Qual resistência é possível após triunfo do ódio na eleição de Donald Trump?
Quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Qual resistência é possível após triunfo do ódio na eleição de Donald Trump?

O mundo instantaneamente é um lugar pior e mais perigoso. Com isso não digo que Clinton era uma candidata repleta de virtudes. A faceta socialmente relevante dos Democratas era Bernie Sanders, candidato que se diferenciaria drasticamente de Trump e do que ele representa de um modo que os Clinton jamais seriam capazes. Colheram o que plantaram. Mas mesmo assim, a vitória de uma mulher nos EUA seria especialmente significativa, ainda mais considerando o oponente.

A eleição de Trump é um triunfo da intolerância, do desprezo pela diferença, do machismo, da misoginia, da xenofobia, da homofobia e em última análise, do ódio e de um projeto de espoliação de vulneráveis que se espalhará pelo mundo afora. Ela consolida de forma cabal o que tantos de nós temíamos: o fascínio pela personalidade autoritária e a ascensão do fascismo são fenômenos preocupantes, cujo alcance é mundial. Viveremos para colher os frutos dessa vertigem autoritária, cujo custo em termos de direitos humanos ainda não é possível vislumbrar.

Como na primeira metade do século XX, talvez seja preciso que a democracia praticamente morra para depois renascer a partir de outras bases. É difícil ter otimismo em tempos tão sombrios. Parece insuperável a tendência a fazer do mundo um lugar de subjugação dos fracos pelos fortes, que sempre exercerão o poder em benefício próprio e de seus privilégios. O momento é muito difícil. A esperança nos é roubada como quem tem o ar expulso dos pulmões por um soco no estômago. Que espaço pode existir para o amor em um mundo que transforma o ódio em objeto de culto?

Na conjuntura atual, parece terrivelmente restrito o espaço de resistência. Mas o que restaria da experiência humana se não fosse a capacidade de sonhar? Temos que apostar que outro mundo é possível, mesmo que não tenhamos a felicidade de viver para desfrutar dele. E é por ele que vamos lutar, até o limite das nossas forças.

A ascensão do ódio e a resistência possível

Nós temos que encontrar um denominador comum urgentemente. É preciso ter consciência de que a atual quadra histórica está a exigir um redimensionamento da nossa atitude política. A pluralidade e a diferença devem ser reduzidas ao seu mínimo ético, por questão de sobrevivência: é preciso abraçar quem está aberto para o amor é resistir ao avanço do ódio.

Cultivar o diálogo com quem é possível conversar e deixar em suspenso outras diferenças. Pensar exclusivamente no projeto de hegemonia do próprio feudo pode ser uma estratégia verdadeiramente suicida. Quem mantiver essa atitude mostrará que sucumbiu ao dogmatismo: a fidelidade ideológica lhe é mais cara do que uma realidade que clama por ajuda.

A ascensão do fascismo é o grande desafio de nosso tempo. Somente uma aliança entre genuínos liberais e esquerdas plurais será capaz de barrar seu avanço em escala mundial. Mas não será das arcaicas estruturas políticas o protagonismo da luta: é preciso apostar nessa juventude comprometida com a celebração da diversidade e que tem tanto a nos ensinar. Temos que aprender com eles a manter viva a chama da esperança, mesmo quando a adversidade nos rouba a vontade de viver.

Um ponderado pragmatismo nos obrigará a ser conservadores, quando a realidade exigiria muito mais; mas é precisamente da conservação das conquistas do passado que se trata.

Se não nos mostrarmos à altura do desafio, corremos o risco de ver todos os avanços da segunda metade do século XX liquidados implacavelmente. Sua reconstrução seria tarefa de décadas e esse é um risco que não podemos correr.

O mundo já esteve próximo de universalizar o Holocausto. De suas ruínas brotou algo melhor. Temos que acreditar que dos escombros pode renascer o amor pela liberdade. É sempre mais escuro antes do amanhecer.

A escalada será íngreme e o campo provavelmente estará repleto de cadáveres. Mas uma vida politicamente engajada é uma vida que merece ser vivida. O contrário disso é a morte em vida e pior destino não poderia haver para quem anseia por um mundo melhor.

Lutar aqui, lutar pelo mundo afora. Cultivar o amor como resistência ao ódio. Quem em sã consciência diria não para um convite assim?

Salah H. Khaled Jr. é Doutor e mestre em Ciências Criminais (PUCRS), mestre em História (UFRGS). Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Escritor de obras jurídicas. Autor de A Busca da Verdade no Processo Penal: Para Além da Ambição Inquisitorial, editora Atlas, 2013 e Ordem e Progresso: a Invenção do Brasil e a Gênese do Autoritarismo Nosso de Cada Dia, editora Lumen Juris, 2014 e coordenador de Sistema Penal e Poder Punitivo: Estudos em Homenagem ao Prof. Aury Lopes Jr., Empório do Direito, 2015.

Quarta-feira, 9 de novembro de 2016
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