Os paneleiros podem ser a salvação do Brasil?
Quinta-feira, 30 de março de 2017

Os paneleiros podem ser a salvação do Brasil?

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Em face da maré de retrocessos imposta pelo governo interino de Temer, vários direitos da população brasileira ameaçam ruir junto com nossa democracia. O processo histórico que desencadeou o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff contou com a soma de várias forças políticas: da bancada parlamentar de Eduardo Cunha, ao financiamento da FIESP, passando pelo apoio das grandes empresas de comunicação, e até os movimentos sociais de direita, como o MBL e o Vem pra Rua.

Um elemento crucial para esse processo foi o manifestante de camisa amarela. Muito caricaturizado e vilificado por vozes da esquerda, esse personagem possui uma complexidade maior do que a fachada expõe. Inchando as fileiras de um movimento cuja base ideológica é elitista e conservadora, foi esse personagem que recebeu o grosso da culpa pela divisão do país, pela erosão da democracia, e pelo desmonte dos direitos que se seguiu.

O imaginário da esquerda visualiza-o como coxinha, paneleiro, camisa-amarela. Ele é a encarnação da classe média rançosa. Aquele branco, rico, que batia a panela importada em sua varanda gourmet, provavelmente enquanto a empregada cuidava das crianças. Esse coxinha caricato não gosta de pobre em aeroporto, e incorpora o intervencionismo militar, o racismo, machismo e a LGBTfobia da população brasileira.

Tal narrativa, perpetuada pela esquerda combativa, ignora a complexidade demográfica do grupo que foi às ruas em 2015, e mascara uma realidade importante: alguns dos paneleiros de 2015 fizeram a diferença na eleição de Lula em 2002, quando o então candidato moderou sua fala para ser palatável a setores da classe média. Muitos dos que vestiram o amarelo da CBF ascenderam à classe média com a transferência de renda implementada nos governos de Lula e Dilma. Foi essa classe média que engrossou o caldo das ruas nas convulsões sociais de 2013. 

Ou seja: é uma classe média é muito mais próxima da classe trabalhadora tradicional do que ambos os lados gostariam de admitir.

O machismo, racismo e a LGBTfobia estão no Congresso Nacional, nos ministérios de Temer, e certamente na classe média, mas se engana quem venda os olhos para não falar dessa mazelas na classe trabalhadora, na periferia, e mesmo dentro da própria esquerda. Os cânticos de “não passarão” da ala progressista obtiveram uma resposta enfática nas eleições de 2016: as lideranças retrógradas conseguiram ganhos consideráveis entre a população mais pobre. Com domínio da comunicação em massa, e na falta de política de educação para a cidadania, uma esquerda sem didatismo antagonizou os pobres, entregando-os na mão dos demagogos.  

A política identitária exagerada deve ser repensada. Mais do que escolhas acertadas, a defesa do feminismo, da igualdade racial e da livre orientação sexual são vitais para a integralidade do projeto de esquerda. Porém, devem ser abraçados pelo mainstream de forma coerente, e é inegável que isso pressupõe uma didática mais terna para com aqueles na classe trabalhadora que ainda não se livraram desses preconceitos.

Da mesma forma, devemos estar abertos à existência de pessoas que, apesar de não serem racistas, machistas ou LGBTfóbicas, marcharam ao lado de movimentos que perpetuavam esse discurso nas manifestações pró-impeachment, e considera-las aliadas pedagógicas na erradicação do discurso de ódio e discriminação em nosso país.

Muito se fala do ressurgimento da organização popular na resistência contra o retrocesso de Temer. Certamente será um fator crucial. Mas há outro: a esquerda moderna na Europa e América do Norte entendeu já faz tempos que com a transição de suas economias para as indústrias tecnológicas e de serviços, a classe trabalhadora perdia muito de suas características tradicionais.

