João Trump, dissonância cognitiva na sociedade do espetáculo
Terça-feira, 31 de janeiro de 2017

João Trump, dissonância cognitiva na sociedade do espetáculo

O capital político angariado com a ação de marketing precede a avaliação dos efeitos concretos da ação política que está a ser realizada, sendo essa uma das consequências da sociedade do espetáculo. Por exemplo, podar uma árvore vestido de jardineiro é mais interessante para a foto que está sendo tirada e o quanto de “trabalhador” você consegue se mostrar, do que propriamente avaliar se algo de efetivo está sendo feito.

Quando desconhece o jogo de cena, acaba presa fácil. É curioso perceber como o racionalismo de desvencilhar a religião do estado deslocou os dogmas para a política, quebrando qualquer compromisso com a verdade. Dogmas esses sustentados por nossas vaidades de querer estar certo e, ao mesmo tempo, de refutar a dúvida para estar coberto de conforto – daí o sujeito prefere se ater a uma mentira compartilhada no Whatsapp, do que utilizar a própria experiência, escutar quem estuda o tema, ou mesmo procurar fontes confiáveis que possam ter apurado o fato com idoneidade.

João Dória ou Donald Trump no poder, sob o discurso de que não são políticos, mas bons empresários é o primeiro passo para perceber a dissonância cognitiva das pessoas sobre os fatos políticos. Ora, os homens parecem políticos, agem como um políticos, falam como políticos, estão em um partido, pedem votos e são eleitos. Se você disser que se trata apenas de empresários, falta a você capacidade básica de interpretação.

 

Na Psicologia, a dissonância cognitiva é entendida como o stress ou desconforto que percebemos quando temos duas ideias contraditórias ou incompatíveis, ou quando nossas crenças não estão em harmonia com aquilo que praticamos[1].

 

Se um indivíduo já possui uma crença prévia sobre determinado assunto e lhe é apresentada uma argumentação que vá contra essa tese prévia ou que demonstre alguma falta de lógica, ocorre a dissonância cognitiva. A percepção dessa dissonância pelo sujeito, mesmo se não for consciente, pode levar à ansiedade, culpa, vergonha, fúria, embaraço, stress e outros estados emocionais negativos. O que provoca em muitos casos que a pessoa negue as evidências e resolva manter a sua opinião dogmática, sem uma verdadeira reflexão, como forma de defesa do ego. [2]

Vamos a mais um exemplo. Desde os anos 1970 trabalha-se a mesma cultura de encarceramento em massa e a guerra às drogas. Não resolvemos nem um problema nem outro. E mesmo com uma imensidão de criminólogos, cientistas sociais e juristas afirmando que a solução não passa por mais punitivismo, ainda escutamos comentaristas aleatórios na mídia dizendo tudo que desde muitos anos sabemos que não funciona. Errar uma vez é humano, mas errar 40 anos seguidos é dissonância cognitiva ou maldade mesmo.

Com a opinião pública cada vez mais polarizada, maior a necessidade de deixar clara quais são as nossas intenções e nada melhor do que isso do que uma foto posada, um marco simbólico que identifique claramente a imagem que se queira passar. Se a imagem for fácil apreensão e a mensagem consistente, pouco importa a verdade. Quando o cidadão se deparar em um conflito que deverá optar pela realidade ou uma mensagem clara construída pelo marketing político ele provavelmente irá fazer uma escolha pela informação que mais o marcou. Por isso, Dória vestido de Gari marcou e muito!

São muitas as formas de se fazer demagogia com a imagem de um político. Quando Dória e Trump renunciam seus salários enquanto gestores, por exemplo, pense bem que quando compramos essa ideia nós estamos elitizando a condição de quem ocupa o cargo, mas não pensamos nisso. Afinal, se o sujeito não quer nem o salário dele, roubar que ele não vai. Falácia, dissonância cognitiva.

O problema começa a se intensificar quando o político tem a necessidade de provar o seu ponto sempre ligando uma ação a sua imagem. Então ele passa mais tempo trabalhando a superfície estética do problema, do que enfrentando a realidade. Muitas fantasias podem esconder muitas verdades. É claro que lidar com a imagem de Dória, perfumado e vestido de Gari é muito mais fácil do que enfrentar a verdade da condição social de quem varre o chão e tem umas das piores condições sociais do mundo.

Afinal, mais simples que resolver o problema, basta pousar para foto e conseguir uma bela capa de jornal. A tática funciona, já que as redações jornalísticas reduzidas não conseguem apurar tudo o que acontece por aí, nem mesmo acompanhar as mais básicas promessas políticas. Grande parte dos jornalistas e políticos passam o dia preocupados com a notícia do momento, sem rumo, perdidos na nau da modernidade líquida. E no mesmo barco encontramos as pessoas comuns, apenas preocupadas em comentar a notícia do momento em troca de alguns likes. Para estes muitas vezes também não importa a verdade, mas um texto bem marcante que garanta bons compartilhamentos.

O político em 2017 se aproveita politicamente de tudo, das campanhas alheias, do sofrimento, da história, da vida, do outro. É capaz de se fingir gari, mas não limpa o chão. Apaga grafites pela cidade inteira e depois diz que vai pintar novamente. Aumenta limites de velocidade nas vias urbanas provocando acidentes, mas o nome do programa é “Marginal Segura – baita novilíngua. Não importa a verdade, mas apenas a manchete, aquela chamada que garantirá ao político a estética de alguém trabalhador e que cumpre o que faz.

Muito se fez nos últimos dias de campanha de João Dória em São Paulo. Assim como Trump nos EUA, não há tempo a perder, cada dia é um novo clique, uma história, ou imagem a ser construída. Todos os dias na capa dos jornais eles são os políticos que contam as mentiras que queremos escutar. São marqueteiros que saciam o próprio e o nosso ego. Mas, na verdade, ninguém conseguirá desmentir que mais do que políticos, eles são artistas do entretenimento e você irá escutar mais de João Dória e Donald Trump do que irá escutar sobre São Paulo e EUA.

André Zanardo é diretor executivo do Justificando e advogado.


[1] Teoria desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Leon Festinger no início do Século XX.

[2] Extraído de: http://biucsproject.org/blog/justica-universal/dissonancia-cognitiva/

 

Terça-feira, 31 de janeiro de 2017
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