Cento e onze
Segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Cento e onze

 

Cento e onze é uma breve ficção, inspirada nos fatos ocorridos em 2 de outubro de 1992.

Em nome do pai, do filho e do espírito santo, e repete o sinal da cruz feito assim que entrou. A escola funciona em um antigo mosteiro e a capela foi mantida porque o prédio é tombado. Desde a primeira consulta com Jorge foi aconselhado a pensar na infância. Rememorar ações imunes à culpa o faria se sentir melhor e funcionava, mas não na casa de Deus, onde se deve rezar. Sentenciou-se a três aves Maria e três pais-nossos.

– Como está?- diz a mão que pousou sobre seu ombro.

– Ainda tenho meus cabelos.

Pedro acredita que João Paulo foi colocado por Deus na sua vida. Caminharam juntos desde a faculdade, até às bordas da aposentadoria, onde ambos se sentavam no momento. Toda decisão errada foi alertada pelo amigo. Não quis se consultar com o irmão e o médico que o atendeu vazou tudo. Infração ética, danos morais e materiais. Ganhou a ação e uma ponte de safena. Quis abandonar as aulas e antecipar a aposentadoria. João Paulo discordou.

– Se ainda tivesse os meus, não repartiria ao meio como um viadinho – retrucou, mas o olhar de reprovação de Pedro fez cessar a introdução amistosa. Apesar de longe da Verdade, Pedro não criou barreiras à aproximação de João Paulo, indiferente ao sagrado. Repete a primeira pergunta e obtém o silêncio cabisbaixo como resposta. Pedro está ofendido pela blasfêmia.

– Está bem, espero lá fora.

No meio do terceiro pai nosso a mente é inundada com lembranças da cidade onde cresceu. A correria das crianças, o futebol atrapalhando o tráfego e dos vestidos sujos das meninas. Sua avó batia a colher de madeira no caldeirão a cada volta enquanto ensinava a poesia cristã. Que estais no céu, vosso reino, vontade, nos dai hoje, ofensas, tentação, mal amém. Rezar preenche Pedro com energia e felicidade. Pronto para suas aulas, pela terceira vez faz o sinal da cruz e se levanta. Ao passar pela porta da capela, pela quarta vez, sem dar as costas para Jesus. O procedimento é eficaz de tal forma que nem se lembra da deselegância de João Paulo dentro da capela. Cumprimenta-o com um abraço e três tapinhas nas costas.

– Bacana te esperar aqui, sou obrigado a sorrir para todos os alunos da noite.

– Não seja ranzinza, mau humor faz cair os cabelos.

– Muito engraçado, velho caipira, mas precisamos conversar. A audiência foi marcada.

Pedro ia responder quando se viu rodeado pelos garotos do futebol e as meninas dos vestidos sujos, repetindo às gargalhadas Pedro para, para Pedro, Pedro para, para Pedro, Pedro para, Pedro, para, para Pedro. Um menino chorando atravessa seu corpo, enquanto a comitiva de pequenos o segue repetindo a galhofa. A pequeneza da cena permitia ver tudo de cima, e o cabelo dividido ao meio acusa quem era o pequeno. O garoto para e dá meia volta. Com a mesma mão que enxugou as lágrimas primeiro cerra o punho para depois colocar o dedo em riste, amaldiçoando a comitiva. Os risos se transformaram em choro e o choro do pequeno em sorriso. Homens vestindo cinza perseguem, torturam e executam as crianças.

– Estou tranquilo.

– Isso eu sei. Quero saber se já pensou no que vai falar.

– Ora, a verdade.

– Isso eu também sei. Quero saber como vai falar.

– Se eu soubesse como vai ser perguntado.

– Eu já sei. Falamos depois.

João Paulo de costas para Pedro obriga-o a fitar sua careca proeminente, como se feita por uma máquina e não pela escassez natural dos fios. Padre Antonio era careca. Com Pedro no colo, caminha para levá-lo em casa. Enquanto enxuga suas pequenas lágrimas repete que não havia motivos para chorar, as brincadeiras são assim, hoje com ele e amanhã com outro. O choro se transforma em suspiros revoltados. O padre percebe a obstinação e atravessa O ódio é o caminho mais curto para o inferno, Pedro. Seja forte e tenha fé. Esse é o caminho do céu. Começou a dar sua aula e não teve tempo de se lembrar do Padre conversando com sua mãe. De sua mãe conversando com seu pai. Do seu pai furioso.

