A um passo da consumação do golpe, um desabafo
Quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A um passo da consumação do golpe, um desabafo

Nada de novo sob o sol no golpe de 2016. Você já parou para pensar que, depois da chamada "República Velha", somente quatro presidentes – Dutra, JK, FHC e Lula – concluíram seus mandatos na normalidade do calendário democrático?

Jânio renunciou, Jango foi derrubado pelo golpe militar. Sarney foi eleito vice de forma indireta, não entra na conta. Collor, o primeiro eleito pela via popular e democrática desde 1960, foi "impichmado".

Agora, Dilma Vana Rousseff vê-se derrubada por mais um golpe. Dessa vez, como a hipocrisia do Ocidente moderno exige, não há militares nas ruas ou tomada de poder pela força física. O golpe é institucional, com tentativa vã de imprimir ares de legitimidade a um processo político, antidemocrático e, absolutamente, inconstitucional.

Ora, senhoras e senhores. "Atentado à Constituição", hábil a configurar a prática de crime de responsabilidade da chefia do Executivo Federal, independe de tamanha masturbação mental-argumentativa, de uma mentira repetida à exaustão que passa como se verdade fosse. Atentado é claro, escancarado, não comporta o argumento "conjunto da obra".

"Cê tá exagerando, Matheus", dirão. Ah, é? Então porque a mídia tradicional não abre espaço para quem entende que é golpe (ou, quando o faz, é de forma apenas simbólica, sem que se dê muita voz a quem pensa distintamente). Exagero? Não. Basta ficar 24 horas em frente à Globo News para constatar com facilidade isso.

Não é só a Dilma que cai. Ela personifica um projeto de governo escolhido pelo voto popular. Queiram ou não: escolhido pelo voto popular.

Os mais de 54 milhões de eleitores que depositaram seu voto nesse projeto, em definitivo, não escolheram as medidas neoliberais, retrógradas, conservadoras, sexistas e segregacionistas do governo interino. Nem me venham com esse argumento do "ah, o Temer tava lá, quem votou na Dilma votou nele também". Esse argumento é inócuo e bobão.

Com tristeza, vejo hoje um monte de gente compartilhando “memes” e satirizando Dilma Rousseff por seu interrogatório no Senado. É a habitual prática de pegar trechos esparsos dos discursos da Dilma e compartilhar fora de contexto, geralmente para desrespeitar aquela mulher enquanto tal. Perdão, senhoras e senhores. Ela foi excepcionalmente bem. Seu discurso será um registro histórico de luta contra o despotismo. Tudo o que vi de suas respostas foi uma firmeza inabalável, solidez e irresignação àquele circo montado à sua frente. Didaticamente demonstrou o óbvio: os atos que lhe são imputados não configuram crime de responsabilidade, tampouco podem ser imputados à presidência da República; não ensejaram por si em prejuízo; derivavam de autorização legislativa e estavam de acordo com a lei orçamentária; etcetera, etcetera, etcetera…

Dilma não foi sabatinada por quase 14 horas para defender seu mandato. Ela deixou claro que não quer voltar pelo poder. Voltar para esse jogo sujo, que envolve negociatas que exalam a enxofre? Não. Eu a entendo, no lugar dela pensaria igual. Não se trata de defesa do mandato. Se trata de respeito aos votos que o projeto que ela representa recebeu, respeito à normalidade democrática contra o golpe, respeito à seriedade de nossas instituições.

Vão lá, senhoras e senhores apoiadores do processo de impedimento. O "impíchima" está consumado. Bradem gritos de ordem contra a "corrupção", e permaneçam ao lado dos maiores corruptos do Brasil, contra uma mulher que até seus opositores reconhecem como íntegra e honesta. A História é e sempre será implacável. Talvez um dia enxerguem isso. Como foram utilizados como massa de manobra, assim como sempre aconteceu em nossa frágil e fake Democracia.

Parabéns, coleguinhas de Eduardo Cunha. Vocês conseguiram. Comemorem. Certamente muitos de vocês jamais terão discernimento para entender o que apoiaram.

De minha parte, a insurgência não se dá porque votei neste ou naquele candidato. Minha defesa é da Democracia, e claramente um rompimento dessa natureza com a normalidade democrática é algo contra que se posicionar, independente de quem seja sua vítima direta. Porque, no fim das contas, a vítima final é o povo brasileiro, como um todo. C'est la vie.

"Amanhã vai ser outro dia…". Passar bem.

Matheus Rodrigues Oliveira é bacharel em Direito pela Universidade Mackenzie, pós-graduando em Direito Constitucional e Administrativo pela Escola Paulista de Direito, advogado licenciado da OAB/SP e servidor público.
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
Quarta-feira, 31 de agosto de 2016
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