A articulação entre grandes empresas de comunicação e o braço armado do Estado para calar democracia
Quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A articulação entre grandes empresas de comunicação e o braço armado do Estado para calar democracia

A longa história de repressão policial a manifestações políticas no Brasil ganhou novo capítulo com as jornadas de junho de 2013, iniciadas por protestos contra o aumento da tarifa de transportes públicos. Reunindo o maior ciclo de protestos desde as manifestações populares pelo impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em 1992, as jornadas renovaram a presença de multidões nas ruas, em exercício aos direitos constitucionais à liberdade de expressão, de associação e de reunião pública pacífica. Três anos depois, manifestações contra megaeventos esportivos, por direitos trabalhistas de professores, por melhorias na educação de estudantes secundaristas ou pela defesa da democracia ameaçada no impeachment de Dilma Rousseff se assemelham no legado de violência policial que enfrentam: muitos protestos são dispersados com balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta, detenções arbitrárias e agressões.

A criminalização dos protestos ganhou reforço institucional nos últimos anos, com a criação de leis usadas para justificar a repressão policial, como a Lei Sobre Organizações Criminosas, a Lei Antiterrorismo, as Leis Gerais da Copa e das Olimpíadas. Mas há um outro poder que participa intensamente da disputa sobre a legitimidade das manifestações políticas: a imprensa. A atuação midiática pode ser sutil, e expressar posicionamentos políticos pela simples seleção dos protestos que serão ou não notícia, daqueles cuja contabilidade de participantes será inflacionada ou questionada, dos enquadramentos que abordam as demandas dos manifestantes ou limitam-se a dizer se houve tumulto ou trânsito congestionado.

A abordagem midiática da repressão a manifestações é um capítulo a parte sobre a naturalização da brutalidade policial, que começa com a decisão de quando e como a violência será noticiada. 2013 deixou uma lição sobre a cobertura midiática da atuação da polícia militar: enquanto órgãos como a Organização das Nações Unidas (ONU) questionavam o Brasil sobre a violência policial contra manifestantes, grandes jornais só viam uma polícia que estaria agindo energicamente – com táticas de guerrilha – para proteger janelas e portas quebradas. Só quando profissionais de grandes veículos de imprensa passaram a ser também alvos da violência policial o tema começou a alcançar manchetes.

No último final de semana, o jornal Folha de S. Paulo, um dos maiores do país, lançou mão de estratégia mais direta – e reminiscente de sua atuação na ditadura: fez um editorial, ou seja, um texto com a opinião declarada da empresa de comunicação, intitulado “Fascistas à solta”, clamando por mais repressão às manifestações contra o governo Temer: “Quem financia e treina essas patrulhas fascistoides? Está mais do que na hora de as autoridades agirem de modo sistemático a fim de desbaratá-las e submeter os responsáveis ao rigor da lei”. O rigor da lei se confunde com a fúria de proprietária da empresa, que não deixa de mencionar que a fachada de sua sede teria sido danificada nos protestos. Mas se vidros quebrados ou paredes sujas inspiraram pedido de punição exemplar, o editorial nada teve a dizer sobre a violência estatal que no mesmo protesto deixou inúmeras pessoas feridas. Deborah Gonçalves Fabri, de 19 anos, foi uma delas: perdeu a visão do olho esquerdo ao ser atingida por um disparo feito pela polícia militar, cuja atuação foi considerada excessiva e evitável pela ouvidoria da polícia da capital paulista.

A Folha conclui o editorial comparando as manifestações contra o governo Temer com a tomada de poder por nazistas na Alemanha. Nossa conclusão é outra: o editorial é uma prova da articulação de grandes empresas de comunicação ao braço armado do Estado para calar democracia.

Sinara Gumieri é advogada e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética. Este artigo é parte do falatório Vozes da Igualdade, que todas as semanas assume um tema difícil para vídeos e conversas. Para saber mais sobre o tema deste artigo, siga https://www.facebook.com/AnisBioetica
Quinta-feira, 8 de setembro de 2016
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