O cotidiano da mãe de jovem preso
Segunda-feira, 10 de abril de 2017

O cotidiano da mãe de jovem preso

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Às quatro e meia da manhã ela já tinha passado o café, a roupa que usaria durante o dia, assim como o uniforme da escola dos filhos mais novos, que ficariam com a mãe de sua vizinha, que cuidava dos netos para a filha ir a mais uma entrevista de emprego, e levaria todos juntos para a escola.

Faltava esperar que o dono da venda da esquina abrisse as portas para emprestar o restante do dinheiro para a passagem.

Redividiu os biscoitos nos embrulhos que havia preparado para o lanche das crianças e separou alguns para levar na bolsa. Talvez conseguisse comprar um salgado para o almoço no caminho, mas precisava guardar uma parte para a passagem de volta do seu filho mais velho que, com certeza, voltaria pra casa consigo naquele dia, tão esperado quanto o de seu nascimento.

O Sr. Alberto era madrugador e antes das seis já estava lavando a calçada em frente ao seu pequeno armazém. Sorte sua! Com promessas de trazer de volta o guri, agradeceu o empréstimo do dinheiro, e seguiu para o primeiro ponto de ônibus do dia.

Após três baldeações e um pouco de trânsito conseguiu chegar cedo ao local onde seriam as audiências.

Eram onze horas da manhã e sol brilhava forte e quente na Ilha do Governador.

Faltavam ainda duas horas para o início das reavaliações das medidas dos adolescentes internados. 101 naquele dia.

Alguns pais já haviam chegado e aguardavam sentados na calçada.

Comeu dois pedaços de biscoito, prevendo que o dia seria longo e que precisaria poupar a comida.

O salgado ficava para a volta, porque o menino poderia estar com muita fome até lá, pensou.

Os adolescentes chegaram nas viaturas e seguiram para dentro do prédio. Ela se esforçou, mas não conseguiu ver o filho.

Algumas horas depois, ouviu que a audiência dele deveria ficar pro final da pauta e que teria de ser paciente. Um pouco mais paciente.

Conversou com outras mães, pais, avós, irmãos. Reconheceu alguns. Alguém lhe ofereceu bolo, o melhor pedaço de bolo que já havia comido, com sabor de esperança.

As horas se passaram e assistiu ali ao choro e à alegria, alternados, passarem diante de si.

Rezou. O coração batia cada vez mais forte.

Se não conseguisse ir pra casa com o filho, poderia lhe dar um abraço, talvez?

Ouviu aquele nome, escolhido dentre um milhão, na noite longa em que trouxe outra vida ao mundo. Levantou sobressaltada e avistou o rosto familiar. Os olhares se encontraram naquele minuto de apreensão.

Quase seis meses, mais que a eternidade, se passaram desde o dia em que seu mundo ruiu…

Todos os esforços para proteger o menino dos perigos que lhe batiam à porta, desde que começou a ter que se dirigir ao rapaz olhando pra cima… depois do estirão que lhe roubou o sossego. Em vão?

Um abraço nervoso. Sentaram-se numa mesa rodeada de pessoas desconhecidas. Aquela na frente, no meio de pilhas de pastas e papéis, cercada por outras pessoas que não lhe sorriem, era a juíza.

A vida não sorri. Tudo é rápido e lento, numa estranha relação entre o tempo, o espaço, a esperança, o cansaço e a dor.

“Sua próxima audiência será em seis meses. Podem se levantar para assinar os papéis.”

Segurou o choro e viu o filho tão atônito e aflito quanto no dia em que se perdeu de seus passos na rua.

Abraçou o menino, muito mais alto, e sorriu: estamos juntos!

Nos minutos seguintes, puderam finalmente trocar algumas palavras. Fica forte, seus irmãos estão com saudades, o trabalho vai bem. O tempo voa.

Na volta, não sentiu fome, mas exaustão. Durante o trajeto, poderia comprar algo pra comer. Mas preferiu guardar o dinheiro. Sábado é dia de visita.

Lara Alondra Graça é Defensora Pública no Rio de Janeiro.

Segunda-feira, 10 de abril de 2017
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