A marcha coronelista pelo impeachment
Quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A marcha coronelista pelo impeachment

Quem realmente tem algum resquício de apego à democracia, ainda que não tenha votado em Dilma, deveria ao menos reconhecer que o projeto que foi eleito em 2014 é completamente diferente daquele que o governo Temer vem aplicando. Trata-se aqui da desconsideração descarada da vontade das urnas, algo que deveria soar absurdo principalmente para aqueles que, nos seus devaneios liberais, costumam confundir democracia com sufrágio, acreditando que a conquista do voto representa o último patamar dos avanços civilizatórios e o trampolim final para a consumação das lutas emancipatórias.

Espera-se que um mínimo de maturidade constitucional e uma réstia de espírito republicano leve à seguinte reflexão: sou extremamente simpático ao programa ultraliberal que o governo Temer vem executando e discordo categoricamente do projeto de Dilma Rousseff, mas foi este que foi consagrado nas urnas e é por meio delas que deve ser substituído. Temer, sem qualquer vergonha, compôs descaradamente com o projeto derrotado, colocando em postos estratégicos do governo alguns dos seus maiores arautos e pondo em prática uma agenda que termina por atacar direitos fundamentais e reconfigurar a Constituição de 1988. É revelador que quem saiu às ruas se dizendo a favor do impeachment e da democracia venha ignorando tais fatos, desnudando de vez a completa desconsideração dessas pessoas para com as regras do jogo democrático.

Trata-se aqui da desconsideração descarada da vontade das urnas

Nessa esteira, é comum notar que as mesmas pessoas que, encasteladas em um petulante e voraz discurso moralista, costumam reclamar dos nossos representantes com todas aquelas críticas genéricas e superficiais que conhecemos bem, não percebem que, ao deixar que seus desejos particulares se sobreponham ao resultado das urnas, demonstram possuir uma mentalidade tão patrimonialista quanto à do homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda. A confusão do público com o privado, no caso, ocorre por meio do aval à aplicação de um modelo de gestão em relação ao qual se nutre simpatia em detrimento daquele escolhido pela maioria.

A incapacidade de delimitar o público do privado é um ranço coronelista que além de não corresponder com os valores de uma sociedade verdadeiramente democrática, torna ainda mais claro o fato de não haver muita diferença entre o deputado alvo de impropérios e o cidadão-médio que reclama de suas condutas antiéticas. A própria desconsideração do interesse coletivo em favor de caprichos e interesses particulares é uma notória demonstração de corrupção; corrompe-se toda a narrativa de respeito à escolha da maioria para que se aplique o que eu, particularmente, considero como a solução para as mazelas bíblicas que assolam o país.

Durante o depoimento da presidenta Dilma na segunda-feira, os apologistas do impeachment por inúmeras vezes se autoproclamaram como depositários da vontade das ruas em defenestrá-la da presidência. As manifestações nas ruas que ocorreram em favor do seu afastamento, confundidas como a representação da vontade da maioria, foram evocadas constantemente para legitimar o posicionamento favorável a sua saída definitiva. Entretanto, esqueceram-se muito convenientemente da maioria de 54 milhões de pessoas que disseram não às medidas que Temer desde o início de sua gestão vem pondo em prática.

Gustavo Henrique Freire Barbosa é Advogado e professor universitário.
Quarta-feira, 31 de agosto de 2016
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