Babá ou esposa? O preconceito sistêmico que a dúvida revela
Segunda-feira, 13 de março de 2017

Babá ou esposa? O preconceito sistêmico que a dúvida revela

Corria sem problemas a entrevista via Skype de Robert Kelly, professor de Relações Internacionais do Departamento de Ciências Políticas e Diplomacia da Universidade de Pusan (Coreia do Sul). Contudo, enquanto respondia às indagações do entrevistador sobre a instabilidade política no país asiático, irrompe no escritório sua filha de quatro anos, sucedida por seu outro filho que, em um andador, entra também na transmissão seguido por uma mulher que desesperadamente os recolhe do cômodo enquanto o entrevistado se contem meio a pedidos de desculpas. O vídeo, obviamente, viralizou de forma vulcânica, tomando as redes sociais na semana que passou.

A intervenção inesperada de duas crianças em uma entrevista acerca de um tema politicamente relevante e a agilidade com que a mulher as retira do quarto revelou muito mais que uma situação inusitadamente engraçada: muitos dos usuários das redes sociais supuseram que a mulher, de traços asiáticos, seria a babá das crianças quando na verdade se tratava da mãe delas, esposa do entrevistado.

Tal suposição certamente se repetiria caso se tratasse de uma pessoa de origem latina ou africana, revelando o preconceito relacionado, sobretudo, à noção de que trabalhos considerados subalternos como o de babá seriam próprios de imigrantes não-brancos oriundos dos chamados países periféricos. A própria presença de Kelly, branco e europeu, sustenta o estigma de que Jung-a Kim, uma professora de yoga casada há anos com ele, estaria ali como uma empregada da família e não como esposa e mãe de seus filhos – sem esquecer obviamente do recorte de gênero, que também pré-estabelece a posição da mulher nesta divisão social do trabalho, e do fato de ser Kelly, docente em uma universidade sul-coreana, o imigrante no caso em questão.

Indo além da dimensão subjetiva do preconceito, onde se aloja a questão moral referente à açodada e irrefletida conclusão de que a uma asiática nesse contexto só cabe o papel de babá ou ofício correlacionado, é pertinente que tenhamos em mente que o preconceito não se explica por si só ou, em outras palavras, não é fruto único de reflexões morais que nascem e terminam unicamente nas cabeças das pessoas.

Há condições materiais, históricas e objetivas que formam – e deformam – a forma com que vemos o mundo, incutindo-nos, por meio de expressões ideológicas invisíveis aos olhares incautos, o pacote de valores hegemônicos que terminam por influir diretamente na construção de nossa personalidade. Crentes de que somos soberanos de nós mesmos, resistimos em enxergar os grilhões que criam e mantêm uma racionalidade limitada aos nossos próprios umbigos.

Sobre esta racionalidade, Platão ensina que o que separa os seres humanos da animalidade é a presença da alma. Uma das partes desta alma é responsável pela função pensante, racional, soberana a todas as demais funções do corpo, estando, por isso, completamente desconectada da matéria. Esta alma, assim, se encerra em sua própria superioridade pensante, não tendo qualquer relação com as causas materiais ao nosso redor.

A interpretação do mundo oriunda da alma e sua superioridade aos desejos e apetites que caracterizam condutas puramente instintivas seriam, segundo Platão, as provas de que o nosso pensamento não é resultado da matéria, dos acontecimentos históricos e das nuances sócio-políticas e ideológicas construídas nesse contexto. Trata-se de uma visão idealista, característica do ideário platônico com o qual frequentemente se confunde.

De acordo com esta perspectiva, o marco zero da produção do pensamento e da concepção que temos do mundo – incluindo nossos preconceitos – não possui relação com o mundo material, o que levaria à conclusão de que o preconceito, em suas mais diversas formas de manifestação, se resume a uma questão simplesmente moral, individual e particular.

