Fascista em Linha Reta
Quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Fascista em Linha Reta

Como dizer o fascista? Pergunta simples, de teor complexo. Talvez não conseguiremos fazê-lo, mas custa-nos pouco tentar. Antes de avançarmos nessa questão, façamos algumas observações preliminares.

Em “poema em linha reta”, Fernando Pessoa afirma:

“Toda a gente que eu conheço e que fala comigo/Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,/Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida […].”

O poeta luso não quer insinuar que as pessoas estejam mentindo, mas sim que estejam dissimulando, dissimulam pela crença que o epicentro do mundo são suas vidas, uma vida de valores morais, de triunfo e de vontade passiva. Não devemos crer que mentir e dissimular sejam sinônimos, nem perto disso, pois mentir em si é um ato consciente e proposital.

Reparem que Nietzsche já sabia disso. Em “verdade e mentira no sentido extramoral” o filósofo alemão afirma que a mentira surge, em contraposição à verdade, não destoando das convenções estabelecidas, onde é permissível mentir, desde que o faça como “rebanho e num estilo obrigatório para todos. Na verdade, o homem esquece que é assim que se passam as coisas. Ele mente portanto inconscientemente […] conformando-se a costumes seculares… e é mesmo por intermédio dessa inconsciência, desse esquecimento, que ele chega ao sentimento da verdade.” [1]

Os homens não detestam as mentiras e as ilusões, detestam o prejuízo por elas provocadas. Não se trata de aparências, pois não há uma essência ou um real por trás dos campeões que Fernando Pessoa denunciou. De fato são todos campões, pois estão de acordo com a norma. O anormal, o desprezível, o que sofre enxovalho é o “mentiroso”, esse não é verídico, pois não diz a norma, ele transgride a rubricas das harmoniosas divisões ou das séries ordenadas das classificações, que por sua vez são todas moralmente verídicas. Todas moralmente belas.

E então, como dizer o fascista? O fascista diz sempre a verdade, pois ele diz a norma, podendo inclusive se ver com personificação da norma – alguns fascistas julgam-se detentores da historia, afinal, seus juizos são a síntese (uma sintese sem tese e anti-tese, se quisermos ser hegelianos) do saber histórico. A exemplo disso vejam o atual revisionismo histórico “apolítico” que circula por ai. Não há análise de documentos, verificação historiográfica. Há apenas opiniões, como se a pesquisa histórica fosse algo conjectural, conversa de bar. Tais revisionistas acusam os historiadores profissionais de ideólogos, manipuladores e falseadores do passado, esquecendo que quem reconstrói esse mesmo passado é o historiador, ou melhor dizendo, é longo trabalho de pesquisa realizado por historiadores.

E vejam que os grandes historiadores e suas magníficas obras jazem no esquecimento, nas prateleira de alguns poucos especialistas ou de bibliotecas universitárias e o que circula por ai são justamente os títulos dos revisionistas – quem lê João Fragoso? Laura de Mello e Souza? José Murilo de Carvalho? Poucos. Dito de outra maneira: a história calculada, analisada, pensada e pesquisada (dita ideológica, manupulada) jaz esquecida, circulando entre um grupos de intelectuais, para a grande maioria, ela é a história mentirosa. A história vulgar, cheia de imposturas, desequilibrada e sem rigor, é a norma, é a verdade.

Mas ainda não respondemos a pergunta inicial. Como dizer o fascista? O fascista é, em sua maioria das vezes, na grande constelação social, o ordinário, mediano, medíocre, o banal, o Eichmann, o autômato – o pertencente a norma moral. Pode, entretanto, vir a ganhar visibilidade como alguém de virtude, excepcional, mas continua a ser, em sua integridade, um medíocre e banal – a família Bolsonaro que o diga. Para além disso, complicamo-nos. Não é fácil atribuir-lhe no quadro estático dos padrões de classe social – ele pode ser preto, branco, asiático, pobre, rico, patrão ou empregado, autônomo ou até desempregado – não conseguimos capturar a imagem do fascista de forma precisa, ele é “banal” ele é a norma. E dizer a norma, o banal é o mais difícil, pois o padrão sempre passa desapercebido na vida cotidiana. E ai reside um grande perigo.

Como dizer, então, o fascista? Talvez não possamos dizê-lo na forma da linguagem racional depurada, gastando palavras que parecem dizer muito e acabam pouco dizer. Fizemos uma breve exposição anteriormente, mas não há como crer que com o que foi dito – para aqueles que aguentaram ler até aqui – a significação bastou por si mesmo. Dito de outra forma, o leitor pode ter compreendido os componentes da relação mentira, verdade, norma e fascismo, mas isso terá alterado o horizonte de expectativa do leitor? Terá mudado sua relação com o mundo? Não terá ele ficado entediado? É por isso que temos que falar o mesmo já dito anteriormente, mas de forma diferente: di-lo-emos no poetar.

Mas como poetar? Versos rimados e ritmados? Não, não esse poetar, um outro, mais vibrante.

