A inacreditável história de Immaculée Ilibagiza
Terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A inacreditável história de Immaculée Ilibagiza

Foto: Reprodução/St. Joseph’s Academy

Há, para o ser humano, duas possíveis histórias de vida. A primeira é aquela infinitamente mais tradicional. É a minha história e, muito provavelmente, a sua. É história de dores e tragédias, alegrias e tristezas, amores e ressentimentos, perdão e ódio. É a história daqueles tantos que se dividem entre amizades e inimizades, entre nós e eles. É a história de tantas, tantas pessoas com que cruzamos pela vida. E é a história do nosso Estado e do tão conhecido sistema penal. Nós e eles.

Mas há, também, um outro tipo de história. Infinitamente mais rara. É a história daqueles raríssimos seres humanos que, forjados pelas dores da vida, aprendem a romper as barreiras mais imponentes colocadas entre tantos. Entre alegrias e tristezas, dores e tragédias. Entre nós e eles. Para esses raríssimos seres humanos, o que resta, ao fim, é apenas um pleno, incondicional e divino perdão.

É desse último tipo a história de Immaculée Ilibagiza.

Ruanda, 1972

Em Ruanda, há, historicamente, uma divisão de grupos étnicos. O grupo majoritário, os Hutus, choca-se sistematicamente com o grupo minoritário, os Tutsis. Mas, numa pequena casa de campo, numa pequena aldeia Tutsi, as coisas eram bem diferentes. Um ambiente bastante religioso, em que se viam circular pessoas de todos os grupos, indistintamente: Hutus eram ali absolutamente bem-vindos. Sem barreiras, sem combates. Nessa pequena residência em que barreiras inexistiam, nesse singelo oásis de paz num país em conflito, eram plantadas as sementes da história de uma menina que nascia em Ruanda.

Ruanda, 1994

Immaculée Ilibagiza já não era uma menina em 1994. Aos 22 anos, viu o confronto entre Hutus e Tutsis alcançar proporções aterrorizantes. Começaram a circular boatos de que a minoria Tutsi planejava ataques contra os Hutus. Em resposta, os Hutus, com o apoio do exército nacional – pois os Hutus eram o grupo no poder em Ruanda –, iniciaram a retaliação. Da maneira mais trágica possível.

Milhares de Hutus partiram em caçada contra os Tutsis. Um verdadeiro genocídio, que resultou em quase 1 milhão de mortos.

Immaculée Ilibagiza, Tutsi, lutou por sua vida. Fora de casa, encontrou abrigo na casa de um bondoso pastor Hutu, que concordou em escondê-la, junto com outras sete mulheres, num dos pequenos banheiros de sua casa – banheiro de 1,5 metros quadrados. O corpo de Immaculée, agora uma mulher de 1,80m de altura, dividia o pequeno banheiro do pastor, de 1,5 metros quadrados, com outras sete mulheres Tutsis.

Ela imaginava que ali ficaria por alguns dias. Dois ou três, talvez. Um pequeno e passageiro pesadelo, tinha certeza. Mas os dias passavam. As semanas passavam. Os meses passavam. Não dois ou três, mas 91 dias ali, num pequeníssimo banheiro, em absoluto silêncio – o pastor as proibiu, por exemplo, de ligar o chuveiro, dizendo ainda que apenas deveriam dar a descarga quando a descarga do outro banheiro da casa fosse acionada. Qualquer pequeno ruído poderia denunciá-las a quem estivesse nos arredores. E isso significaria seu extermínio.

Immaculée relata que, em uma das oportunidades em que os genocidas Hutus invadiram a casa do pastor em busca de eventuais Tutsis foragidos, ouviu a voz de um antigo colega de escola. “Já matei 399”, ele dizia, com orgulho. “Sinto que Immaculée está aqui por perto. Seria magnífico chegar ao número 400. Um bonito número”.

Amedrontada, relata como passava aqueles dias oscilando entre o medo extremo e o ódio absoluto. Imaginava-se saindo dali, fortalecendo o corpo, arranjando armas e partindo à caça de seus algozes. Imaginava a vingança consumada, a agonia de seus opressores, seus corpos mortos espalhados pelo chão.

A mudança

A imagem era viciante. Os corpos mortos de caçadores Hutus sob seus pés. Mas Immaculée notava que, a cada pensamento, seu semblante alterava-se, sua pulsação aumentava, seus músculos enrijeciam, seu estômago doía. “Tudo, tudo por conta dos pensamentos que alimento e a que me agarro”, ela notava. Ela notava, ali, o imenso poder de suas escolhas. Ela notava, ali, a imensa responsabilidade sobre sua própria vida, e as amplas possibilidades de transformar, a depender dos pensamentos que alimentava, aquele pequeníssimo banheiro em seu inferno particular. Ou em seu céu.

Immaculée passou a orar. Muitas vezes com dor no coração, orava. E passou a evitar as imagens vingativas que insistiam em vir. Mesmo aos gritos constantes de genocidas Hutus à porta do banheiro, a um passo de encontrá-la e executá-la, mesmo na rotina de 91 dias num pequeníssimo cubículo com mais sete pessoas, mesmo fraca a ponto de chegar a pesar menos de 30 quilos para seus 1,80 metros de altura, Immaculée buscava força. A força da fé e da paz. Acima de tudo, a força do mais pleno e irrestrito perdão.

“Veja minha própria mudança aqui dentro”, ela pensava. “Há algumas semanas, apenas passavam pela minha mente imagens da minha vingança consumada, dos corpos mortos dos meus inimigos, do extermínio dos genocidas. Hoje sei que posso transformar-me. Sei que posso fazer deste imundo e apertado banheiro meu templo particular. Sei que posso encontrar, no mais terrível inferno, meu próprio Paraíso”.

Então, veio-lhe a percepção decisiva: “E, se eu pude me transformar tanto, todos podem!”. Todos podem transformar-se. Se ainda agem como agem, movidos pela vingança bruta, pelo desejo de sangue, se ainda caminham pelas sendas da violência e do desrespeito, isso é porque, como disse Jesus, ainda não sabem o que fazem. Um dia o saberão. Um dia poderão trilhar outras sendas. Um dia conhecerão, dentro de si, forjados pelas dores da vida, a verdadeira capacidade de, irrestritamente, amar e perdoar.

Encontrando em si, concretamente, o mais amplo amor, Immaculée passou a enxergar, em cada ser humano, aquela mesma potencialidade. Isso lhe bastava. Isso basta aos grandes, aos enormes, àquelas raríssimas pessoas que constroem, na vida, as histórias mais bonitas. Histórias que, para nós, servem de guia e de enorme inspiração. 

Immaculée, após 91 dias, pesando menos de 30 quilos para seus 1,80 metros, viu-se novamente em liberdade, para descobrir que sua mãe, seu pai, seus irmãos e muitos outros de seus familiares e amigos haviam sido mortos pelos Hutus. Ela viu-se novamente em liberdade, para sair pelo mundo ensinando um pouco sobre o verdadeiro significado do perdão.

Bruno Amábile Bracco é Mestre e Doutorando em Criminologia pela USP, Defensor Público do Estado de SP, autor do livro “Carl Jung e o Direito Penal”.

Terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend