É preciso nomear: há uma política genocida, ainda, em curso
Sexta-feira, 31 de março de 2017

É preciso nomear: há uma política genocida, ainda, em curso

Foto: Mãe e pai choram por morte de Duda (Reprodução de vídeo/Sou da Paz)

O escrito de hoje é um grito-denúncia. Um grito-denúncia não diante de uma novidade, mas diante de uma tão cotidiana realidade. Um grito-denúncia de quem tem uma irmã entrando na adolescência. Um grito-denúncia de quem se preocupa sobre o horário que o primo, um verdadeiro irmão, jovem negro retornará para casa e que se alivia, como se isso fosse normal, quando sabe que ele está bem. Mas isto não é normal. Isto não pode ser normal!

Maria Eduarda Alves da Conceição. Digamos o nome dela em alto e bom som. Digamos o nome dela em uníssono, como um grito que ecoa para passar o acalanto necessário à mãe de Maria Eduarda. O grito em uníssono dos que não aguentam mais tamanha violência, tamanho genocídio.

Segundo a Agência Brasil, testemunhas contaram à família que policiais atiraram contra homens que estavam perto da escola. Esses tiros, segundo os relatos, teriam atingido a quadra da escola e também a sala da direção, no segundo andar. Professores relatam os mesmos fatos e contam que tentaram proteger as crianças e os adolescentes nos corredores. A turma que estava na quadra, no entanto, estava mais exposta. A mais exposta de todas, foi Maria Eduarda, ou Duda, como era carinhosamente conhecida.

A adolescente Maria Eduarda Alves da Conceição tinha 13 anos e estava dentro da escola no momento em que foi assassinada. Atleta, estudiosa e cheia de sonhos. O que dirão, agora, os que bravejam e correm a construir narrativas de criminalização de jovens negros assassinados todos os dias sobre Maria Eduarda? Ela estava dentro da escola, um local que, aparentemente, deveria ser seguro. Um lugar em que sua mãe acreditava ser seguro.

Segundo relatório da CPI do Senado sobre “Assassinato de Jovens”, no Brasil, todo ano, 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados. Por dia, 63. Um a cada 23 minutos (2016). Os dados do Mapa da Violência apontam números mais altos, são 30 mil jovens de 15 a 29 anos assassinados, sendo 77% negros. E destes, 91,3% são do sexo masculino. É preciso nomear todos eles e, também, as 8, 7% de jovens mulheres negras assassinadas.

O filósofo grego Platão formulava sobre a importância de nomear e dizer. Para ele, nomear é dar existência. Não é possível falar de algo que não tem nome. Sendo a língua um importante instrumento simbólico, conforme apontou Bourdieu (1996), nomear, portanto, no ato da fala é, também, dar sentido. Não sendo apartadas, linguagem e língua precisam, para ter efeito, do sujeito da ação de falar e expor, de nomear e dar sentido. É preciso nomear.

Quando Abdias do Nascimento cunhou o processo racista brasileiro como “genocídio”, não buscava, superficialmente, chocar a sociedade brasileira, mas nomear devidamente o processo de exploração, assimilação, aculturação, violências simbólicas, coerção, tolhimento de liberdade, culminando na morte física do negro no Brasil, baseados no mito da democracia racial e da miscigenação forjadas no estupro de mulheres negras. Do mesmo modo, quando a Juventude Negra brasileira retoma o conceito de Abdias, em 2007, para denunciar a violência policial e institucional contra jovens negros, ela também está nomeando, dando existência a uma opressão que está no cerne constitutivo da sociedade brasileira.

Mulheres negras são constantemente silenciadas e apagadas em diversos processos. Tomando como referência que o racismo e o machismo são estruturais e estruturantes da sociedade brasileira, não só pela sua existência, mas por emaranhados que são na constituição da identidade e do estado nacional brasileiros, as mulheres negras sofrem uma dupla opressão de saída. Se inserirmos, então, outras características, como de orientação sexual, geracional e de classe, estas opressões aprofundam o fosso que insiste em negar dignidade e humanidade às mulheres negras. Portanto, nomear é, também, dar sentido de dignidade e humanidade.

