Tio, me dá uma grana
Quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Tio, me dá uma grana

Foto: Reprodução

Um menino parou à frente do carro e subiu em um cone, pedindo emprestado à CET, Companhia de Trânsito de São Paulo, que, para nós, motoristas, fechados em nossas cabines motorizadas, falando secreta e clandestinamente ao celular, serve apena para multar e para confundir o trânsito. Quando seus representantes uniformizados se postam nos semáforos, que aqui chamamos de farol, apagados à primeira possibilidade de chuva que houver.

Teorias da Conspiração muito bem feitas criam e recriam uma certa Indústria da Multa, seja lá o que for isso, quem sabe uma linha de produção de multas, sei lá. Eles se espalham por toda a cidade, ninguém sabe ao certo quantos seriam, até porque possuem a estranha capacidade de auto-reprodução. Atropelo seis aqui na esquina de casa e ressurgem doze, cinquenta metros à frente; mato os doze e encontro outros vinte e quatro no farol seguinte.

Cometo uma chacina pavorosa e lá estão, cinquenta ou mais, logo ali, em frente à padaria, multando quem tem um pouquinho de assim de nada de pressa. Para comprar um pãozinho quente, só um seu guarda, tenho uma tia paraplégica, uma gata prenhe e seis reais, além de uma luneta, que nem sei mais para que serve, uma luneta, em São Paulo. Que céu poderia ver?

Eles nos multam e estreitam avenidas por motivos enigmáticos, como um buraco, que atravessa oito bairros e catorze países diferentes. Sei de pessoas que caíram em buracos, aqui em São Paulo, e que nunca mais foram vistas. Uma delas, a última vez em que nos vimos, a injeção eletrônica era uma quimera. Ele caiu num buraco e nos reencontramos apenas na semana passada, no mesmo elevador, como se nada houvesse acontecido, ele não envelheceu, mas olhava de um jeito estranho, como se fosse alguém que conhecesse a anti-matéria. Não pareceu ter me reconhecido. Stress pós-buraco, pensei.

Uma conhecida caiu num buraco solteira e, quando saiu, trazia trigêmeos tri-vitelinos idênticos. Outro, saiu falando chinês, legendado, claro. Em cada um buraco, um marronzinho, afim de nos permitir despedir da família e do asfalto.

Os fiscais de trânsito de São Paulo podem ser encontrados em todos os lugares, achei dois, ante-ontem, no porta-luvas do carro. Cumprimentamo-nos e deixei-os, um no metrô e outro em uma igreja evangélica, onde fazia um bico de pastor ou vice-versa.

Mas, o menino. O menino subiu no cone e fez um discurso. Não equilibrou porra nenhuma nem dançou funk, ele fez um discurso. Não pediu nada, fez apenas um discurso, que não entendi bem. Verdade, não ouvi nada, porque tinha meus vidros fechados e pensava em algo infinitamente distante, como um texto sobre direitos humanos, por exemplo. O menino. Desceu e me pediu uma grana, pedido ilíquido. Como saber o que poderia ser uma grana? Uma grana, quem não precisa de uma grana? Tio, me dá uma grana. Uma grana, não tinha uma grana. Tinha lá uns quarenta e poucos reais, um cartão e um limite perigosamente próximo de cheque especial, próximo do fim, entenda-se.

Uma grana. Me diga quanto você precisa, supliquei. Ele parou. Refletiu profundamente. Quanto você pode me dar? Não sabia, dar dinheiro é algo que não faz parte de nosso cotidiano. Pedi a ele uma lista de prioridades, para que pudéssemos estabelecer uma ponte de entendimento. Quero não morrer de tiro, quero dar cafungadas mais tarde, quero que você vá para a puta que o pariu. Fiquei em terceiro lugar. Menos mal.

O marronzinho apitou e, com a educação própria dos fiscais de trânsito, gentilmente solicitou que eu pusesse meu carro em movimento. Vai, caralho! Fui. Pelo retrovisor, vi que ele anotava minha placa. Minha centésima sexagésima oitava multa do dia, antes passei a 32 km/h no limite de 30, entrei pela faixa do busão, parei no farol, mas belisquei meio centímetro da faixa de pedestres, falei ao celular, enfim, existi. Ah, minha lanterna traseira esquerda estava queimada.

Segui meu dia. Trabalho logo ali, no terceiro buraco, à esquerda, segundo sub-solo, sala 201-B, à disposição.

Entre sem cair.

Roberto Tardelli é Advogado Sócio da Banca Tardelli, Giacon e Conway. Procurador de Justiça do MPSP Aposentado.

Quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
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