O que melhor temos é o poetar, como Heidegger preferiu chamar o exercício do pensamento, um exercício hérculeo de produzir um pensamento naquilo que não pode ser dito doutra maneira que não através da sonoridade – rítmica ou não – da poesia. Fazer poesia consiste precisamente na forma que se fala os desacordos do mundo – seja prosa, seja verso. Com forma não queremos eleger um retorno ao formalismo, ou impor que haja uma métrica que deva ser seguida para compor versos, queremos dizer apenas que a poesia é necessária em tempos sombrios. Sua forma grita por se fazer ouvir. Ela é articulada entre a linguagem que ordena e mantém uma ordem comum de mundo, as categorias próprias desse mundo que todos entendem (fome, morte, vida, alegria e etc.). É no poetar que nossa consciência de mundo balança ao ponto de nos por em sinergia entre pensar e agir.

Falemos então numa linguagem poetizada para poetar (pensar) melhor.

Seu Severino, pobre, mas não preto, condição que agradecia mesmo sendo um ser humano segregado. Por não ser preto, havia um pouco de regalo em sua vida, donde Severino vinha, não sofrer o pouco mais que de costume, era dito ser sorte para homens de grande fé. Sua sofrência era menos sofrida justamente por sua pele rachada não ser pele com muita melanina. Veio lá das bandas da serra da Costela dos limites da Paraíba, lá há muitos Severinos iguais em tudo na sina, tanto em morte como em vida.

Todos com a mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas. Soube ele, debaixo do sol do meio-dia, que no sul a vida de muitos melhoraria, eram promessas, quase lendas, que viajavam pelas estradas de terra de todas essas antigas sesmarias. Viagem não foi fácil, nem nunca ninguém lhe disse que seria.  As verdades muitas vezes vem mascaradas de mentiras, nas terras do sul, havia tanta fartura, ao mesmo tempo que havia tanta pobreza a quem não merecia. Não que de pobreza pudéssemos dizer que há aqueles que merecem, comemorando a quem dela padece. Essa nova terra não é o paraíso e tão pouco é o inferno, parece mais o purgatório, há tanto sofrimento, principalmente para aqueles que o já sofreram tanto e por isso tão bem o sabem e o reconhecem.

Um dia – como se já não bastasse tantos deles – outra mentira se fez presente, sem que dela se apercebesse Seu Severino. Diziam pelo sul, que surgiu um herói que veio salvar a todos que são de bem. Uns dizem que é filho de santo, outros que ele próprio é um santo. Ainda há os que dizem que é o próprio messias redentor, que vem resgatar esse povo sofredor. Esse herói se veste bem, fala grosso e fala alto, ocupa há mais de 30 anos um cargo importante no plenário. Já foi soldado, mas só chegou ao atual posto quando o país passou a ser democrático. O mais engraçado, já que as ironias não faltam por esse país que parece um grande circo exibindo o seu principal espetáculo, é que o antigo soldado que quer a ordem, tal ordem, tal merda, de uma ditadura, só teve voz quando a constituição foi assinada. Seu Severino, no norte era agricultor, no sul é favelado, mora em barraco de madeirite, junto a mais 3 filhos homens crescidos e criados.

Todos trabalhadores assalariados, ganham pouco, passam aperto e sufoco, raspam o prato, mas são dignos e honrados, são de bem, não são pretos, são pardos, mas tudo isso pouco importa, é detalhe pro coturno do soldado, que pisa e que humilha o desgraçado do diabo. Diz o filho mais novo ser trabalhador, faz bicos de encanador, o do meio é pedreiro e o mais velho carroceiro, mas para o soldado herói, não aquele, não o do congresso, mas este de medalha no peito, medalha de safado, pouco importa estes pardos favelados serem trabalhadores, para ele são todos uns malditos arrombados.

Não mais importa o que digam,mesmo que de mãos juntas, “juro de jurado seu soldado.” E salta a arma do coldre, da pistola o disparo.Seu Severino vai rezar a missa de sétimo dia pelos três filhos assassinados. No telejornal a polícia anunciou que eram três degenerados, traficantes salafrários, e povo, qual povo, qual gado, ovaciona o delegado. Mais triste foram as falas do herói no plenário, falas abstratas, genéricas, “tem que punir, tem que matar, tem que alvejar.” Desde que sejam os filhos de Severinos favelados, que sofreram o degredo. Os filhos dos abastados, que temem os negros pardos favelados, odeiam quem vem do norte, mesmo sabendo que quem vive lá tem pouca sorte, estão protegidos, são gente digna, e com eles não há erro, o coturno do soldado nunca vai lhes botar medo.

Luis Alfredo Galani é formado em Historia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), mestrando em Estudos Literários pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, professor de História e Filosofia.


[1] NIETZSCHE, Friedrich. Verdade e mentira no sentido extramoral. Rio de Janeiro: Comum. v. 6. n. 17, jul/dezem. 2001. p. 13.
Quinta-feira, 6 de outubro de 2016
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