Presidenta Cármen Lúcia, exijo respeito às pessoas que têm autismo
Segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Presidenta Cármen Lúcia, exijo respeito às pessoas que têm autismo

Carmen Lúcia,

Não nos conhecemos é verdade, não tome como pessoal, mas a cada dia tenho menos vontade de conhecê-la e não consegui comemorar a sua posse, apesar dela indicar um processo de empoderamento feminino, mas a sua atuação não me traduz!

Nessa entrevista dada a GloboNews mais uma vez a sua fala destoa dos movimentos sociais e dos vulneráveis e isso incomoda, viu “presidenta”? E presidenta pode, porque não há nada que impeça – em nossa língua – essa flexão ao feminino, a senhora poderia experimentar e desconstruir um pouco esse excesso de masculinização do judiciário.

Pois bem, quando a senhora fez essa declaração de que os ministros do STF não são autistas (se fossem seriam com certeza seres humanos melhores, presidenta!) e que estão cientes das questões brasileiras demonstrou preconceito, desinformação e uma conduta discriminatória.
A senhora sabe o que é autismo, presidenta?

Eu sei! Há treze anos incompletos o autismo adentrou a minha casa, me chama de mãe, me faz ser melhor como ser humano, me faz querer mudar o mundo, desconstruir preconceitos e mostrar como o meu filho “azul” é a maior maravilha do universo!

O espectro de autismo é bem amplo e complexo há indivíduos geniais que são autistas e outros que estão fechados num mundo só deles, mas não há no autismo cidadãos ou cidadãs de segunda categoria ou seres sem inteligência, viu presidenta?

No Brasil a cada 88 nascimentos uma criança terá autismo, portanto, em breve seremos um país de azuis, então ministra repense essa postura tão absurda e se informe.

Perceba que as subjetividades trazidas pelo autismo não desqualificam ninguém, muito pelo contrário! O que não pode é alguém como a senhora, que preside nosso tribunal constitucional, degradar um contigente de brasileiros e seus familiares.

De verdade, ministra? A senhora ofendeu o que mais amo no universo, ofendeu a dignidade do meu filho – e daqueles que são maravilhosos como ele – e me ofendeu como mãe, pessoas como a senhora, talvez imaginem que minha maternidade é menos intensa, porque sou mãe azul… E se enganam! Eu sou absurdamente amada por meu filho, todos os dias quando ele me olha nos olhos eu vejo que amor imenso ele sente por mim, todos os dias antes dele sair para a escola(ele estuda ministra, é mega inteligente e sensível, mas ainda bem que pude esconder dele sua declaração nefasta e infeliz!), sabe como ele se despede? Mamãe o meu coração é seu e eu respondo e o meu coração é seu!

Eu tenho um filho que é meu coração pulsante fora do meu corpo, o que importa ministra se ele tem autismo, quando ele é o ser mais interessante, amoroso, plural e que tem o melhor abraço do mundo?

Mas nossa vida é de luta, ministra… Sabe o motivo? Porque pessoas como a senhora, julgam e agem com ignorância e desrespeito!

Então eu exijo, ministra (pedir é muito pouco!), o respeito que Vinicius merece, que todos que têm autismo merecem, que mães como eu merecem! Faça melhor, ministra peça desculpas sinceras e de verdade, não como a senhora fez de forma protocolar – elas não serão suficientes, para desfazer o aviltamento, mas já são um começo.

O seu preconceito não foi protocolar ou acidental! E não adianta dizer que tem alguém da família com autismo, se realmente essa pessoa importasse ministra, a senhora não teria feito esse comentário preconceituoso, desrespeitoso e aviltante!

Carolina Valença Ferraz é Doutora e Mestre em direito pela PUC-SP. Professora universitária e advogada. Coordenou e é uma das autoras dos seguintes livros: Direito à diversidade (Ed. Atlas), Manual dos direitos da pessoa com deficiência, Manual dos direitos da mulher e Manual do direito homoafetivo (todos pela Ed. Saraiva).
Segunda-feira, 19 de setembro de 2016
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