Não se constrói liberdade com alicerces falhos
Sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Não se constrói liberdade com alicerces falhos

“Quando me pus, algumas vezes, a considerar as diversas agitações dos homens e os perigos e as penas a que se expõem, na corte, na guerra, de onde nascem tantas querelas, paixões, empresas ousadas e muitas vezes más, eu disse muitas vezes que toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa, que é não saberem ficar em repouso num quarto” – [Blaise Pascal, Pensamentos].

I. Rapidez e lentidão

Existe uma relação evidente entre a calma e a profundidade, entre a lentidão e o cuidado.

Milan Kundera, em seu pequeno romance A Lentidão, explora essa relação. Demonstra como nosso mundo atual tem-se pautado por um ritmo crescentemente veloz. Na curta história, Kundera defende a ideia de que muito é perdido em nossa ânsia por rapidez e holofotes. Muito fica pelo caminho. O romantismo, a sutileza, o detalhe, o toque, a intimidade: tudo isso é trocado por pequenos e imediatos prazeres.

Daniel Kahneman, em sentido similar, argumenta que o ser humano pode pautar-se no que chama de sistema rápido ou no que chama de sistema devagar. O sistema rápido demanda, como o nome sugere, a decisão imediata, baseada em todo o arcabouço de valores e experiências já cristalizado em nossa mente. O sistema devagar demanda a análise cuidadosa da situação, a ponderação das circunstâncias, a atenção às sutilezas.

São duas formas de ver o mundo e de experienciar a vida, com repercussões fortes e evidentes.

II. A rapidez

O sistema rápido é inegavelmente útil em inúmeras situações. É a resposta emergencial de que tantas vezes precisamos. O mundo atual, com informações voando a todo instante, certamente nos impele mais e mais à lógica da rapidez.

A grande tragédia surge – e esta talvez seja a grande tragédia do mundo atual – quando apenas nos são exigidas respostas rápidas.

Logo ao acordarmos, acessamos as redes sociais. Informações, às centenas, aparecem sequencialmente na tela. Informações ligeiras. Velocidade intensa. Lemos superficialmente cada texto curto: são caracteres limitados, poucos, pouquíssimos, sob pena de não serem lidos.

Posts incisivos, irrefletidos, emocionais, breves. Imagens-clichês. Fotos no espelho. Mensagens incontáveis vezes repetidas. É o lugar-comum, o lugar certeiro, as curtidas certas. Opiniões unilaterais são as mais bem-vindas. Qualquer problematização não combina com a velocidade do sistema rápido. Qualquer problematização não combina com o nosso mundo, ligeiro desde logo de manhã.

No trabalho, pilhas de exigências. E-mails amontoados, demandas diversas, telefonemas, trabalhos cruzados. Nos intervalos, novamente as redes sociais. As informações jamais cessam de chegar. Conversas ligeiras. O ritmo continua. Goladas de café: o dia não irá parar. As informações não pararão. Nas ruas, pessoas passarão em grande velocidade. Tentarão chegar mais rápido à fila do ônibus, tentarão entrar mais rápido no vagão de metrô, tentarão agressivamente ultrapassar o carro à frente. Com a mesma velocidade com que se tenta baixar as pilhas de trabalho, tenta-se superar todo obstáculo entre aqui e lá, entre o indesejável e o objeto de desejo, entre a rua do trabalho e a rua de casa.

 

O caminho não tem valor. Importa só o destino.

 

Chegamos, então, em casa. Refeição rápida. Talvez encontremos amigos. Talvez, antes de casa, um happy hour. Uma hora feliz. Um oásis de esquecimento. Podemos assistir a séries ligeiras ou a novelas de múltiplas tramas entrecruzadas – provavelmente com o celular na mão, que desperta a cada nova informação. A velocidade jamais cessa. Mil formas de distração. O que nos diverte é o diverso. É a multiplicidade. O sono agitado é o sono da exaustão. Um novo dia nos espera. Um novo dia não pode esperar.

