Narrativas ecofeministas
Quarta-feira, 8 de março de 2017

Narrativas ecofeministas

Foto: Reprodução/Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda Adichie, escritora nigeriana, nos aponta os perigos de uma única história, que contada por meio de relações de poder reduz a realidade e silencia narrativas. Por sua vez, Walter Benjamin, em sua obra “Teses sobre o conceito de História”, lançado nos anos 1940, nos propõe que a história seja escovada a contrapelo e que deva ser contada sobre outras perspectivas: a dos vencidos. No Chile, durante a Ditadura de Pinochet, mulheres contaram suas histórias de opressão por meio do bordado livre em sacos de farinha ou batatas. Por meio destas tramas, as arpilleras romperam o discurso único do vencedor e contaram a história das vencidas.

No Brasil, as mulheres atingidas por barragens tecem há anos arpilleras para denunciar as violações de direitos humanos decorrentes dos impactos e danos socioambientais que cotidianamente enfrentam pela construção de hidrelétricas e outros megaempreendimentos. Em 8 de março de 2006, duas mil mulheres ocupam um viveiro de mudas de propriedade de uma grande empresa de celulose no Rio Grande do Sul para denunciar os desastres ambientais produzidos pelas monoculturas. Em 2014, em meio à crise hídrica no Município de Itu um grupo de mulheres protestou em frente à Prefeitura. Em março desse ano, no dia 6, mulheres militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) ocupam o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) da capital baiana para fazer garantir seus direitos de acesso à terra. No dia 8, camponesas realizam a VIII Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia na cidade paraibana de Alagoa Nova.

O que esses relatos têm em comum é que contam uma série de histórias apagadas no modelo de sociedade patriarcal e capitalista contemporâneo.

Estas mulheres escovam a contrapelo a história para escancarar as inúmeras formas de a mulher se relacionar com o meio ambiente em que estão inseridas. Estas narrativas rompem o poder do discurso único de progresso, como propõe Benjamin.

Para que não cometamos o mesmo erro de contar uma história só, cumpre pontuar desde já que não há apenas um discurso sobre mulheres e meio ambiente. Tal qual para os feminismos, aqui tratamos de ecofeminismos, termo que surge em 1974 do ensaio literário “Le féminisme ou la mort” de Françoise D’Éaubonne. Sem pretensão de esgotar as inúmeras vertentes destes movimentos políticos, salientamos que ele se manifesta das mais variadas formas. Assim, se de um lado, há determinados movimentos que trazem os ideários do feminismo para dentro de históricos quadros de militância socioambiental, como é o caso das mulheres do MST; de outro, surge um novo movimento, em que há imbricações de gênero e ambientalismo mais fortes, o ecofeminismo.

Na década de 1970, com a efervescência de movimentos feministas, pacifistas e ambientalistas, surge a primeira vertente do ecofeminismo que, de acordo com as divisões propostas pelas sociólogas Iriê Prado de Souza e Martha Celia Ramírez-Gálvez,  recebeu o nome de corrente clássica. Aquelas mulheres denunciaram a naturalização da mulher como um dos mecanismos de legitimação do patriarcado, bem como apontaram a obsessão de poder masculina como vetor de destruição do planeta. Sob este ponto de vista, haveria uma ética feminina de proteção dos seres vivos que se opõe à essência agressiva masculina.

Outras vertentes narram outra relação das mulheres com a natureza, em visões que se denominaram espiritualistas. Esta tendência afirma que o desenvolvimento da sociedade gera um processo de violência contra a mulher e contra o meio ambiente, tendo suas raízes nas concepções patriarcais. O ponto de convergência destas correntes é a percepção de que espiritualidades e símbolos feministas, baseados na Terra (Gaia e Deusas), são essenciais para o ecofeminismo.

Outra vertente que podemos abordar é o ecofeminismo construtivista, que, diferentemente das vertentes anteriores, critica a relação das mulheres com a natureza. Para estas ecofeministas, esta relação não está associada a características próprias do sexo feminino, mas é produto do modelo de sociedade patriarcal que estabelece determinadas responsabilidades para a mulher na economia familiar, por meio da divisão do trabalho, da distribuição do poder e da propriedade.

Seja qual for a vertente que narra esta história, é evidente a interseccionalidade das lutas socioambientais e feministas. Mulheres e crianças geralmente sofrem mais com a escassez de água, visto que são responsáveis por coletar água percorrendo muitas vezes longas distâncias. As mulheres são na maioria das vezes as responsáveis pela agricultura familiar, sofrendo fortemente com a contaminação do solo, uso de defensivos agrícolas, etc. A infertilidade, o câncer de mama, a microcefalia gerada pelo vírus Zika com a falta de controle dos vetores de transmissão. A catação de materiais recicláveis e reutilizáveis no Brasil é uma atividade tipicamente de mulheres.

Dentre tantos outros exemplos de como as mulheres são agentes socioambientais ou sofrem mais diretamente os impactos da degradação ambiental. Daniela Roseno nos apresenta o caso do movimento Chipko de mulheres que evitou o desflorestamento de grandes áreas na Índia de 1974. E por que um movimento de mulheres? A autora destaca que no hemisfério Sul as mulheres são mais dependentes das florestas do que homens, mulheres  possuem maiores restrições ao acesso à terra e ao crédito, bem como são mais prejudicadas nas questões comerciais relacionadas às florestas.

A construção cultural do papel da mulher no espaço doméstico de criação dos filhos, manutenção do lar e produção do alimento, a divisão social do trabalho que muitas vezes coloca a mulher em maior contato com o meio ambiente, como na agricultura familiar, o modelo patriarcal de opressão de grupos vulneráveis que estabelece a exploração da natureza e da mulher, dentre tantos outros fatores, aproxima a luta feminista da luta ambientalista nas suas mais diversas vertentes. As abordagens ecofeministas atuam, portanto, em uma abordagem social do ambientalismo, construindo com outras demandas o socioambientalismo contemporâneo. Junto de outros grupos marginalizados e que sofrem com a distribuição desigual dos danos ambientais, as ecofeministas lutam para que outras histórias sejam narradas, para que a história seja escrita a contrapelo.

Carolina Corrêa Moro é advogada e pesquisadora em São Paulo, mestranda em Direito Civil com ênfase em direito ambiental pela Universidade de São Paulo. Gabriel Antonio Silveira Mantelli é mestrando em Direito e Desenvolvimento na Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Quarta-feira, 8 de março de 2017
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