Esse entendimento fez com que Tony Blair elevasse o Partido Trabalhista no Reino Unido, e possibilitou a ascensão meteórica de Justin Trudeau no Canadá. Mesmo Bernie Sanders, fenômeno enquanto candidato socialista à primária democrata, dedicou vários segmentos de sua plataforma para falar das dificuldades enfrentadas pela classe média.

O modelo de luta marxista tem que dialogar um pouco com os ensinamentos não-violentos de Gandhi e King. Isso pressupõe amar o adversário, ou ao dialogar abertamente com ele, por mais equivocados que estejam.

Mesmo que apenas na teoria, vamos cogitar a existência de quem bateu sua panela por causa da crise econômica, ou por estar cansado da corrupção que ilustra o noticiário. A esquerda tem propostas e condição para fazer esse debate. É possível apresentar alternativas viáveis à austeridade de Temer, e encaixar o sintoma da corrupção ao sistema político doente que temos hoje.

Se nossa ótica é olhar o mundo na perspectiva de direitos humanos, isso deve ser feito de forma universal, interdependente, inter-relacionada. Isso significar enxergar a insatisfação de 2015 e 2016 também em termos de direitos negados, e propor medidas que ressoe também junto a essa população.

A conjuntura golpista aproveitou-se de uma esquerda voltada para si, confiante nos sucessos das gestões Lula e Dilma. Na resistência ao golpe, a esquerda focou seus esforços na militância uniformizada, discursando para si mesma, enquanto o aparato golpista levava os jovens, as donas-de-casa, os grupos de igreja ao seu primeiro protesto público.

Enquanto chamávamos de “analfabeto político” quem até então não se interessava por política, a direita esperava com a camisa da CBF e uma coreografia de micareta pronta. Souberam buscar público onde não havia, aproveitando o esforço midiático de simplificar o problema da corrupção. Prevaleceram.

Esse tipo de adesão, porém, não é perene: está aí o fracasso do MBL como prova. Muitos que bateram panela eventualmente entenderam que também são trabalhadores. Estão no mesmo barco na questão da terceirização, da CLT e da previdência. Entre jovens estudantes de direito, jovens médicos, pequenos e médios empreendedores, a crise e o retrocesso são lembranças reais da importância de uma democracia e de um Estado social.

Vivenciamos uma reforma que beneficia os ultra-ricos, aniquila os pobres, e prejudica também os trabalhadores de colarinho branco, os pequenos e médios empreendedores, a juventude e os idosos.

Em um mundo onde o 1% predomina sobre os 99%, tanto a esquerda quanto os paneleiros têm que atualizar sua definição de “elite”.

A questão é: se nosso amigo paneleiro não está mais na Paulista com o MBL, onde ele está? Se retornou ao marasmo da vida apolítica, quem o trará de volta? A esquerda terá condições de dialogar com o eleitorado de trabalhadores da classe média, falando seriamente sobre corrupção, segurança pública, qualidade dos serviços públicos, e outras pautas onde os demagogos têm predominado? Tem como repetir o projeto de Lula para 2002, que mostrou que um país que investe nos pobres, beneficia toda a população?

O paneleiro que não retornou à Paulista pode salvar o Brasil. Na resistência contra o retrocesso, na defesa de responsabilização de todos os acusados de corrupção, no diálogo aberto sobre a necessidade de manter e expandir as conquistas sociais, há entre os paneleiros de 2015 pessoas dispostas a compor com o campo progressista. Taxando todos de fascistas, arriscamos força-los a vestir mesmo a carapuça amarelada e votar Bolsonaro em 2018.

A esquerda tem condição de propor melhorias para os 99%. Não podemos desistir da classe média, cujo crescimento no país é uma de nossas maiores conquistas. Com didatismo e humildade, é necessário expandir as atividades para além da militância uniformizada, e buscar o pensamento progressista em novos foros de participação política.

Leonardo Nader é doutorando em Direitos Humanos e Política Global pela Scuola Superiore Sant’anna, em Pisa, na Itália. É mestre em Direito Internacional dos Direitos Humanos pela UPEACE e pela Universidade de Oxford.

Quinta-feira, 30 de março de 2017
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