Os herdeiros das sesmarias brindam e comemoram os novos velhos tempos
Terça-feira, 11 de outubro de 2016

Os herdeiros das sesmarias brindam e comemoram os novos velhos tempos

Todos comeriam educadamente, quatrocentas pessoas, áulicas do poder, dividiriam a mesa com o Imperador. Vieram de todos os pontos do país e causaram enorme congestionamento nas portas do palácio, onde foram recebidos com espírito cívico e, claro, um bom scotch. Carros oficiais se amontoavam e todos, exceção feita aos garçons, eram incrivelmente poderosos e constituíam o leque do que a imprensa chapa-branca chamaria de autoridades constituídas. Os risos eram contidos e não desafiavam as câmeras de TV.

Todos os convidados eram ricos, alguns deles, riquíssimos, outros, ainda, verdadeiros magnatas. Aqueles que não eram tão ricos, tinham a confiança daqueles ricos que diziam representar. As quatrocentas pessoas educadas sentaram-se às mesas do Poder e se prepararam para ganhar força, união, coesão, para aplicar sobre a população gastadeira e nascideira, algumas medidas de alinhamento econômico, imprescindíveis, após anos de gastança irresponsável.

O Novo Grande Líder falou para os convertidos. Pregar para convertidos é sempre confortável, é falar do mesmo Deu$, é curvar ao mesmo $enhor. A certeza é de aplausos ovacionados, na base do agora, sim, do que será restaurado, a partir de um momento grave, em que o país há de escolher entre a prosperidade e a bancarrota. Cada um dos comensais, entre uma dose e outra, entre uma taça e outra, era chamado à responsabilidade, de um lado e era aliviado, de outro.

Essa gentalha que não para de nascer e que está adiando a morte para desespero dos burocratas e de suas tabelas de Excel, precisa contribuir mais para poder dedicar-se ao ócio improdutivo, que causa os males do país.

Os bolsos empresariais se esvaziam injustamente com tantos direitos, que se proliferaram a tal ponto que um empregado passou a custar os olhos da cara, como diziam os colunistas sociais dos anos 50, ah, os anos 50, aqueles que precederam os doces anos de ordem militar, época em que tudo funcionava. 13º, hora extra, jornada de trabalho, descanso, salubridade, férias, descanso semanal, auxílio-tudo e, sim, esse bolsa-vagabundo, inventada por essa gentalha da esquerda que foi posta para correr, o bolsa-família, infernal momento em que o andar de baixo achou que pudesse pegar um elevadorzinho social.

Vamos dar um fim nisso, prometia, o Grande Líder falando com os olhos. Vamos congelar os gastos com saúde, com educação dessa gentinha. Educação é para os grandes colégios, para o povão, precisamos ensinar uma profissão média, ser técnico. Um torneiro mecânico, um eletricista, um auxiliar de enfermagem são úteis também, ora essa. Não precisam estudar Medicina, basta que seja bons ou boas auxiliares de enfermagem. Hão de se orgulhar disso, tenho certeza.

Ninguém tocará nas grandes fortunas, que continuarão a não ser taxadas. Como isso? Um imposto sobre o êxito? O imposto sobre a riqueza é mais ou menos tirar um gol do time que soube impor uma goleada ao adversário. O imposto sobre transmissão de bens imóveis deve ficar onde está e imposto sobre herança é uma ideia dos comunistas americanos. Herança é sagrada e não se pode puni-la com taxações excessivas.

Os comensais suspiraram aliviados e brindaram aos novos velhos tempos. Nada tocaria o rico dinheirinho de cada um e quem fosse herdeiro de sesmarias assim continuaria a sê-lo.

O filé estava divino e a companhia não poderia ser melhor. Entre amigos.

Em algum lugar daquele Planalto Central tão distante, no alto falante, Gilberto Gil cantava:

Os operários e escolares que passavam,

Davam risadas, gritavam:

VIVA O ÍNDIO DO XINGU!

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli,

Terça-feira, 11 de outubro de 2016
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