Quem quer ser uma pessoa negra?
Quarta-feira, 29 de março de 2017

Quem quer ser uma pessoa negra?

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), disse certa vez em um evento oficial, todo sorridente, que tinha um “pé na cozinha”, referindo-se a sua possível mestiçagem.

“Somos todos humanos” virou jargão de globais, em uma emissora de TV que contribui desde 1964, ano em que foi fundada, com a desvalorização, apagamento, exclusão e estereotipificação de pessoas negras tendo entre outras coisas, colaborado ativamente, através de sua grade de programação e telenovelas racistas, para a consolidação do mito da democracia racial.

“No Brasil ninguém é branco” disse a cantora Anitta quando confrontada em óbvia atitude de afroconveniência, pois, sendo visivelmente uma pessoa embranquecida e que negou e nega suas origens para se adequar ao padrão brasileiro racista, lança mão da mestiçagem quando lhe convém, coisa muito rotineira com não brancos brasileiros.

“Sou preta de pele branca” berrou Daniela Mercury de cima de seu trio elétrico, devidamente ‘fantasiada’ de mulher negra, numa suposta homenagem a grande Elza Soares.

Elza Soares, cantora cuja trajetória sofrida, marcada por todos os efeitos da dupla  opressão “machiracista”, reafirma em uma música que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Ela, como muitas figuras negras do meio artístico nacional, esteve por mais de uma década no ostracismo midiático, sendo resgatada artisticamente por Caetano Veloso ainda nos 80, com a gravação do clássico “Língua”:

“ Flor do Lácio, Sambódromo

   Lusamerica latina em pó.

   O que quer,

   o que pode essa língua?”

Aos 78 anos, consolidou-se definitivamente como figura central na cena da música brasileira, se tornando pela sua história de luta um símbolo de força e resistência da mulher negra na América.

Daniela nunca quis homenageá-la. Não sabe de sua história e muito menos da importância de sua imagem mítica como legado e fortalecimento das mulheres de pele preta no Brasil.

Daniela agiu como todo branco que luta arduamente para disfarçar o próprio racismo: silenciou a dor de toda uma camada social que vive o apagamento, a exclusão e a violência sistemática em nome de sua dificuldade em lidar com a culpa por se saber privilegiada pela cor da sua pele.

Não passou pela cabeça da cantora baiana, os problemas identitários que circunda a comunidade negra, graças ao colonialismo das mentes que ainda propaga estereótipos negativos sobre nossa imagem. Problemas esses, que inclusive, impedem muitos negros de assumirem que são negros, e até de falar que sofreram e sofrem racismo, mesmo em situações óbvias.

Pessoas brancas em geral, sabem que são privilegiadas, mas precisam ignorar essa verdade, pois isso significa ter de se repensar e questionar se estão em um determinado lugar porque tem capacidades ou se porque no trajeto puderam contar com a eliminação institucional de pessoas negras aliadas ao favorecimento corporativo que a cultura brancocêntrica mantém naturalmente, silenciosamente. E continuam oscilando entre o masoquismo que mantém a culpa e o sadismo que cutuca feridas negras em nome do orgulho e do narcisismo que envolve os sentimentos de supremacia que essa camada social internalizou

É evidente que Elza merece todas as homenagens possíveis, pelo seu insubstituível talento e pela sua bravura no enfrentamento das mazelas de viver dentro de uma pele negra.

Mas, homenagens se fazem, primeiramente colocando a pessoa homenageada no lugar central e não em uma caricatura empobrecida e imbecilizada.

Esse caso, em específico, embora ocorrido em um momento cronológico já distante, não deixa de ser atemporal, pois racismo tem corrido solto no tempo e no espaço onde a supremacia branca se construiu.

Então, ampliamos a discussão para além dos equívocos e cinismos da cantora baiana branca, já que a atitude dela, diz muito mais do parece sobre a mentalidade do branco brasileiro.

James Baldwin no brilhante documentário ‘Eu não sou seu negro’ desnuda o ponto crucial das relações raciais entre brancos e não brancos:

O branco é uma metáfora de poder

 Essa metáfora, extrapola os limites das questões identitárias, políticas e sociais, pois é um delírio coletivo. Quem ousa acordar pessoas brancas desse transe é violentamente atacado, de todas as formas possíveis e imagináveis.

