezas da inexistência e jamais tornará a existir. A redenção do mundo passará pela sua aniquilação absoluta, e nem mesmo Deus se lembrará de que você, um dia, existiu. E então: o que você faria? A redenção do mundo e a felicidade dos seus mais amados valem sua absoluta aniquilação?

É uma situação que pede uma reflexão profunda. Talvez seja uma questão a ser carregada por alguns dias, até que uma resposta verdadeiramente sincera possa surgir. Respostas ligeiras, aqui, podem ser enganosas – tão enganosas quanto essa tendência humana tão arraigada de considerarmo-nos a nós mesmos boas pessoas, com erros apenas eventuais, muito menores do que os erros do outro.

Até que ponto, enfim, vai a bondade humana? E qual a verdadeira extensão do nosso egoísmo mais essencial?

Bruno Amábile Bracco é Mestre e Doutorando em Criminologia pela USP, Defensor Público do Estado de SP, autor do livro "Carl Jung e o Direito Penal".
Sexta-feira, 26 de agosto de 2016
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