Estúpidos ironizaram e desdenharam do luto de uma mãe
Segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Estúpidos ironizaram e desdenharam do luto de uma mãe

Quando li os comentários à notícia acerca da morte trágica do filho de Tati Quebra Barraco, a primeira sensação que tive foi sentir embrulhar o estômago. Saída de seus poços de ódio, houve quem ironizasse a morte do rapaz, fizesse comentários sarcásticos e cruéis, desmerecendo o menino de dezenove anos de idade, morto por balas da UPP, uma terrível rotina carioca. Foi-se ladeira abaixo da ética mínima necessária na morte, que é o dever de respeitar a dor da mãe, que vai enterrar o filho assassinado.

O garoto morreu assassinado. Sua mãe, rasgada na alma, como se lhe arrancassem do ventre a cria, teve que ouvir o que nenhuma mãe deveria ouvir, nem do mais estúpido ser humano que pusesse os pés imundos na terra. Nem o mais desalmado dos calhordas teria se dado tempo de seu dia para ironizar a morte do garoto.

Quando se aplaude o terror, quem morre junto é quem aplaudiu, é quem se ajunta em torno de um menino morto, transformando-se em um bando de abutres, que bicam os olhos de quem não tem mais como sofrer, pois não há sofrimento que baste diante do corpo baleado do filho.

Quem aplaudiu ou compreendeu o grave momento, quem justificou a necessidade de manter a ordem pública, quem imaginou que esse é um fato isolado, quem sustentou que houve apenas reação policial, deixa morrer alguma coisa dentro de si.

Junto a ele, diz a curta notícia, outro jovem tombou morto. Esse, vinte e dois anos. Ambos negros, ambos moradores de um lugar onde não mais existem direitos e onde há um massacre genocida. Matam-se pretos e os quase pretos de tão pobres e nenhuma miserável declaração de pesar às famílias é feita. Outras notícias não demoram a surgir: o rapaz tinha passagem por furto. Tá vendo?! Mereceu! – vibra o desalmado.

Nesse massacre racista, uma obviedade permanece oculta: não há policiamento nessas comunidades, mas tão-somente forças de ocupação, que não levam segurança, mas apenas terror e morte.

A segurança é um direito humano evidente, que se desvela no sentido de o estado garantir condições de que não sejamos mortos nas ruas, seja pela violência urbana e muito mais agudamente pelas forças oficiais de proteção; não se pode confundir a segurança das pessoas com a segurança do poder de estado, da mesma forma como não pode confundir segurança das pessoas comuns com Segurança Pública, que nada mais é que o aparato policial repressor-investigativo.

Uma força de ocupação em tempos de paz é terrorismo de estado, eu faz as mães ocuparem seu desespero, sepultando os filhos, dia após dia, dia após dia, assassinados, mortos a tiros, aqui, no Rio, em Salvador, em Manaus, por todo lugar.

Me ensurdece ouvir que ninguém cobrou, é horrível ver a facilidade com que as informações oficiais são aceitas.

Segue a vida, a vida dos que restaram e dos que se omitiram, dos que vão arquivar, dos que vão absolver, dos que vão dizer que o fato de restringir-se a prova oral a depoimentos de autoridades policiais e seus agentes não desautoriza a condenação.

Os que matam tem credibilidade sumulada. Matam e podem dizer que foi, sim, em legítima defesa e estrito cumprimento do dever legal, como se houvesse o estrito cumprimento do dever legal em matar jovens pretos cidadãos como quaisquer outros.

Esse estado policialesco cria um direito à opressão, que autoriza cruentos seres humanos a ironizar a mãe do rapaz, criminalizando a maternidade, por ser também negra, dando-se a festejar o homicídio dele e de seu amigo. Esse estado policialesco dominou os tribunais, aniquilou o pensamento, destroçou completamente qualquer possibilidade de igualdade de dignidades processuais, jurídicas, legais.

No genocídio, aos pretos se garante apenas o direito de sepultarem seus filhos em silêncio, o único que ainda lhes resta, antes que sejam obrigados a deixar insepultos os cadáveres chacinados na rua, porque, mesmo depois de mortos, são alvo de um sarcasmo vilipendiador.

Eles morrem, sem direito a Jornal Nacional, Fantástico, facebook. Morrem porque é assim que se enfrenta o crime, matando suas pretas vítimas precoces.

Roberto Tardelli é Advogado Sócio da Banca Tardelli, Giacon e Conway. Procurador de Justiça do MPSP Aposentado.

Segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
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