O homem do ano não poderia ser outro
Quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O homem do ano não poderia ser outro

A foto estarrecedora que circulou o Brasil com rapidez ontem choca não apenas pelo prêmio, ou pelas trocas de amores, mas pelo momento. Talvez seja a maior concentração de fatores inoportunos que uma única foto poderia condensar

O prêmio “Homem do Ano” da Revista IstoÉ não é tão conhecido como parece, e nem foi uma invenção brasileira. A Revista “Time” americana premia desde 1927 o “Man of the Year”- que a IstoÉ passou a gentilmente copiar.

Essa tradição de escolher um “homem do ano” surgiu, ao contrário do que muitos pensam, não para laurear alguém que se destacara por seus feitos na sociedade americana, mas porque precisavam preencher a semana com notícias. A adaptação tupiniquim à cargo da Revista IstoÉ, se transformou em um baile de tapete vermelho onde políticos de uma casta e endinheirados se encontram para se gabar de seus feitos durante o ano, e exibir suas damas – belas, recatadas e do lar, claro. O nome do próprio prêmio já diz, é “Homem” do ano, e não “Personalidade” do ano. Se fosse uma personalidade do ano, quem sabe uma mulher até poderia vencer. Mas não. No prêmio, as mulheres são consorte.

Em 2014, os homens do ano foram Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente, e Bill Clinton.

 

Em 2015, o “discreto” juiz, como era chamado Sergio Moro à época, foi escolhido. Em 2016, quem tirou a sorte grande foi Michel Temer.

 

Não fosse a foto que circula pelas redes sociais incessantemente, talvez nem tivéssemos prestado atenção ao fato de que no Palco, estavam, felizes e contentes, os homens que mais trouxeram instabilidade ao país, sob o pretexto de erradicar a corrupção. Investigadores e investigados sentam-se juntos para celebrar seus feitos.

Em meio ao caos da república e a mais grave crise institucional que o Brasil dessa geração, Aécio Neves, Michel Temer, Sérgio Moro, José Serra, Gilmar Mendes, Abílio Diniz, Geraldo Alckmin e João Dória, celebram-se uns aos outros aos risos e gargalhadas. Na plateia, os verdadeiros contentes: os especuladores financeiros e os agentes do capital internacional vendo a constituição brasileira e direitos como a previdência, a saúde pública e a educação derreterem, a especulação financeira aumentar, a classe trabalhadora perder garantias para que possa ser explorada da forma mais adequada. Assistiram seus heróis serem laureados, as custas do sofrimento povo brasileiro. Quem liga?

Talvez o que nos deixe mais perplexas e perplexos não é o fato de que Sergio Moro fora escolhido “Homem do Ano” na categoria “Justiça”, João Dória o vencedor na categoria “Política”, e Michel Temer o grande “brasileiro do ano” por uma revista como a IstoÉ que atuou incessantemente para que o impeachment sem crime de responsabilidade e sem base legal desse certo. Mas sim a reunião entre a concertação e o deboche. O riso e o cinismo. Os privilégios escancarados e o sadismo. Quão à vontade se sentem esses homens de estarem entre si. Não fosse o banner atrás da foto indicando do que se tratava o evento, concluiria que aquele era o encontro de fim de ano da confraria do golpe.

Ao fazer uma pesquisa, não achei uma única mulher que tivesse sido premiada pela IstoÉ. Faz todo o sentido. Não por acaso as mulheres, em especial, as negras e pobres, serão aquelas que mais sofrerão com as medidas do Governo Michel Temer – elas são hoje a parcela da população que está mais desempregada, que tem menos carteira assinada e que tem renda menor comparativamente. Os dados são da PNAD trimestral publicada na última semana de novembro pelo IBGE. A invisibilidade não é um mal, é um pressuposto.

Em um golpe de homens brancos, para homens brancos, o homem do ano não poderia ser ninguém mais do que ele mesmo, a personificação do pior ano que a sociedade brasileira já viveu desde os idos de 1980: Michel Temer.

Juliana Moura Bueno é Cientista Politica e Feminista, foi Chefe de Gabinete da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e também trabalhou com Direitos Humanos na Prefeitura de São Paulo e no Escritório da ONU para Drogas e Crime (UNODC) para América Latina e Caribe no México. Além disso, coordenou a implementação do projeto Cidade 50-50 para igualdade de gênero nas cidades.

Quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
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