Ações de Doria são autoritárias e contrárias ao direito à cidade, afirma Raquel Rolnik
Quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Ações de Doria são autoritárias e contrárias ao direito à cidade, afirma Raquel Rolnik

Por Luciano Velleda da Rede Brasil Atual
Foto: Reprodução

A arquiteta e urbanista Raquel Rolnik acredita haver um denominador comum entre as principais medidas do prefeito João Doria (PSDB) em seu primeiro mês de mandato – aumento da velocidade nas marginais, aumento da tarifa de integração entre ônibus, Metrô e trem (barrado pela Justiça), combate à pichação e o pretenso confinamento da Virada Cultural no autódromo de Interlagos. Para ela, essas decisões apontam para um retrocesso em relação ao movimento que começou a ser feito, pelos próprios paulistanos, na área da mobilidade urbana e em outras, buscando humanizar os espaços públicos e permitir sua apropriação com atividades culturais e de convivência.

“A cidade para o carro vai na contramão do processo de apropriação da cidade pelas pessoas nas praças, parques e ruas”, afirmou ontem (13) à noite, durante audiência pública promovida pela vereadora Sâmia Bomfim (Psol), na Câmara Municipal, para debater o programa de zeladoria urbana da prefeitura, intitulado Cidade Linda.

Na avaliação de Raquel Rolnik, o movimento de ocupação do espaço público como vinha acontecendo está relacionado à “revolução” que teve inicio na cidade com a criação do Bilhete Único, em 2004, na gestão de Marta Suplicy, o que permitiu e ampliou a locomoção das pessoas pela metrópole. Para ela, a integração de ônibus, metrô e trem proporcionada pelo Bilhete Único, junto com o aumento da renda da população mais pobre ocorrida nos últimos anos, garantiu maior presença desses moradores na cidade. “Isso foi uma revolução porque elimina o confinamento histórico dos pobres e negros na periferia.”

Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), Raquel destacou durante a audiência pública os processos adotados pelo prefeito Doria na formulação de suas políticas e o conteúdo de cada uma. “É um processo autoritário, sem consulta, e o processo é fundamental”, afirmou. “O que acontece em São Paulo é fundamental para a construção de uma frente ampla de direito à cidade que possa canalizar as energias que estão presentes em muitos territórios da cidade. Não estamos só discutindo uma política que está sendo implementada, mas também a forma como são definidas e apresentadas, uma forma marqueteira e autoritária que exclui a maioria da população.”

Guerra e cinza

Sobre a declaração de guerra aos pichadores, promovida pela gestão Doria, a arquiteta e urbanista chamou atenção para o risco que se corre ao querer separar a ação dos grafiteiros e dos pichadores. “Estabelecer um limite entre os dois é cair numa armadilha ferrada. Os dois são a presença transgressora de quem é invisível e nunca se fez ouvir. São ações autônomas de artistas, cuja expressão grita na cidade. É isso que se quer borrar e pintar de tinta cinza.”

Para ela, o confronto aberto por Doria reflete uma posição cultural excludente, de quem não pensa a arte como processo autônomo, mas uma arte e uma cidade “totalmente subserviente ao mercado e não às necessidades da cidade”. “Por isso é importante rejeitar essa Cidade Linda”, afirmou.

A vereadora Sâmia Bomfim também criticou o conceito de zeladoria urbana do programa da prefeitura. “Qual é a nossa cidade linda? É a cidade que não tem machismo e onde negros e população LGBT tenham direito à vida.”

Ciente do momento histórico contrário às ideias progressistas, não só em São Paulo e no Brasil, mas no mundo, a parlamentar do Psol defendeu durante o debate que a sociedade deve se organizar para enfrentar o período adverso. ”É preciso construir a luta e a resistência na cidade de São Paulo, por mais difícil que possa parecer.”

*Esta matéria foi originalmente publicada na Rede Brasil Atual

Quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
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