O genocídio da juventude negra é uma resposta a tentativa de conferir lucidez e senso de unidade as pessoas brancas. Elas respondem promovendo o apagamento definitivo, já que o apagamento sistêmico, sozinho, não tem dado conta de exterminar a negritude desse país. E por que os jovens negros são alvo?

Um dos motivos, o mais lúdico, é que a juventude tem gana, garra e o ímpeto natural desse período da vida e a ancestralidade se faz presente, incontrolável e, se mostrando altiva em um movimento contínuo de busca por valorização e autoafirmação de suas existências, ainda que muitas vezes inconscientemente.

“(…)No Centro da cidade as grandes galerias,
seus cabeleireiros e lojas de disco,
mantém a nossa tradição sempre viva.
Mudaram as músicas, mudaram as roupas,
mas a juventude afro continua muito louca.
Falei do passado e é como se não fosse,
pois eu vejo a mesma determinação no Hip-Hop
Black Power de hoje.

É extremamente curioso para um sistema racista que utiliza diversas estratégias para o subjugo de pessoas negras, a exaltação de uma cultura ancestral que propicia o resgate da autoestima da negritude. Curioso e ofensivo, pois fere os princípios da metáfora de poder que a branquitude tenta manter a todo custo. Em geral, pessoas brancas gostam que a iniciativa de alguma valorização da negritude parta delas, pois isso lhes soa como um presente, um bônus usado como barganha pelo nosso silêncio e nossa aprovação a sua suposta bondade. Como a figura do pai João recebia, ao tomar para si a responsabilidade das punições empregadas pelos seus senhores contra ela mesmo.

Outra forma de violência velada, que pessoas brancas lançam no roll de suas estratégias racistas é o famoso token. Essa atitude odiosa de se usar pessoas negras como escudo quando são surpreendidos em atitudes explicitamente racistas. A cantora baiana sabia muito bem o que estava fazendo, quando chamou o casal afro mais notado e respeitado do Brasil para proteger sua atitude equivocada e racista. Toda pessoa negra sabe o quanto pessoas brancas são cruéis com nossos brios e sentimentos, ao nos manter por perto quando convém. É doloroso, pois brincam com nossa confiança, já que quando nos relacionamos amigavelmente com pessoas brancas, em geral, estamos sendo sinceros.

Mas essa sinceridade, grosso modo, não é recíproca. É mais uma forma de manter a supremacia branca, no campo das relações sociais. Esse é um dos motivos que me levam a convicção de que devemos superar a representatividade, enquanto conceito e partir para a exigência da proporcionalidade. Uma ou duas pessoas negras em meio a uma consolidação de representação branca, acaba sempre deixando essas pessoas negras, vulneráveis as mais diversas estratégias racistas, das mais sutis as mais escancaradas e nunca podemos provar, pois estamos quase sempre sozinhos em grande parte dos espaços.

Houve quem lançou mão das supostas contribuições de cantora, para a exaltação da cultura afro-brasileira.

Eu digo que nenhum negro deve agradecimento a qualquer branco que exalte nossa cultura ancestral, pois ao fazê-lo estão capitalizando em espécie e em prestígio, numa reafirmação óbvia dos privilégios que a branquitude reserva para si, já que sabemos que negros exaltando sua própria cultura não obtém o mesmo resultado e notoriedade.

Pessoas brancas que apoiam as lutas negras, são as que estão dispostas a empreender iniciativas sérias no sentido de romper com a lógica que mantém a população negra na base da pirâmide social, no banco de espera das decisões políticas, no limbo da atuação da justiça, no vazio identitário propagado pelo sistema educacional, na exclusão dos espaços de poder e decisão, na segregação grotesca do mercado de trabalho, da reafirmação dos estereótipos negativos propagados pelos meios de comunicação etc.

Pessoas brancas que realmente apoiam a luta negra, parafraseando a dona do mais conhecido quilombo urbano de São Paulo, Erika Malunguinho, produzem práticas anti-racistas a começar por si mesmos e seus meios de interação social, promovendo a desconstrução das internalizações da sua metáfora de poder e reconstruindo o pensamento inclusivo de verdadeira igualdade de oportunidades e direitos.