A grande questão, todavia, gravita em torno da seguinte indagação: quais são as causas materiais que nos levam a achar, em determinados contextos, que a divisão social do trabalho, o subemprego e a precarização se destinam fatalmente a pessoas asiáticas, negras e latinas, principalmente do gênero feminino? Esta visão surge e se desenvolve por si só, de forma atomizada na cabeça de cada qual, ou há uma matriz atmosférica e ideológica que, de modo objetivo, condiciona nossas subjetividades a tomar determinados rumos?

Para responder a estas questões é importante levarmos em consideração o processo histórico de formação sócio-econômica que caracteriza a relação dos países centrais e periféricos do capitalismo; enquanto estes em regra passaram por processos brutais de espoliação colonizadora, onde muitos dos quais tiveram a dissolução formal das relações coloniais ainda na segunda metade do século XX, o outro lado da moeda corresponde à rapinagem de recursos naturais, a escravização da mão-de-obra e um modus operandi bélico e genocida de subjugação de nações inteiras aos interesses imperialistas europeus não raro em nome do livre-mercado, a exemplo da sanguinolenta colonização belga no Congo e das extorsivas guerras do ópio promovidas na China pela Inglaterra em um contexto no qual a acumulação primitiva de capital e o lucro do comércio de seres humanos criaram as condições necessárias para o surgimento da máquina a vapor e as consequentes revoluções industriais que se seguiram.

Se nos séculos XVIII e XIX os europeus povoaram o mundo, agora é o mundo que está a povoar a Europa, conclui Gideon Rachman, especialista em política internacional do Financial Times em um artigo que, malgrado seu indisfarçável eurocentrismo, parte de premissas corretas como a de que a atual migração de africanos, árabes e asiáticos para o continente europeu representa o reverter de uma tendência histórica iniciada com o imperialismo – caudatário da visão racista que prega a superioridade moral, civilizacional, científica e étnica do branco europeu em relação aos demais povos, principalmente os do sul do planeta.

É importante termos em mãos estas informações históricas não apenas para desmistificarmos a visão preconceituosa de que determinados ofícios se destinam naturalmente a imigrantes ou a pessoas de origem não-europeia, mas também para desconstruirmos a concepção de que este preconceito tem um fundo puramente moral, individual e alheio às circunstâncias históricas em que se desenvolveu a expansão a fórceps do modo de produção capitalista em sua expressão imperialista europeia sob a pretensa justificativa de civilizar povos considerados primitivos, conforme o próprio Rachman também conclui.

A famosa metáfora da cerejeira, trazida por Marx e Engels em A Ideologia Alemã, torna evidente como o idealismo não apenas está longe de ser auto-explicável como é insuficiente para extrair os significados das representações do mundo em nossa volta: enquanto um olhar superficial sobre a cerejeira em solo europeu a vê tão somente como uma árvore frutífera, um olhar de maior profundidade histórica e filosófica partirá do pressuposto de que, não sendo nativa, veio parar ali como resultado das relações comerciais entre diferentes países em determinada época.

Se acharmos que o preconceito que levou à conclusão sumária de que Jung-a Kim era a babá, e não a mãe das crianças, está divorciado das condições históricas e materiais que o envolvem, estaremos reproduzindo uma visão idealista, privatista, moral e sobretudo conservadora, pois ao não abordarmos o mal pela raiz acabamos por mascarar as origens sistêmicas e estruturais de uma divisão social fundamentada numa exploração cada vez mais impiedosa da força de trabalho e com nítido recorte racial e de gênero, pressupondo equivocadamente que basta mudarmos individualmente de mentalidade para que o mundo também mude.

Acontece que deixar intactas as engrenagens que movem o moinho de moer gente responsável por deixar o mundo como é hoje é contribuir para que a névoa ideológica continue sem qualquer embaraço a limitar nossa percepção do problema a dois palmos dos nossos narizes.

Gustavo Henrique Freire Barbosa é advogado e professor.

Segunda-feira, 13 de março de 2017
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