III. Rapidez e superficialidade

Eis uma verdade inafastável: nós somos o que contemplamos. Transformamo-nos naquilo a que dirigimos reiteradamente nossa atenção – sobretudo se nossas raízes não estiverem muito bem fincadas.

Nossos padrões de pensamento mimetizam a forma como vivemos – e, claro, viveremos de acordo com nossos padrões de pensamento. É um círculo que pode ser virtuoso ou vicioso.

Quando vivemos uma vida em que a velocidade jamais cessa, nossos pensamentos se tornam, também, crescentemente velozes. A dificuldade de mergulho profundo em uma só ideia por considerável período de tempo é sintoma de uma forma de viver. A incapacidade de uma leitura profunda torna-se incapacidade de um pensamento profundo, e vice-versa. Dispersão e distração. A forma apenas rápida de viver e de contemplar o mundo afasta-nos da profundidade. Incontáveis informações por minuto não podem ser apreendidas profundamente. Sutilmente, somos programados para a superficialidade. Agimos superficialmente, Pensamento superficialmente. Mundo a toque de caixa. Nada pode esperar. Vivendo rápida e superficialmente, aumentamos a velocidade e a superficialidade do mundo ao nosso redor.

Um texto escrito de forma ligeira terá, na melhor das hipóteses, aparência de profundidade, mas será superficial. Uma decisão judicial tomada e escrita de forma ligeira poderá aparentar profundidade – longas laudas, incontáveis citações doutrinárias e jurisprudenciais que apenas maquiam a superficialidade óbvia. Os processos amontoados, a carga invencível de trabalho nos fazem clamar por um Judiciário célere. Mas precisamos compreender que celeridade e profundidade são conceitos diametralmente opostos. São conceitos excludentes. Celeridade e superficialidade caminham juntas. Celeridade e injustiça caminham juntas. Decisões a toque de caixa: assim são lançados os nomes de incontáveis réus no rol dos culpados.  

IV. A alma e as profundezas  

A imagem é esta: construímos nosso lar no mundo mental. Ali temos nosso refúgio. Mesmo nos momentos mais turbulentos a nosso redor, temos nosso abrigo. Temos nossas convicções, nossas experiências mais profundas, nossa forma de pensar consolidada, nosso raciocínio firme e bem lapidado. Nada disso significa teimosia. Significa que nossa atenção irá aonde quisermos que vá: não seremos levados para lá e para cá, distraídos e dispersos. Significa que construímos uma morada sólida. Podemos sair e entrar. A escolha é nossa.

Ter uma casa mental bem construída é ser forte. E não construímos um lar forte sem alicerces profundos. Os vendavais são poderosos: vêm, vão, tornam a vir. Podemos buscar materiais frágeis, amontoar uns pedaços de pau, pregar uma parede de isopor no chão, colher uns gravetos, amarrá-los com folhas cinzas e jogá-los no teto – este é o abrigo formado por uma vida superficial, pensamentos sem alicerces, alma sem profundidade. Ou podemos, diligente e pacientemente, trabalhar alicerces profundos, com materiais que não se encontram em qualquer lugar, e a partir daí erguer paredes firmes e um teto bem construído – é a fortaleza erigida na lentidão, no cuidado, na profundidade do próprio ser.

Imagino que demonstrações gratuitas de força e de autoridade sejam uma deprimente tentativa de, no mundo físico, compensar a fragilidade da própria morada na mente. É uma ideia triste. Como dito, nossa vida atual é uma vida de superficialidades. O ritmo de vida pelo qual somos diariamente tragados só traz materiais quebradiços. Somos facilmente levados. Temos casas cada vez mais frágeis. Eis a semente de toda brutalidade e de todo autoritarismo.

Keats dizia que a vida é o vale de construção de almas. Isso significa, como poderiam dizer os existencialistas, que a alma não é dada: nós a construímos diariamente. A escolha pela paz ou pela tragédia talvez seja uma escolha pela pressa ou pelo cuidado. Pela profundidade ou pela superficialidade. Que alma queremos construir?