É necessário ouvir, mas sobretudo, é necessário olhar para dentro de si e se enxergar inserido em um sistema altamente permissivo para com a pessoa branca, proporcionando tudo que nos é subtraído, inclusive a afirmação identitária. Daniela, sendo branca, pode dizer que é negra, debaixo de aplausos e admiração de uma legião de abduzidos pelos privilégios, envoltos pela brisa da metáfora de poder que os construiu narcisistas e segregacionistas.

Nós, negros e negras, ao contrário das pessoas brancas, não podemos nos afirmar em nossa própria identidade, pois quando o fazemos somos duramente atacados pelas mais diversas formas de genocídio, cujo mais notável é o físico.

Não podemos nem ao menos, exaltar nossas origens ancestrais de maneira assertiva, porque ainda nos primórdios da brisa da metáfora de supremacia racial branca, um embriagado que se dizia abolicionista, com a desculpa de apagar as informações sobre a compra de escravizados para apagar a covardia da exploração que se deu no período colonial, queimou nossas comprovações e documentações que hoje, poderiam nos dar pistas de quem de fato somos. Não é mesmo Ruy Barbosa?

Como bem sabemos, os apoiadores das lutas negras, se descortinam como mantenedores de privilégios próprios desde tempos passados e usam de subterfúgios e argumentos tão frágeis quanto seus egos brancos alimentados pela metáfora de poder que criaram para si.

Também houve uma mistura de assuntos e conceitos, porque convenhamos, as pessoas brancas se recusam a sair da própria centralidade para se envolver em qualquer tipo de assunto que exija o mínimo de desprendimento de sua condição de privilegiado. Sempre tem alguma pessoa branca que justifica um “black face” ou uma piada racista, alegando não saber, não ter acesso.

O caso Daniela Mercury, vai muito além da questão da apropriação cultural, esse braço bem sucedido da prática racista de branqueamento da população não branca em geral, já que não é só a pessoa negra e sua cultura que são usurpadas em benefício da supremacia branca, outras representações sociais, como os indígenas, também são.

Estamos refletindo, pelos caminhos de Abdias Nascimento e Lélia Gonzáles que apontam que as violências e genocídios empreendidos entre a população negra são diversos e atuam de diversas formas. Nesse caso, o genocídio é identitário.

Percebam que a não afirmação identitária da pessoa branca, quando dizem que “somos todos humanos” é um modo de anulação das outras raças e das suas respectivas existências, evitando também forçar uma discussão sobre a soberania imposta pela raça branca, que em geral se pensa única e universal, embora não diga.

O medo do confronto racial é latente nas pessoas brancas, pois mexe entre outras coisas com o ego fragilizado pela culpa.

E tudo é feito no sentido de evitar, consciente ou inconscientemente esse confronto, ainda que as outras existências raciais o façam evidenciando intenções de diálogos pacíficos. Mas, até que ponto, pessoas brancas que se reivindicam negras ou que dizem sermos todos iguais, estão dispostas a compartilhar realmente das nossas vivências de oprimido?

Quanto tempo, pessoas brancas aguentam, dentro do lugar social que elas próprias criaram para as pessoas negras e, em que condições psicológicas elas conseguiriam sobreviver dentro da estrutura opressora que elas criaram?

Será que a cantora baiana, branca de alma negra, está disposta a chorar a morte do menino João Vitor, espancado por seguranças de uma famosa lanchonete na periferia de São Paulo e incluso na desculpa perfeita criada pela mentalidade punitivista, de que era usuário de drogas?

Será que nosso ex-presidente, em vez de exaltar seu pé na cozinha, estaria disposto a viver a dura realidade de extermínio de meninos e jovens negros, nas periferias e áreas favelizadas espalhadas pelo Brasil afora ou das moças negras nos sistemas de saúde e penitenciário?

Será, que as pessoas que dizem sermos todos humanos estariam convictas de que seus lugares sociais de privilégio e poder social seriam mantidos, caso elas decidissem, de fato, serem negras, já que sendo brancas insistem em negar a existência do racismo? Quem quer ser uma pessoa negra?

Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.

Quarta-feira, 29 de março de 2017
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