Proibição da vaquejada aprofunda discriminação regional e cultural
Quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Proibição da vaquejada aprofunda discriminação regional e cultural

Uma atriz loira e linda, feroz defensora dos animais, lutadora contra a vaquejada, causa que congrega a imensa maioria de brancos ecologicamente privilegiados e esclarecidos, mandou um deputado calar a boca, em uma sessão do Congresso, dizendo que bastaria a ele o fato de ela pagar o bolsa-família do Nordeste, exatamente a região do Brasil campeã das vaquejadas.

Aos inimigos das vaquejadas, eu sugiro que assistam a uma delas. Eu fui. Aconteceu em Teresina, e, até então, de vaquejada, só tinha em minha mente uma música do Quinteto Violado, um conjunto que nem sei mais se existe, mas que fez uma baita sucesso, nos anos 80, época do Circuito Universitário, nicho de público daquela época para turma mais à esquerda ter para quem cantar.

A vaquejada é uma festa popular grandiosa, que envolve música, própria da vaquejada, cantores de vaquejada. Sirano & Sirino, isso, com esse, são os tops da coisa e cantam para dezenas de milhares de fãs, que fizeram da vaquejada o esporte popular de uma região pobre, mas profundamente voltada às suas tradições.

Muita bebida, muita comida nordestina da boa: comi buchada de bode, comi munguzá, comi arroz de cuxá, maria isabel, paçoca de carne, tudo regado com cachaça mangueira e cerveja. Para aliviar a coisa e açucarar o sangue, Guaraná Jesus. Imperdível! Não vi briga, não vi nada que não fosse festa popular, gente do povo, gente do povo vestida com a roupa que achou e vestiu e foi dançar, cantar, comer e beber. Claro, rolava uma pegação animada. Festa.

Na arena e na arquibancada, sem direito a camarote VIP, todo mundo sentadão no cimento, a corrida empolga as pessoas, homens e mulheres que participam. Mulheres, sim, correm a vaquejada, são reverenciadas e aplaudidas. Os novilhos, depois do tombo, levantavam-se e eram recolhidos, guardados para uma próxima; não há segundo tempo, um tombo e vão para casa.

Na arena, longe léguas das arenas europeizadas, a imensa maioria que lá está é pobre, é orgulhosamente nordestina, todos me perguntando se lá em São Paulo tinha essa alegria que tu tá vendo aqui… assunto para uma outra hora.

Há tempos, em Indaiatuba, cidade rica, perto de São Paulo, visitava um amigo que tinha uma chácara bacanésima num condomínio de nome inglês, britânico, de gente bem. Um gramado maravilhosamente cuidado e uns poucos caras e umas poucas loiras acompanhavam um jogo de polo. Não contei, mas a impressão que tive é que havia mais Mercedes-Benz do que público, como se fosse possível que alguém fosse dirigindo duas delas. No plutosfera, tudo é possível. Os cavalos corriam muito, faziam manobras arriscadíssimas e muitos se contundiam, iam à exaustão e eram imediatamente substituídos por outros e assim sucessivamente; achei chatíssimo aquele jogo e convenci meu amigo a, finalmente, ligar sua churrasqueira. Os jogadores de polo me pareceram clonados, de tão iguais. Todos empertigados, brancos, ricos e garbosos; uma tacada errada e lá se ia a perna do animal que não despertaria a inveja de seus parceiros na vaquejada.

Nas Olimpíadas, as provas de hipismo reuniram o que havia de mais endinheirado dos turistas: príncipes europeus desconhecidos, xeiques árabes, a turma do PIB mundial assistia a cavalos e seus jóqueis saltarem, com imenso sofrimento e risco, obstáculos altíssimos, que jamais seriam encontrados na vida selvagem, mesmo porque o bom senso dos animais os convenceria sem dificuldades, caso encontrassem um obstáculo daquela altura, que dele se desviassem e continuassem placidamente seu caminho.

Três modalidades esportivas, mas só uma é criminalizada, não casualmente a da turma do bolsa-família, paga pela atriz loira e racista, que na verdade só vê ofensa aos animais no esporte praticado por pessoas de um nível inferior ao dela e aos dos jogadores de polo e aos praticantes do hipismo belga-saxão. Os cavalos dos caucasianos europeus sofrem por um esporte plasticamente perfeito, ao passo que na vaquejada, o pobre e preto nordestino, ops, pardo, como assim se definem oitenta por cento deles, segundo o IBGE, submete novilhos sem pedigree a uma corrida cruel e covarde, coisa feia, em uma arena feia, assistida por gente tão preta e tão pobre ou tão parda.

Nada existe a justificar essa seletividade jurídico-legislativa, a não ser considerar que a proibição de uma modalidade esportiva e cultural, que foge ao círculo nobiliárquico dos puros-sangues, se fundamenta, indisfarçadamente, em um pensamento racista e, por isso, repulsivo.

Ao invés de combater a crueldade contra animais, que sinceramente, não vi, a proibição da vaquejada somente contribuirá para aprofundar os estereótipos da discriminação, que além de racial, passará a ser também cultural. Sempre existirá um pretexto, um argumento de última hora para justificar a repressão à cultura popular, principalmente quando desafiar os padrões estéticos oficiais, principalmente quando se sobrepuser à cultura oficial, imposta pelo círculo dominante do poder, principalmente quando preservar raízes incômodas.

Vi a vaquejada e gostei. Vi a vaquejada e gostei de ver a vitalidade de uma cultura desafiadora dos padrões oficiais, de uma cultura popular que a fúria da burocracia oficial pretende destruir.

Sem medo de hipérboles, a vaquejada não deixa de ser uma extensão de Canudos, que foi devastada, mas que permanece lá, pulsando, viva.

O sertão vai virar mar

O mar vai virar sertão.

Roberto Tardelli é advogado Sócio da Banca Tardelli, Giacon e Conway. Procurador de Justiça do MPSP Aposentado.

Quinta-feira, 27 de outubro de 2016
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