Entre Macunaíma e o Homem Cordial quem paga o pato é a gente
Sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Entre Macunaíma e o Homem Cordial quem paga o pato é a gente

“Desculpe o transtorno, estamos mudando o Brasil”. Lá se foi 2016 terminando com corpinho pós moderno, mas carinha de 1964. Muitos patos, outros nem tanto, acreditaram que a melhor alternativa para o país seria mergulhar na aventura do impedimento da Presidenta sem crime de responsabilidade. Alguns não sabiam no que se metiam; poucos, contudo, não foram levados por sentimentos negativos. O ódio a determinado partido político foi capitalizada por aqueles que mais dela se beneficiam: as pessoas (empresários, políticos, lobistas, advogados etc) que atuam na nebulosa zona entre o público e o privado.

Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil [1] criou o homem cordial, como forma de tentar entender e explicar o brasileiro, no trecho seguinte há respeitável indício de que estava certo mesmo há 80 anos:

“a vida em sociedade é, de certo modo, verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Sua maneira de expansão para com os outros reduz o individuo, cada vez mais, à parcela social, periférica, que no brasileiro -como bom americano- tende a ser a que mais importa. Ela é antes um viver nos outros” (p. 147).

O pai do Chico Buarque defendeu que o brasileiro tem dificuldade em entender a noção de que o Estado não é um círculo familiar. Há no brasileiro, portanto, um desapego aos ritos, sejam estes sociais, legais, morais e éticos, de modo que “nosso temperamento admite fórmulas de reverência e até de bom grado, mas quase somente enquanto não suprimam de toda possibilidade de convívio mais familiar” (p. 148) e arrebata afirmando que nosso desapego aos ritos é tanto que o tradicional rigorismo que os ritos impõem é convertido em afrouxamento (p. 149).

Afrouxamento de ritos foi cristalino no processo de impedimento, tanto em seu aspecto estritamente jurídico, cuja forma até foi minimamente respeitada, mas o conteúdo completamente ignorado, tendo em vista que foi um jogo de compadres bastante heterodoxos, cujo resultado já se anunciara quando o então vice presidente enviou a pueril cartinha à Presidenta Dilma. 

No entanto, a população poderia ter buscado mais conhecimento, o qual, em eras digitais, é ao mesmo tempo acessível e distante. A acessibilidade beira o óbvio em tempos virtuais, mas o danado do detalhe é que a compromete. A internet nos possibilita muita informação e também desinformação, por isso que o detalhe da palavra certa na busca, por exemplo, pode te levar à José Murilo de Carvalho ou a outro de Carvalho, o Olavo. Na atual conjuntura, observar, refletir e opinar deixou de ser tarefa lenta, pois mais vale a lógica fast food. E como estamos habituados a ver conclusões vergonhosamente precipitadas nestes tempos.

Não tem sido tarefa fácil se informar corretamente nestes tempos bicudos, pois a mídia dominante tem se esmerado em determinar os rumos da nação. No amplo apoio ao controverso processo de impedimento da democraticamente eleita presidenta Dilma, os veículos majoritários tiveram papel determinante, como era de se esperar dum oligopólio comandado por poucos e muito ricos, muitos dos quais também cresceram através da confusa relação entre o público e o privado. Estes, não a toa, venderam o impedimento como única saída à propagandeada crise interna vivida pelo país e também contra a terrível, quase mítica,  corrupção que nos assola desde sempre.

Associar o forte apoio da mídia majoritária ao controverso impedimento da Dilma, em especial quando rapidamente vemos substancial aumento no gasto com publicidade oficial justamente nas empresas de comunicação que mais apoiaram o processo de impedimento. Há muito a imprensa deixou de ser veículo de informação despida de interesse político e econômico de quem a controla, o que atinge sobremaneira seu mister informacional e intelectual.

Alguns creem que há supervalorização no papel da mídia na catapulta que tirou a Presidenta eleita, a estes, que parecem não conhecer a história recente do próprio país, são ainda mais valorosas as seguintes linhas escritas por Machado de Assis, se referindo à importância do jornal impresso, isto nos idos de janeiro de 1859[2]:

“O jornal, operando uma lenta revolução no globo, desenvolve esta indústria monetária, que é a confiança, a riqueza e os melhoramentos. O crédito tem também a sua parte no jornalismo, onde se discutem todas as questões, todos os problemas da época, debaixo da ação da ideia sempre nova, sempre palpitante. O desenvolvimento do crédito quer o desenvolvimento do jornalismo, porque o jornalismo não é senão um grande banco intelectual, grande monetização da ideia (…)”.