– Matar alguém. Matar é interromper a vida. Vida aqui é a vida penal, que é o nascimento com vida. Já a tutela penal do feto se dá por outro tipo penal, o aborto. Por óbvio a vida aqui é a vida de um ser humano advinda da mulher. Destaco para os senhores que o ordenamento traz diversas previsões legais acerca do início da vida, cada qual de acordo com a tutela que se pretende. Naquela disciplina menor, o direito civil, prevê-se a tutela dos direitos da personalidade com o nascimento com vida, mas preservados os direitos desde a concepção.

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A varanda é desprezada pelo pequeno Pedro durante a semana, pois há a rua inteira para se brincar. O espaço é convenientemente dividido entre meninos e meninas, reservando-se a exata fachada da sua casa, a maior da rua, para os extremos do virtual campo de futebol. Cravavam fundo os paus entre os paralelepípedos e além de cada gol podem brincar as meninas. Gordo e atrapalhado com os pés, preenche os requisitos para a jogar na posição maldita, não precisava correr tanto e tinha o mesmo direito de escarnecer os perdedores do outro time. Não é bom goleiro, mas também não é ruim. Não existe narração de grandes defesas, mas lamentos por gols perdidos. Na ancestral modalidade do cinco vira, dez acaba, criou para si a narração de uma grande defesa que fez. Em contra-ataque veloz o atacante adversário parte sozinho contra o gol desprotegido de Pedro, porque avançou negligentemente com seu time. Moleque matreiro, o atacante pimba a bola por baixo, fazendo-a voar alto em direção ao gol. Quatro a quatro, Pedro antevia os xingamentos dos companheiros de time pelo gol de desempate, mas inesperadamente, até para ele, desempenha velocidade suficiente para correr, saltar e espalmar por cima do pau de vassoura quebrada, o travessão, a bola. Dia de glória.

– O senhor ordenou a invasão?

– Não.

– O capitão informou que a autorização partiu do senhor.

– Ele mentiu. Não autorizei invasão.

– Ora, doutor.

– Se estiver se referindo à retomada, o que lhe disse foi que fizesse o necessário.

Olha pro céu porque é a última vez, seu babaca, e pare de pedir para ir para lá. A tua chance foi há mais ou menos 30 anos. Você deve se lembrar da televisão da secretaria com o volume lá no caralho, a tela azulada mostrando as viaturas carcomidas do choque, enquanto seu chefe de gabinete mandava todo mundo calar a boca. Foi quando a Teresa, aquela que você queria colocar em cima dos móveis e bater na bunda com o seu guarda-chuva. Que tara bizarra, velhote. Para de chorar. Foi então que ela te chamou para falar pelo telefone com o Bira, aquele macaco fardado. E você, que ironia, lavou as mãos. Bem, você não é o primeiro, né? Mas para de rezar, que já encheu o saco. Melhor, reza sim, tem aquela parte do livreto que convém, como é que é mesmo? Tu és Pedro e sobre esta pedra empilharei cento e onze corpos de homens executados. Desde pequeno tu era essa bichinha covarde, tanto que cresceu e foi se escastelar atrás de mesa, camuflado em terno e gravata, querendo moralizar a porra toda. Muito bom. Botador de bandido na cadeia, turma do gargarejo na paróquia, mas cidadão de bem espancador de bunda com guarda-chuva, Pedrão? Covarde. Nem atirar na cabeça com aquele estilingue com pólvora que chama de arma tu conseguiu. Deveria ter atirado é nessa coxa gorda, acertado a femural pra esguichar alto essa banha que corre no lugar do teu sangue. Morrer estrebuchando, como tu deixou morrer aquela renca de pardos, pretos e pobres enjaulados. Com um percurso de vida desses, ein, o que diriam lá na tua cidade, Putaquepariópolis? Tudo bem, procura se acalmar. Toma essa água aqui que vai te fazer bem. Gosto de mijo, né? Era a que tu mandava servir lá no “zoológico da zona norte”, seu filho da puta. Fica contente que não vai experimentar o frango azedo ao molho de vômito das marmitas de sexta. Mas chega de diversão por hoje. Se levanta que você já está pronto. Agora, sabendo que teu chefe de gabinete comia a tua mulher, deus não existe, inferno ou paraíso, pode voltar a viver.

– A legislação que trata do transplante de tecidos e órgãos traz o limiar da vida como a atividade cerebral. Este critério foi relevante, aparentemente, para o novo posicionamento acerca do aborto de anencéfalo, mas falemos disso na devida oportunidade. Ainda no homicídio, lembrem-se de que se requer alteridade, isto é, matar a si não é fato típico. O suicídio não é crime. É pecado grave, imperdoável, mas crime não é.

Álvaro Merlos Akinaga é advogado e escritor. Seu primeiro romance, Esbórnia e Farfonha, está no prelo pela editora Kazuá.

Segunda-feira, 3 de outubro de 2016
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