V. Olhando além do óbvio: a verdadeira prisão

Quando se diz que as verdadeiras grades que nos aprisionam são interiores, a ideia pode ser compreendida a partir do que foi dito até aqui.

Se vivemos uma vida de pressa e superficialidade, nossos pensamentos são apressados e superficiais. O material com que construímos nossa alma é frágil. Somos interiormente frágeis. Sem pés firmes no chão, somos levados para lá e para cá. Estamos à deriva. Seguimos modas passageiras. Reproduzimos as falas das massas. Seguimos cartilhas pontas e acabadas. Sujeitamo-nos a toda espécie de doutrinação política, ideológica, religiosa ou o que for. Compreendemos simploriamente os acontecimentos, porque apenas arranhamos o escancarado. Não caminhamos com nossas próprias pernas, mas somos levados. Somos dispersos e distraídos. Somos incapazes de construir nosso próprio ser. Somos aprisionados pelo destino e pelo entorno: eis nossa prisão – uma prisão que pode ser luxuosa e envernizada, mas cuja verdadeira natureza não passa despercebida por quem tem olhos para ver.

É um aprisionamento que leva a barbaridades. A fragilidade interior é inconscientemente compensada no exterior. A violência doméstica pode ser sintoma de uma alma moribunda. Um chefe autoritário pode esconder um menino amedrontado e de pernas frágeis. Um juiz implacável talvez trema em noites solitárias. É, na cultura popular, a imagem de Darth Vader: sua aparente força era superficial. Apenas se sustentava enquanto vivenciava a máscara da tecnocracia, da artificialidade, do autômato modo como tantos homens de olhos tristes insistem, dia após dia, em viver. Retirada a máscara, o que resta é um rosto apenas parcamente vivo, sufocado pela própria doença.

As causas verdadeiras se escondem. Tendemos a guerrear contra violências, injustiças, arbitrariedades. Mas pouco estamos dispostos a ver que aquilo contra o que guerreamos é, muitas vezes, sintoma de uma forma de vida que também nos mergulha nos destroços da superficialidade. Enquanto não construímos profundamente as bases de nossa própria morada psíquica, somos levados para lá e para cá pelo destino. Todos sempre julgam estar no lado do bem – talvez esta seja a maior entre todas as nossas ilusões! Pouquíssimos se tornam senhores da própria alma. Pouquíssimos estão livres para escolher o que, de fato, dialoga com seu íntimo. Pouquíssimos estão de fato livres para encontrar a própria felicidade.

La Taille, profundo estudioso do desenvolvimento moral do ser humano, diz que a felicidade verdadeira é a semente do respeito ao próximo. Não há bem sem a profunda autorrealização que apenas surge pela via do autoconhecimento. Não há bem sem a profunda autorrealização apenas possível a quem soube construir, com toda a calma e toda a paciência necessárias, uma forte morada psíquica, com alicerces profundos. Não há bem sem a verdadeira liberdade interior. E não haverá liberdade interior se seguirmos em nossos passos apressados, nossos costumes superficiais, nossa atenção cambiante, nossos gritos que só querem calar a voz ao redor, nossas acusações irrefletidas, nossa incapacidade de olhar, escutar, ponderar, cuidar. Não se constrói liberdade sem o cultivo da calma, da reflexão profunda, da atenção firme, da capacidade de estar, por inteiro, em um lugar de cada vez. Não se constrói liberdade com materiais frágeis e alicerces falhos, nem sem o diligente trabalho que apenas a paciência permite.

“Peço-lhe, amigo, seja feliz” – assim Kundera termina seu livro A Lentidão. “Tenho a vaga impressão de que da sua capacidade de ser feliz depende a nossa única esperança”.     

Bruno Amábile Bracco é Mestre e Doutorando em Criminologia pela USP, Defensor Público do Estado de SP, autor do livro “Carl Jung e o Direito Penal”

Sexta-feira, 14 de outubro de 2016
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