Ora, em 1859 sequer se pensava na existência da televisão, falar em internet, então seria o cúmulo do absurdo, de modo que o Bruxo enxergou no jornal uma enorme capacidade de revolucionar a informação, conforme escreveu na crítica “O jornal e o livro”, publicada no Correio da Manhã: “o jornal é uma expressão, é um sintoma de democracia; e a democracia é o povo, é a humanidade. Desaparecendo as fronteiras sociais, a humanidade realiza o derradeiro passo, para entrar o pórtico da felicidade, essa terra de promissão”.

O Bruxo, desta feita, errou. Tendo em vista que a imprensa  majoritária (dominante no campo dos jornais impressos, televisão e internet – com poder extremamente potencializado, portanto), não se prestou à romper as barreiras sociais e falhou clamorosamente na missão de ser um sintoma da democracia, basta lembrar dos editoriais à favor da ditadura, contra as diretas já e contrários à direitos sociais e dos trabalhadores etc.

Quando do início do processo de impedimento muitas vozes se levantaram para dizer que nossa democracia não suportaria mais um atentado, poucos ouviram, dentre os que ouviram, poucos respeitaram. Os apoiadores se diziam contra a corrupção, mas colocaram os mais corruptos para dela tratar e o que vê, ate a presente data, é a hercúlea luta de um grupo que ascendeu ilegitimamente ao centro do poder para se perpetuar onde estão, afinal, há um enorme butim a ser desmontado e muitas dívidas a pagar.

Também foram alertados que marchar ao lado de viúvas da ditadura e ressentidos de toda sorte não seria intelectualmente adequado e muito menos esteticamente útil. Não adiantou. Agora se arrependem e até ousam gritar fora, Temer. Ora, é temerário, é falso, e se assemelha ao trecho de Macunaíma[3], em que o nosso herói mergulha no tietê índio e de lá sai loiro de olhos azuis:

“(…) mas a água era encantada porque aquele buraco na lapa era marca do pézão do Sumé, do tempo em que andava pregando o evangelho de Jesus pra indiada brasileira. Quando o herói saiu do banho estava branco loiro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas”.

O brasileiro apoiador do golpe é uma revisita ao Macunaíma, com direito a toda malandragem do herói tupiniquim. Camuflados atrás da nossa bandeira agora fingem distancia do que apoiaram, contudo, não nos esquecemos e seguiremos apontando o erro cometido, ao mesmo tempo em que, devemos, em forte exercício de resiliência, buscar o diálogo.   

Entidades pra lá de suspeitas alimentaram a crença nos clichês antidemocráticos como “freio de arrumação”, “pausa democrática”, “instituições estão funcionando” (esta minha preferida), se justifica no velado interesse na queda do governo que tinha algumas características econômicas e sociais que os desagradavam. Ao que parece, os apoiadores da queda coadunavam de tais interesses, entretanto, assim como tais entidades, esqueceram de combinar com a Constituição, e acharam mais interessante combinar com o venal Parlamento, cujo principal interesse é e sempre foi o próprio.

Segue sendo aceitável que os apoiadores do golpe se redimam do o crasso erro cometido, e, nós que enxergamos o absurdo que se aproximava, ao invés de dobrarmos  nosso ressentimento, devemos tomar severas doses de generosidade pela manhã e chamar o amigo ao diálogo, no afã de confortá-lo e dizer, junto dele, FORA TEMER!

Raoni Vieira Gomes é Advogado, membro do ICCEP, Instituto Capixaba de Criminologia e Estudos Penais, especialista em Ciências Criminais.


[1] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 220p.

[2] ASSIS, Machado de. Balas de Estalo e Crítica. 1ª ed. São Paulo: Globo, 1997. 180 p.

[3] ANDRADE, Mário de. Macunaíma o herói sem nenhum caráter. 2ª ed. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2013. 237p.

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