É aí, então, que aparece a “urgência da interseccionalidade”, conforme pontuou Kimberly Crenshaw, em outubro de 2016. Em uma conferência, ao citar os nomes de vários jovens negros assassinados pela polícia nos EUA, Crenshaw citou primeiro um grupo de homens jovens, seguido de mulheres jovens e pediu para que as pessoas se sentassem caso não conhecessem os nomes citados. Ao final da citação dos nomes das mulheres jovens assassinadas, apenas 4 pessoas mantiveram-se em pé na plateia. E, citando Crenshaw, “a única coisa que separava aqueles grupos de pessoas era o gênero”. Sempre falamos separadamente de violência policial e violência contra as mulheres. A interseccionalidade é um conceito urgente porque permite que cruzemos estas questões e percebamos que as mulheres também são vitimadas pela polícia e pela violência estatal. Não nomear, portanto, não permite “ver como problemas sociais impactam todos os membros de um ‘grupo-alvo’” (Crenshaw, 2016).

Ao falar sobre “a importância de romper com os silêncios”, Djamila Ribeiro, em conferência em Novembro de 2016, aponta que romper com os silêncios é necessário para que superemos “os silêncios institucionais”, “a “naturalização das mortes de corpos negros”, e a falta de referências negras em destaque, porque elas existem, em um país notadamente de maioria negra. Com isso, é importante demarcar que é parte constitutiva do pensamento feminista negro a busca de pluralidades e rompimentos com verdades e “vozes únicas” (Ribeiro, 2016).

Por fim, é preciso nomear que a “guerra às drogas” é uma guerra contra a população negra e periférica. E por que? Porque a lógica imposta nos territórios negros periféricos é de Estado policial. Ora, é o Estado brasileiro que formula, corrobora e aplica um discurso de que negros são “elementos” perigosos. Este discurso é chancelado pela sociedade que alimenta mais violência, tortura, prisões e genocídio. É baseando-se no combate ao tráfico que o Estado obtém a chancela social para militarizar territórios negros periféricos. É preciso discutir, portanto, o impacto da lei de drogas neste processo, ao passo que ela não enfrenta a questão de forma sistêmica, atuando apenas na ponta do mercado de drogas e sobre pequenos traficantes.

Duas questões colocadas pela socióloga Nathália Oliveira, militante de Direitos Humanos, são muito pertinentes neste debate: Alguém, por acaso, conhece favelas com espaço para plantações, cultivo ou, até mesmo, laboratórios para o refinamento de drogas? E já refletiram de por que está ação ser tão focada nestes territórios?

É preciso discutir este mercado informal que ameaça instituições do próprio Estado, já que, ilegais, este comércio envolve ações criminosas e que se instalam em diversas instâncias de poder. “A guerra às drogas aprofunda vulnerabilidades sociais, desde os trabalhadores em sua cadeia produtiva até na ação do aparato repressor que militariza territórios e destrói corpos e vidas negras” (INNPD).

E o que isso tem a ver com a jovem e os outros jovens assassinados pela polícia na ação em Acari? Estariam eles mortos não fosse esta guerra? Não podemos dizer com toda a certeza, posto que as engrenagens do racismo se renovam. Mas não tenho dúvidas que suas chances de vida seriam maiores. Daí a importância de nomearmos. Daí a importância de não permitirmos que silenciem as mães destes jovens e que eles não sejam esquecidos. Daí a importância de rompermos com a naturalização desta violência e da usurpação destas vidas.

Eu gostaria muito de abraçar estas mães. Mais mulheres negras sofrendo dores que não consigo mensurar. Nossa solidariedade é o mínimo neste momento. Nossa denúncia é necessária. É preciso nomear o que vivemos neste país. É preciso romper o silêncio. É preciso gritar.

Juliana Borges é pesquisadora em Antropologia na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde cursa Sociologia e Política. Foi Secretária Adjunta de Políticas para as Mulheres da Prefeitura de São Paulo (2013).

Sexta-feira, 31 de março de 2017
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend