Feminismo não é uma opção, mas uma necessidade
Quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Feminismo não é uma opção, mas uma necessidade

Antes de tudo eu gosto de me situar e, ao fazer isto, não me resta outra coisa senão declarar o óbvio: eu sou macho – a espécie e não aquele macho adjetivo repugnante… Além de macho, sou homem – gênero. Nasci macho, com a ajuda genética, e aprendi socialmente a ser homem – e cá estou!

Por que esta introdução aparentemente desnecessária? Para dizer que este texto é escrito por alguém que só conhece na teoria a violência a que se propõe a debater, afinal de contas só quem a sofre mesmo é quem é mulher…

O fato é: existe a cultura da violência contra a mulher? Primeiramente: o que é cultura? De forma sintética, cultura são atos que incluem o conhecimento, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano inserido em sociedade.

Mas podemos ir além…

E a cultura em sua relação com o poder? José Luiz dos Santos, em um pequeno, mas importante, livro chamado “O que é cultura”, não deixou de apontar algo interessante:

Não podemos discutir sobre cultura ignorando as relações de poder dentro de uma sociedade ou entre sociedades.
Em resumo: cultura são atos adquiridos em sociedade, formados numa relação de poder – evidentemente prevalecendo o poder econômico (infraestrutura) que determina a ideologia dominante (superestrutura).

Segundamente: e violência? De forma sintética, a violência é algo que causa dano a outrem. De uma forma mais complexa, violência no sentido cultural são os atos adquiridos em sociedade, formados numa relação de poder […] e que causam, de forma legitimada, posto que praticada pelos que dominam, danos a outrem. Importante: quem é este outrem? As minorias, pessoas hipossuficientes na relação de poder econômica e ideológica.

Neste sentido a pergunta é: existe a violência cultural contra a mulher? Penso que sim. Não somente física, como também simbólica. E estas violências não são coisas de hoje…

Pensemos em Aristóteles:

“A força de um homem consiste em se impor; a de uma mulher, em vencer a dificuldade de obedecer. Em todas as espécies o macho é evidentemente superior à fêmea: a espécie humana não é exceção.”

Olhemos na Bíblia:

“As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher (Efésios 5:22,23)”

Vejamos Schopenhauer e Nietzsche:

“Não entendo como o homem pode amar a mulher, um ser inferior, de ancas largas, ombro estreito, cabelos grandes porque a mente é curta (Shopenhauer)”

Comparando no seu conjunto homem e mulher pode dizer-se: a mulher não teria engenho para se enfeitar se não tivesse o instinto do papel – secundário – que desempenha. (Nietzsche)

Tudo isto, infelizmente, só demonstra toda uma cultura de violência que há muito tempo vem chegando até nós – até que, em pleno século XXI, encontramos o Bolsonaro dizendo para uma mulher: não estupro você, pois você não merece…

Feminismo, por isto tudo e mais um pouco, não é uma opção: é uma necessidade – principalmente para desconstruir discursos como “não precisamos de feminismos e nem de machismos, mas de igualdade”. Por quê? Porque se não precisamos nem de machismo e nem de feminismo, mas de igualdade, então precisamos do feminismo – posto que este luta por igualdade entre os homens e as mulheres.

A função da cultura é perpetuar atos, práticas e, principalmente, legitimar tais práticas e atos. Como as coisas são desconstruídas? A partir do diálogo e assumindo uma posição de ouvinte quando quem se sente constrangido pela cultura pretende falar. Fazendo isto estaremos dando um basta no Poder Simbólico, aquele poder que, como dizia Bourdieu, é invisível e exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem.

Por isto, meus amigos, que tal um exercício? Sempre que uma mulher falar que se sente ofendida por algo, que tal se a gente não revidar e escutá-la? A voz de quem sofre a dor é mais profunda do que as nossas vãs ideologias enraizadas pelo conforto de nossas posições.

Não sou feminista, não acredito na possibilidade de homem feminista. E não precisa ser feminista para apoiar o feminismo: basta ter empatia e humildade para aceitar que nós, homens, temos regalias demais – tantas regalias e tão enraizadas que a gente nem percebe que tem.

Wagner Francesco é Teólogo com pesquisa em áreas de Direito Penal e Processual Penal.

Quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
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